terça-feira, 13 de março de 2012

Bola metade


Enfim, o Antônio aceitou sair com o pessoal da empresa. Depois de meses sendo convidado para os happy hours e só agradecendo, ele disse que iria à comemoração do aniversário do Couto, na terça-feira, em um bar novo na cidade. Os colegas brincaram que teriam duas festas em uma – a do aniversariante e a presença, inédita, do Antônio. O fato é que, desde que o casamento dele terminara, tornou-se um cara caseiro. Era adverso a festas e badalações. O Couto era mesmo um cara super gente fina e amigo de todo mundo, mas a ida do Antônio ao bar poderia significar, para quem convivia com ele, um princípio de mudança de atitude.

O Antônio casou-se cedo, com uma amiga da faculdade. O matrimônio não deu certo e, aos trinta anos, estava solteiro de novo, mas sem o menor pique. Passou a dedicar todo o seu tempo livre a um único passatempo: assistir futebol na tevê. Na verdade, embora não admitisse, ele era um camisa nove frustrado. Um jovem goleador, campeão de todos os torneios amadores da região, que não teve chance de seguir como profissional por conta de uma lesão no joelho esquerdo durante um teste. Trocou os gramados pela nostalgia, diziam.

Ele sabia de cor a classificação dos campeonatos. E tinha as tabelas na ponta da língua. Assinou canais por assinatura e acompanhava todas as ligas exibidas. Quando não era horário de jogos, Antônio divertia-se assistindo a antigos clássicos pela internet. Fazia pipoca e tudo. Meia dúzia de long necks para as semifinais da Copa de 54. Pizza no forno para a primeira rodada da Copa da Holanda ao vivo. Um pacote grande de Doritos por um bom Ba-Vi.

Agora lá estava o Antônio no bar, em plena terça, com os colegas. O espaço era novo para todo mundo, recém-inaugurado. Eles juntaram algumas mesas, pediram cervejas e uns petiscos. O pessoal se divertia contando casos engraçados com clientes. Papo vai papo vem, o Antônio mirou uma mesa do outro lado do bar, se surpreendeu e fixou o olhar. Nela, uma mulher bonita, atraente, trajada com um belo vestido e com longos cabelos pretos cacheados sobre os ombros. Pernas cruzadas. Sozinha. Ele a observou por alguns segundos. Na certa, esperava por alguém.

A partir de então, Antônio não conseguiu prestar atenção em mais conversa alguma. Todo o bar foi sumariamente ofuscado pela beleza da morena dos cachos. Ainda sozinha. Apenas uma taça de vinho na mesa. Ele percebeu traços de impaciência no comportamento dela. Olhava fixamente para um ponto, fora do campo de visão dele, bloqueado por uma pilastra. Balançava as pernas num ritmo constante de inquietude. Chegou a morder o lábio inferior mais de uma vez. Definitivamente, ela estava tensa.

Os minutos passavam, o papo na mesa já era a última festa da empresa e o Antônio estava cada vez mais longe do assunto e do cotidiano corporativo. A mulher continuava só, com o corpo inerte e a face voltada a um canto do bar onde impiedosamente o olhar dele não alcançava. Curiosidade fatal. Ele teve a impressão de tê-la visto balbuciar, baixinho, um palavrão. E, estranhamente, assim ela pareceu ainda mais charmosa.

De súbito, a bela se levantou. Como quem tinha a plena certeza de que aquela era a hora de partir. Pagou a conta no caixa e deixou o bar, sem perceber qualquer outro freguês, mas a tempo de passar ao lado da mesa de Antônio e permitir que ele sentisse seu leve perfume. O rapaz não resistiu, foi até a mesa em que ela estava para conferir o que a mulher mirava com tamanho interesse. Surpreso, riu para ele mesmo. Uma televisão exibia uma tela dividida entre um repórter entrevistando um jogador de futebol ainda no campo após uma partida imediatamente terminada e a classificação da Série B do Brasileirão. Ela era só uma torcedora apaixonada. E talvez ele tivesse encontrado sua alma gêmea.

No sábado teria jogo de novo. E ele estaria lá outra vez.

quarta-feira, 7 de março de 2012

O homem e os ratos

Eu sempre gostei de animais. Sempre mesmo, desde que me entendo por gente. Até cogitei cursar Veterinária, mas desisti logo quando me toquei que me dava muito melhor com o Português do que com a Biologia. E sempre gostei de ter animais. Lembro-me com detalhes de como foram meus primeiros encontros com os cachorros que tive: o Rex, o Ringo, a Paquita e o Nick – os dois últimos meus mesmo, não da minha família.

As adversidades sociais modernas me impedem de ter outro cão. Morar em apartamento e não saber onde vou estar num prazo médio são fatores cruciais aqui. Já há alguns anos, então, contorno a situação criando roedores. Viajo nos ratinhos, me faz bem observá-los.

Eu sempre gostei de dormir. Sempre mesmo, desde que me entendo por gente. Era o último a levantar e o campeão de horas seguidas de sono. Até hoje, aos finais de semana, dependendo da madrugada anterior, só vejo a luz do sol na tarde seguinte quando ela quase não existe mais.

Nunca fui de sonhar muito. Pelo menos, não que eu me lembre. Nem de ter sonhos proféticos ou esquisitos. Mas algo tem me chamado a atenção: de um tempo pra cá tenho sonhado, costumeiramente, com, vejam só, roedores!

Talvez seja porque os bichinhos estão na minha vida não é de hoje. O primeiro foi o Rock, quando eu estava na sexta série. Comprei o hamster – desses comuns, amarelinho – numa loja em frente à escola e o levei pra casa numa caixa de papel, sem me preocupar que ele precisaria de um lugar para morar. O jeito foi descolar um caixote. Só que o Rock aprendeu a escalar a madeira e fugir. E eu o procurava pela casa meio desesperado, até que descobri onde era o esconderijo do bicho: embaixo da geladeira. Então, eu guardava o rato outra vez no caixote, ele fugia daí a pouco e eu o pegava embaixo da geladeira. Sucessivamente. Uma hora saí com a minha família e, quando voltamos, ele não estava nem na caixa e nem na cozinha. Fui encontrá-lo no outro dia embaixo do pneu de um carro em frente à minha casa, todo amassado e rodeado por insetos. E eu morava no segundo andar! Triste cena. Pelos meus cálculos, ele foi meu por dois dias. Deixou algumas lembranças, como quando urinou na minha mão e minha mãe ficou gritando que xixi de rato passava doença.

A segunda da lista foi a Maria, uma gerbil (ou esquilo da Mongólia). Eu nem imaginava que existisse essa espécie, até que, já durante a faculdade, entrei em uma loja de pets e a vi. Resultado: comprei-a, em parceria com meus companheiros de república, e ela virou mascote da casa e xodó da turma. Certa vez, conheci um cara que criava gerbils (imagino que seja esse o plural) e ele me ofereceu uma ratinha filhote para fazer companhia à Maria. Aceitei. Mas antes que a roedorazinha conhecesse sua futura amiga, a Maria se foi. Morreu quando uma escada, dessas móveis, caiu sobre ela, na noite de Natal. Acredito que tenha sido a vez que eu mais chorei na vida. Às lágrimas, velei a pobre em uma caixinha de pasta de dente e a enterrei num canteiro na garagem do prédio. Com uma cruz por cima.


Entrei em contato com o rapaz que me daria a outra esquila e contei do falecimento. Ele me ofereceu então duas roedoras. E, assim, entravam na minha vida a Lisa e a Maggie. Com nomes inspirados nas filhas de Homer Simpson, elas tornaram-se as novas mascotes da república e estiveram comigo até que eu me formasse. Depois, me mudei para longe e elas foram herdadas pela minha família. As duas irmãs se foram – dessa vez, de forma natural, sem desgraças. A Lisa morreu primeiro e a Maggie, já velhinha e debilitada, foi ao céu dos esquilos encontrar-se com a irmã.



Vieram alguns anos sem bichos. Mas não me desfiz da estrutura de criação, principalmente do aquário onde os roedores moravam. Até que recebi um presente: Zé e Superman – dois hamsters chineses assim batizados pelo meu priminho, então com cinco anos e dono dos pais dos ratinhos. A verdade é que eu nunca soube quem era quem porque eles eram absolutamente iguais. Um deles já passou dessa para melhor, mas o outro, que convencionei ser o Zé, está esbanjando saúde, cochilando durante o dia e correndo na rodinha à noite.

Talvez pela variedade de espécies e personalidades dos roedores com quem convivi, meu cérebro insista em me fazer sonhar com os bichos. Só que não são sonhos bons. O roteiro é mais ou menos o mesmo: eu perco o ratinho, como acontecia com o Rock, e, tenso, custo a localizá-lo. Aí percebo que não tenho só um roedor, mas muitos! São gaiolas e aquários, de todas as formas e tamanhos, completamente cheios. Nessa hora me sinto muito mal porque não consigo me lembrar desde quando tenho tantos animais e nem há quanto tempo não os alimento. E ainda me aflige a ideia de que há machos e fêmeas juntos e que, em questão de instantes, eles se reproduzirão incessantemente e a casa será tomada por roedores. Então, me aparece, de supetão, o Cazuza, todo despenteado e bebasso, cantando alto no meu ouvido “a tua piscina tá cheia de ratos, tuas ideias não correspondem aos fatos”. Tá, essa parte é mentira. Só escrevi pra eu ver como poderia ser pior.

Vez por outra ainda acontecem coisas inexplicáveis, como quando, em um dos sonhos, eu criava ratos em um aquário, só que com água. E eles viviam de boa, nadando como se tudo estivesse nos padrões da Mãe Natureza. E no último sonho que tive, em uma das gaiolas próxima às dos roedores, eu criava pedaços de torresmo fritos.

O mais interessante dos sonhos são as gaiolas que descubro que tenho. Costumam ser grandes, com vários andares, rampas e túneis. Coisas de outro mundo. Certa vez, uma tinha três andares, estrutura de vidro envolta por madeira nas laterais e um sistema sensacional de iluminação interna. Tá aí, acho que eu deveria ser contratado por designers de gaiolas e me deixarem dormindo, até eu ter um sonho desses e descrever as residências que vejo para que eles as criem no mundo real. Estou sendo desperdiçado.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Os jornais


O firmamento já estava praticamente tomado pela escuridão da noite quando ele chegava em casa. Os sapatos pareciam bigornas atadas aos pés e o andar era arrastado e lento. Os ombros pesavam e sua postura era a de um homem esgotado. O cansaço psicológico refletia no corpo. Paletó em uma das mãos, gravata e camisa afrouxadas. Há alguns meses, o trabalho o consumia e a pressão pela entrega de resultados transformou-se em uma bomba-relógio prestes a minar o resto de sua saúde. Vivia a tensão de perder o cargo de direção na empresa. A maleta nas mãos carregava documentos e relatórios que poderiam mudar sua vida para sempre. Mas quando avistava sua casa, algumas dezenas de metros à frente, sorria por um instante. Sabia que lá alguém o esperava cheio de expectativas.

Ouviu, de dentro, um grito por ele. Mal havia terminado de girar a chave na fechadura para abrir a porta, foi recebido com a maior empolgação do mundo. Ao ponto de desequilibrar-se e ter que se segurar para não cair. Era assim, todos os dias. O retorno ao lar afastava de sua mente as preocupações e qualquer pensamento ruim e ele sentia-se especial. Enquanto deixava a maleta sobre a mesa da sala e o paletó sobre uma cadeira qualquer, recebia longas e afáveis lambidas nas mãos. O cão oferecia a ele um universo de sossego e distração em troca apenas de alguns simples cafunés.

Desde que a família reduzira-se apenas aos dois, quando a dona da casa fora vencida por uma enfermidade, tornaram-se melhores amigos. O cachorro era dela, mas homem e animal viram-se sozinhos no mesmo espaço e decidiram dar uma chance um ao outro. Entenderam-se, após anos de convívio distante. Apaixonaram-se. Agora não se separavam mais.

O humano não precisava mais de despertador. Todos os dias, pontualmente, às 6h, era acordado com uma lambida nos pés. Um afago no bicho e ia ao banho, enquanto o animal corria ao jardim para buscar o jornal. O dono lia as notícias durante o café, enquanto o cão comia seus biscoitos ao pé da mesa. Depois, era hora da caminhada pelo bairro. Sem a necessidade de coleira. Eles mantinham-se próximos porque queriam. Alguns minutos de descanso na praça, um carinho e era tempo de partir ou se atrasariam. Um deles precisava trabalhar.

No início da noite, após o massacrante expediente, outra volta pelo bairro. Para o animal, oportunidade para exercitar-se, praticar o latido no duelo verbal com outros cachorros e, quem sabe, descolar uma namorada. Para o humano, hora de esquecer toda a complexidade da sociedade e do mundo corporativo. Após a caminhada, jantavam juntos e tiravam um cochilo no sofá vendo qualquer coisa na TV.

Novo dia, mesma rotina: despertador de língua, banho, jornal no café, passeio pelo bairro. Trabalho. Volta pra casa, festa, passeio pelo bairro, jantar, sofá.

Numa madrugada como qualquer outra, um deles passou mal, com uma forte dor no peito. O outro soube que o próximo dia não seria de festa. Sentiu que não viria notícia boa. Descobriram uma doença. Em questão de semanas, ele piorou. Mantiveram-se um ao lado do outro todo o tempo. Um esperava à porta do consultório enquanto o outro fazia exames. Estava por perto na hora dos remédios. Diminuíram o ritmo do passo nas caminhadas. Um ensinou o outro a ser mais humano e o outro lhe ensinou a ser menos animal. Tentaram manter a doce e consagrada rotina por quanto tempo fosse possível.

Embora não admitissem, sabiam que a parceria estava prestes a terminar. E acabou numa manhã fresca de sábado. A saúde cedeu, a bomba-relógio explodiu. Em silêncio, ele tocou o corpo inerte do amigo e aguardou ao seu lado o socorro, que chegou tarde demais. Saiu de maca e cheio de tubos e eles nunca mais se viram. Mas os jornais continuam a ser entregues, infalivelmente, todas as manhãs.







Inspirado nessa charge, que desconheço a autoria (além da assinatura meio ilegível). E em todo o sentido que carrega a palavra lealdade.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Bodas de diamante


A primeira vez em que ela o viu foi em uma daquelas ladeiras estreitas, no início de noite de sexta-feira de Carnaval. Foi rápido, o caminho deles se cruzou, mas ele nem a notou, estava com alguns amigos, abraçados, rindo por algum caso bobo. Ele chamou a atenção dela, que diminuiu o ritmo do passo, parou a descida e o acompanhou com os olhos até que ele se perdesse em meio à multidão morro acima. Coisa de instantes. E ela, que tinha ido pela primeira a vez a Diamantina para se divertir com as amigas, sentiu uma sensação diferente e, pode-se dizer, bastante inesperada.

Já há algum tempo ela não saía muito de casa, tinha tido problemas no relacionamento anterior e o trabalho e o a faculdade ultimamente a tomavam todo o tempo. Até que decidiu acompanhar as amigas na viagem até a famosa cidade histórica pro Carnaval – faria bem distrair um pouco. Jamais esperou encontrar alguém especial.

Tudo muito divertido, uma infinidade de novos amigos, brincadeiras e Berolas do Gilmar. Eis que, na madrugada do sábado, quando o Barracão já comandava o som da Bartucada na Praça do Mercado e cantava “Eu quero esse amor”, ela o viu novamente. Era ele, não teve dúvidas. Resolveu chegar mais perto, como quem não quer nada, para ver como ele era de verdade e, quem sabe, ser percebida. Mas a ideia não deu certo. Tinha gente demais entre eles e, minutos depois, quando ela chegou aonde ele estava, o rapaz já tinha sumido. Meio frustrada, achou que estava ficando era louca.

Ela relevou, não podia estar gostando de alguém que nem conhecia. Ainda mais dadas as circunstâncias. Resolveu seguir os conselhos das amigas, desencanar e curtir o Carnaval. E foi o que ela fez. Mas só até a tarde de domingo, quando, no auge do Bar do Titi, avistou outra vez o tal moço. Tomou um susto, dessa vez eles estavam muito perto um do outro. Os óculos escuros não enganavam, era o cara que há dois dias frequentava os pensamentos dela. Talvez fosse a hora certa de rolar alguma coisa. Talvez se ele não estivesse tão embriagado. Mal conseguindo caminhar, ele ficou pouco tempo e partiu, ajudado por um amigo. Ela ficou, sem saber o que sentir.

Na segunda-feira, outra vez os caminhos deles se cruzaram, no samba na Baiúca. E dessa vez ele estava sóbrio! Mas acompanhado. Ela sentiu um calafrio quando o viu com uma garota (na verdade, nem soube se eles se beijaram, preferiu trocar sua rota antes). Já estava intrigada, os encontros – ou desencontros – estavam atrapalhando seu Carnaval.

Já era noite de terça e os tambores da Bat-Caverna ecoavam por toda a terra de JK. Ela foi discretamente avisada pelas amigas que um rapaz a observava, a alguns metros. Quando se virou, não acreditou: era ele. Estava com os amigos, brincavam como crianças entre si e cantavam uma música aparentemente sem sentido. Ele a olhou algumas vezes. Ela também. Ele sorriu. E ela correspondeu. Ele caminhou em direção a ela tentando vencer a multidão. Ela se encheu de expectativas. A música cessou, luzes se apagaram e o grande holofote redondo iluminou o alto do casarão.

Ela olhou a luz e, quando tentou mirar o rapaz, não mais o viu. Ele não veio. Talvez ela tenha entendido errado, o sorriso nem deveria ter sido para ela. O Batman apareceu lá no alto, cantou uma canção de amor e desceu ao palco atado aos cabos da tirolesa, embalado pelo tema do seriado tocado a todo vapor pela banda. Durante a descida do Morcego, ele rapidamente olhou para ela e ela teve a impressão de que ele cantou uma música inteira sem tirar os olhos dela. Tinha mesmo ficado louca.

A moça e o rapaz nunca mais se viram. Quem sabe o ônibus para a cidade dele saiu na terça-feira, logo após eles terem se visto e ele teve, a contragosto, que ir. Quem sabe o destino preferiu separá-los a dar a eles só uma noite juntos. Na Quarta-feira de Cinzas ela voltou pra casa, cansada, exaustada, feliz e com a sensação de que o Carnaval tinha sido inesquecível. E com a sensação de que se apaixonara pelo Batman. Não o vocalista da Bat-Caverna, que desceu e fez um show sensacional. Mas o verdadeiro Wayne, que poderia estar lá e ter tido que deixar a terra dos diamantes às pressas rumo a Gotham City para atender algum chamado urgente disparado via holofote pelo mordomo Alfred. Sei lá, assim ficava mais fácil aceitar as coisas.

domingo, 8 de janeiro de 2012

A Corrida da Chuva


São Pedro estava a postos para a largada. Ele se sentia o máximo com o capacete preto, os óculos escuros e a bandeira na mão. Os competidores estavam ansiosos para o início da corrida. Ao primeiro movimento de braço do santo do tempo, as gotas partiram das nuvens rumo ao solo da Terra na maior velocidade possível. São Pedro sorriu um riso agradável, a prova tinha tudo para ser das melhores de todos os tempos.

Um pingo estava especialmente confiante. A Corrida da Chuva era coisa séria e ele havia se preparado e estudado seus concorrentes e as técnicas dos vencedores das outras edições da competição. Em princípio, uma grande quantidade de gotas dividia a linha de frente da enorme tempestade que se iniciaria.

O pingo acreditava que era o dia dele. Dava rápidas olhadas para os concorrentes e imprimia todo seu micropeso na parte da frente do corpo, que alcançaria o chão primeiro. Ele acreditava que concentração é a palavra-chave para vencer uma disputa de velocidade individual.

O solo se aproximava e o pingo forçou o máximo que conseguiu e, pouco a pouco, se distanciou alguns milímetros das outras gotas. Era o seu dia de vitória como atleta profissional. Deu um grito vazio e molhado, prestes a tocar o chão e ser aclamado o campeão da Corrida da Chuva. Um instante depois, o pingo explodiu num barranco antes de todo mundo e foi transformado em minúsculas gotículas. Em seguida, os outros pingos atingiram a superfície da Terra e, juntos, formaram uma enorme massa de água.

Aí não teve mais graça, porque o barranco cedeu e levou dor e tristeza a muita gente. Mas não era essa a intenção dos pingos, coitados. Agora eles torcem para que a chuva seja um sinal de esperança de que a situação será vencida e de que tempos melhores estão por vir.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Dia 25

Já era manhã do dia 25 quando ele chegou de volta à casa, depois de uma longa e cansativa noite de trabalho. O dia já estava claro e, ao longe, o Sol forte iluminava a imensidão branca e fria. O corpo doía, o esforço fora grande. Ele sabia que já não era mais um mocinho e precisava se cuidar, mas o bem que o ofício lhe fazia era tamanho que ele desafiava a própria saúde, ano após ano.

Embora o sono pesasse seus olhos, ainda não era hora de dormir. Acomodou seus companheiros de jornada, os animais, nos aposentos deles e não saiu de lá até certificar-se de que todos estavam bem, que suportaram a pesada madrugada de labuta. Alimentou e deu de beber a um por um – era o mínimo que poderia fazer aos que o levaram com a força do corpo aonde ele pediu durante horas. Abaixado, conferiu os cascos, sarou pequenas feridas nos couros dos bichos abertas por passagens em lugares de difícil acesso. Com certa dificuldade, levantou-se, afagou a cabeça de um deles e sorriu. Depois, caminhou, a passos lentos, rumo à casa.

Enquanto suas botas quebravam a fina camada de gelo no chão entre o estábulo e o lar, ele olhava, orgulhoso, o saco vazio em suas mãos e lembrava-se da noite. A avaliação fora bem positiva, conseguira deixar algo de especial por onde passara. Um menino ganhou um carrinho de controle remoto, uma menina recebeu a boneca que falava. Um rapaz foi surpreendido com um boné que paquerou durante meses na vitrine de uma loja e uma senhora trocou a geladeira depois de algumas décadas. Um pai de família ganhou um emprego melhor, uma jovem estava muito feliz com o novo namorado e dois irmãos conseguiram abrir uma empresa. Um andarilho matou a fome com um prato de sopa quente e um casal brigado se entendeu outra vez.

Em casa, deixou o gorro em uma cadeira de madeira perto da porta, enquanto tirava as botas. Levou o casaco e as calças vermelhas à lavanderia. Como nos outros anos, chegou a cogitar abandonar o posto, mas sabia que, quando se levantasse, estaria melhor e veria que tudo valeu a pena. Pensou ainda em comer algo antes de se render ao cansaço, mas as energias que tinha no corpo só foram suficientes para que ele chegasse ao quarto. Só acordaria à noite. Antes de se entregar ao sono, porém, o velho Noel verificou, sem muita esperança, suas meias penduradas perto da janela. Vazias. Por mais um ano, ninguém se lembrara dele.

Mas dormiu feliz, mesmo assim. O que importava para ele era que os outros pudessem ter um feliz Natal. E o que cabia a ele, ele tinha feito.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Sobre Viçosa, uma crônica e interpretação de textos



Há alguns dias, escrevi uma crônica que marcou minha simples carreira como escritor e mudou pra sempre a história deste blog. E o melhor de tudo: escrevi de forma sincera, despretensiosa, sobre algo que eu conheço e realmente gosto, a cidade de Viçosa e a UFV. Se alguém não sabe e se interessou em saber, sou formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Viçosa e morei lá de 2004 a 2007. Sem o menor pingo de dúvida, os melhores anos da minha vida.

Após a formatura, ganhei o mundo. E, vez ou outra, retorno a Viçosa. Algumas coisas mudam, claro, mas sempre sinto que a essência do lugar continua a mesma. Um fim de semana antes da fatídica crônica, voltei, depois de anos, a uma Cervejada. Foi diferente, já não conhecia mais quase ninguém, mas foi emocionante ver que tantas pessoas estavam vivendo o que um dia eu vivi naquela mesma lama. Dias antes, eu havia recebido a pior notícia do ano: um grande amigo dos tempos da faculdade havia deixado este mundo. O baque com o falecimento de uma pessoa especial contribuiu para que eu refletisse o quão importante foram pra mim os momentos passados nesse pontinho da Zona da Mata mineira.

Assim surgiu o texto. De forma leve, só pelo prazer de escrever, como tantos outros aqui arquivados. Mas, sem querer, acho que contei a história de vida universitária de muita gente. Gente que chega a Viçosa sem ter muita certeza se vai ficar por lá ou se tomou a decisão mais certa e sai agradecendo a quem quer que acredite como força maior pelo que viveu.

Prova disso é que a crônica foi lida por mais de 11.500 pessoas apenas no dia seguinte à postagem. No facebook, já foi compartilhada mais de 6.000 vezes. Tive o cuidado de não incluir nada pessoal e agora concluo que a essência da vida universitária em Viçosa é a mesma para muita gente. Muitos amigos disseram-se orgulhosos de mim, muitos antigos amigos se manifestaram novamente e muitos conhecidos e desconhecidos me parabenizaram pelo texto. Mas eu não fiz nada, só tentei descrever em palavras o que todo mundo está cansado de saber.

Quero agradecer a todos que comentaram. Todos mesmo. Escritores, por mais amadores que sejam (como eu), precisam de retorno para saber se estão no rumo certo. Foi por meio dessas manifestações que tive certeza de que atingi tanta gente de forma tão positiva. Palavras de ex-moradores da cidade e ex-estudantes da universidade, formandos, futuros alunos, mãe e pai de quem passou ou ainda está lá e nativos. Aos viçosenses que se revoltam com a distância entre o município e o meio acadêmico, digo que a questão merece uma discussão maior e mais séria. Mas a UFV não é, de longe, um problema para Viçosa. E a todos que escreveram de forma anônima, sinto apenas pela covardia. É direito de qualquer um gostar ou não de qualquer texto, qualquer lugar e qualquer pessoa. Mas esconder-se para se posicionar de forma contrária à maioria é uma pena e digno de total falta de credibilidade. De toda forma, os comentários aqui estarão sempre abertos. Inclusive aos anônimos.

Por fim, fui tido como alguém que “conhece poucos lugares”, que “precisa viajar mais”. Não vou entrar nesse mérito, mas, definitivamente, não é o caso. E se a interpretação de texto não é o forte da galera por aí, não me furto a fornecer explicações. Vamos lá. Definitivamente Viçosa não é o lugar mais bonito do mundo. Nem a UFV a melhor universidade. Arrisco-me a dizer que não existem boas cidades, faculdades e nem mesmo empresas. O que existem são pessoas. E as que eu tive a alegria de conhecer e conviver em Viçosa valeram por tudo. Foram, são e serão meus melhores amigos por toda a vida. E é por eles que eu gosto tanto daquela terra.

Se você não teve a mesma sorte que eu, escreva, pinte, cante ou fale sobre o seu lugar, as suas pessoas. Exalte a sua Viçosa! Mostre a todos que em algum lugar do mundo você se sente em casa. Quem sabe mais gente bacana resolve aparecer por lá pra abrilhantar ainda mais o seu local...

Valeu Viçosa, meu eterno vício.