domingo, 5 de junho de 2011

A extração 2

Continuação de um momento passado, bem dolorido.



Duas semanas após a cirurgia para retirar meu primeiro dente do siso, há longos dois anos e meio, o segundo foi extraído. Eu, mais esperto e experiente, saí do consultório já para a farmácia, encomendei os remédios necessários e me cuidei para não sofrer tanto como da outra vez. Deu certo. O problema é que ainda restavam outros dois terceiros molares, os de baixo, segundo a dentista responsável pelas primeiras extrações, em posições bem mais complicadas de serem retirados.

O tempo passou, eu me mudei de cidade, larguei o emprego, comecei a trabalhar outra vez e deixei de lado a preocupação com os sisos inferiores durante o período. Até que decidi procurar outro dentista para analisar a real necessidade de tirar os dentes, aproveitando que moro com minha família (sei lá, poderia precisar deles) e a empresa tem convênio odontológico.

Do consultório, sou encaminhado a uma clínica de raios-x. Nada agradável as plaquinhas na minha boca empurrando minha língua e me fazendo engasgar. Um dos lados não deu certo e tive que repetir o procedimento. Pronto, agora sim. Levo o resultado de volta ao dentista. Ele analisa, fica sério e em silêncio e depois solta a primeira das más notícias: “Tem uma coisa que eu preciso te falar antes. Seus dentes estão bem deitados e as raízes estão dentro do nervo, que passa por baixo da arcada dentária”. Não parecia legal. Completou me informando que nesse caso tanto o pré quanto o pós-operatório não são simples e que havia chances reais de eu perder a sensibilidade na boca onde estão os dentes, pelo menos por um tempo.

Dia marcado, hora marcada, medicamentos recomendados tomados, lá estou eu na antessala no aguardo da cirurgia. Chego pontualmente às 11h e só sou atendido ao meio-dia. Quando entro na sala, a primeira surpresa: outro dentista acompanharia a extração. Em princípio, não fiz ideia do porquê. Começa a operação. As radiografias afixadas no aparelho de luz da cadeira me mostravam o quão horizontal cada dente estava, o que não me transmitia exatamente muita tranquilidade. Pano na cabeça que deixa só o rosto para fora e anestesia, anestesia, anestesia.

Em seguida eu descobri qual era a função do segundo dentista: segurar o sugador. Mas mais que isso, me manter atento. Ao menor sinal meu de distração, ele descia o aparelho para mais dentro da garganta, tentando me fazer engasgar. Isso umas mil vezes, algumas com sucesso. Quando eu já estava na situação desagradável de ter pelo menos três mãos na minha boca, além de sugador, agulha e uma ponta de metal, o dentista titular pergunta ao colega: “A final da Copa do Brasil é sábado?” Ao que ele responde: “Acho que é sim”. Eu não me contive e intervi: “Hum-hum”, e levantei quatro dedos da mão. “Ah, é quarta?” “Aham”.

Dez minutos mais tarde, a pergunta é para mim: “Você é vascaíno, cara?” Como responder isso com tantas mãos, aparelhos e sangue na boca? Só enfiei a mão no bolso e mostrei meu chaveiro do Corinthians. Saí-me bem. Mudando o assunto, a recomendação foi para que eu não me preocupasse com alguns pequenos estalos que ouviria. Tensão. Alicate na boca e creck, crack, track. Sai um pedaço de dente, outro pedaço, mais outro. Eu nem olho para a mesinha ao lado, onde as partes são depositadas – melhor não ter certeza do que está acontecendo.

O primeiro dente é extraído, em partes, mas é. Antes de começar os procedimentos para o segundo, ouço: “Umm, este está bem dentro do osso. O buraco vai ser grande. Você vai lembrar de mim por uma semana”. Está certo que ele é dentista, não psicólogo, mas, cá entre nós, precisa desse terrorismo? Outra observação: os aparelhos que são colocados na boca dos pacientes não deveriam ter dois lados. Uma ponta cutuca e logo depois a outra precisa ser usada para pressionar, alçando a primeira, empapada de sangue, aos olhos do enfermo. Não é bacana, sério.

Enfim, último dente fora. Com base na primeira trágica experiência, já peço um arsenal de remédios. Defendo que prefiro ficar dopado a sentir aquela dor insuportável. O dentista me garante que vai me passar o remédio mais poderoso. Deve ser mesmo, porque precisei assinar um papel na farmácia com meu nome completo, endereço, documento de identidade e telefone. Por pouco não levantam minha ficha criminal e analisam minhas comunidades no Orkut. Mas o tal medicamento funciona, segurou a onda legal. Fiquei sabendo que é forte mesmo, indicado para pacientes com câncer.

Por fim, em um texto sobre odontologia ele não pode faltar. Fica meu registro de protesto contra o motorzinho e seu barulho assustador. Ele foi usado tantas vezes que uma hora eu achei que o dente não seria mais extraído, mas pulverizado até sumir. Felizmente não nos veremos tão cedo, motor. Pelo menos eu espero.

7 comentários:

Maicou disse...

Imagina ser atendido por alguém da própria família?

Ao menor sinal de problema a dentista diz assustada "ai meu Deus, ai meu Deus"...

Ética é importante até quando o paciente é o irmão!

Régis André disse...

só pra dizer q eu li =P
(e boa sorte na recuperação)

Equipe Veredas disse...

É meio tenso mesmo...fui num dentista mega fanfarrão e quis tirar os 4 de uma vez, mas ele não deixou.Mas meu processo foi rápido e quase indolor...senti mta dor só no dia msm. Em uma semana tava tudo fechado já, o cara disse que nunca tinha visto uma cicatrização tão rápida! Típico Volverine, tá ligado?
Mas a melhor notícia de todas é que você nunca mais precisará se preocupar com seus cisos...

Luiza disse...

Uai...equipe Veredas é o caralho!!
Fui eu quem postou!

hehehe

beijos

João disse...

Eu tirei 6 sisos (sim, foram 6, eu devo ser o elo perdido e ter 2 apêndices) de uma vez só, quando era adolescente ainda, uma grande experiência em termos de parecer o quico, falar engraçado e tomar apenas sorvete durante uma semana.

Ulisses Vasconcellos disse...

Pô João, SEIS?

Agora eu revi toda minha trajetória odontóloga com outros olhos e concluí que era feliz e não sabia.

Mas que isso não é coisa de ser humano, não é não.

Samira Calais disse...

Quando eu tirei meus 4 sisos, meu dentista queria tirar os 4 no mesmo dia. Achei melhor não, porque os 15 anos de tratamento com o mesmo dentista me fez conhecer o quanto ele é louco.
Foi da forma tradicional: os da direita numa semana e os da esquerda na outra (aliás, isso de tirar primeiro os de cima e depois os de baixo é muito sofrimento!).

Como eu já disse, meu dentista é um cavalo e ele tirou cada dente com uma média de 1 minuto. Isso porque um tava com a raiz funda (mas não deitado como o seu). Mas, quando eu percebi, ele levantou, apoiou o pé na cadeira e puxou meu dente.

Cara, arrancar siso é coisa de gente louca. Você vê, sente e percebe tudo que tá acontecendo (leia-se sabe o que cada instrumento tá fazendo). A sorte é que com um remedio bem caprichado a dor passa longe, né?

É mesmo um alívio pensar que já me livrei disso.