domingo, 18 de dezembro de 2011

Dia 25

Já era manhã do dia 25 quando ele chegou de volta à casa, depois de uma longa e cansativa noite de trabalho. O dia já estava claro e, ao longe, o Sol forte iluminava a imensidão branca e fria. O corpo doía, o esforço fora grande. Ele sabia que já não era mais um mocinho e precisava se cuidar, mas o bem que o ofício lhe fazia era tamanho que ele desafiava a própria saúde, ano após ano.

Embora o sono pesasse seus olhos, ainda não era hora de dormir. Acomodou seus companheiros de jornada, os animais, nos aposentos deles e não saiu de lá até certificar-se de que todos estavam bem, que suportaram a pesada madrugada de labuta. Alimentou e deu de beber a um por um – era o mínimo que poderia fazer aos que o levaram com a força do corpo aonde ele pediu durante horas. Abaixado, conferiu os cascos, sarou pequenas feridas nos couros dos bichos abertas por passagens em lugares de difícil acesso. Com certa dificuldade, levantou-se, afagou a cabeça de um deles e sorriu. Depois, caminhou, a passos lentos, rumo à casa.

Enquanto suas botas quebravam a fina camada de gelo no chão entre o estábulo e o lar, ele olhava, orgulhoso, o saco vazio em suas mãos e lembrava-se da noite. A avaliação fora bem positiva, conseguira deixar algo de especial por onde passara. Um menino ganhou um carrinho de controle remoto, uma menina recebeu a boneca que falava. Um rapaz foi surpreendido com um boné que paquerou durante meses na vitrine de uma loja e uma senhora trocou a geladeira depois de algumas décadas. Um pai de família ganhou um emprego melhor, uma jovem estava muito feliz com o novo namorado e dois irmãos conseguiram abrir uma empresa. Um andarilho matou a fome com um prato de sopa quente e um casal brigado se entendeu outra vez.

Em casa, deixou o gorro em uma cadeira de madeira perto da porta, enquanto tirava as botas. Levou o casaco e as calças vermelhas à lavanderia. Como nos outros anos, chegou a cogitar abandonar o posto, mas sabia que, quando se levantasse, estaria melhor e veria que tudo valeu a pena. Pensou ainda em comer algo antes de se render ao cansaço, mas as energias que tinha no corpo só foram suficientes para que ele chegasse ao quarto. Só acordaria à noite. Antes de se entregar ao sono, porém, o velho Noel verificou, sem muita esperança, suas meias penduradas perto da janela. Vazias. Por mais um ano, ninguém se lembrara dele.

Mas dormiu feliz, mesmo assim. O que importava para ele era que os outros pudessem ter um feliz Natal. E o que cabia a ele, ele tinha feito.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Sobre Viçosa, uma crônica e interpretação de textos



Há alguns dias, escrevi uma crônica que marcou minha simples carreira como escritor e mudou pra sempre a história deste blog. E o melhor de tudo: escrevi de forma sincera, despretensiosa, sobre algo que eu conheço e realmente gosto, a cidade de Viçosa e a UFV. Se alguém não sabe e se interessou em saber, sou formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Viçosa e morei lá de 2004 a 2007. Sem o menor pingo de dúvida, os melhores anos da minha vida.

Após a formatura, ganhei o mundo. E, vez ou outra, retorno a Viçosa. Algumas coisas mudam, claro, mas sempre sinto que a essência do lugar continua a mesma. Um fim de semana antes da fatídica crônica, voltei, depois de anos, a uma Cervejada. Foi diferente, já não conhecia mais quase ninguém, mas foi emocionante ver que tantas pessoas estavam vivendo o que um dia eu vivi naquela mesma lama. Dias antes, eu havia recebido a pior notícia do ano: um grande amigo dos tempos da faculdade havia deixado este mundo. O baque com o falecimento de uma pessoa especial contribuiu para que eu refletisse o quão importante foram pra mim os momentos passados nesse pontinho da Zona da Mata mineira.

Assim surgiu o texto. De forma leve, só pelo prazer de escrever, como tantos outros aqui arquivados. Mas, sem querer, acho que contei a história de vida universitária de muita gente. Gente que chega a Viçosa sem ter muita certeza se vai ficar por lá ou se tomou a decisão mais certa e sai agradecendo a quem quer que acredite como força maior pelo que viveu.

Prova disso é que a crônica foi lida por mais de 11.500 pessoas apenas no dia seguinte à postagem. No facebook, já foi compartilhada mais de 6.000 vezes. Tive o cuidado de não incluir nada pessoal e agora concluo que a essência da vida universitária em Viçosa é a mesma para muita gente. Muitos amigos disseram-se orgulhosos de mim, muitos antigos amigos se manifestaram novamente e muitos conhecidos e desconhecidos me parabenizaram pelo texto. Mas eu não fiz nada, só tentei descrever em palavras o que todo mundo está cansado de saber.

Quero agradecer a todos que comentaram. Todos mesmo. Escritores, por mais amadores que sejam (como eu), precisam de retorno para saber se estão no rumo certo. Foi por meio dessas manifestações que tive certeza de que atingi tanta gente de forma tão positiva. Palavras de ex-moradores da cidade e ex-estudantes da universidade, formandos, futuros alunos, mãe e pai de quem passou ou ainda está lá e nativos. Aos viçosenses que se revoltam com a distância entre o município e o meio acadêmico, digo que a questão merece uma discussão maior e mais séria. Mas a UFV não é, de longe, um problema para Viçosa. E a todos que escreveram de forma anônima, sinto apenas pela covardia. É direito de qualquer um gostar ou não de qualquer texto, qualquer lugar e qualquer pessoa. Mas esconder-se para se posicionar de forma contrária à maioria é uma pena e digno de total falta de credibilidade. De toda forma, os comentários aqui estarão sempre abertos. Inclusive aos anônimos.

Por fim, fui tido como alguém que “conhece poucos lugares”, que “precisa viajar mais”. Não vou entrar nesse mérito, mas, definitivamente, não é o caso. E se a interpretação de texto não é o forte da galera por aí, não me furto a fornecer explicações. Vamos lá. Definitivamente Viçosa não é o lugar mais bonito do mundo. Nem a UFV a melhor universidade. Arrisco-me a dizer que não existem boas cidades, faculdades e nem mesmo empresas. O que existem são pessoas. E as que eu tive a alegria de conhecer e conviver em Viçosa valeram por tudo. Foram, são e serão meus melhores amigos por toda a vida. E é por eles que eu gosto tanto daquela terra.

Se você não teve a mesma sorte que eu, escreva, pinte, cante ou fale sobre o seu lugar, as suas pessoas. Exalte a sua Viçosa! Mostre a todos que em algum lugar do mundo você se sente em casa. Quem sabe mais gente bacana resolve aparecer por lá pra abrilhantar ainda mais o seu local...

Valeu Viçosa, meu eterno vício.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Como o Corinthians venceu o melhor Brasileiro da história


Quando o juiz apitou o final do clássico entre Vasco e Flamengo, no Rio de Janeiro, o Pacaembu, em São Paulo, foi tomado por uma explosão de alegria. O Corinthians já era campeão brasileiro, acontecesse o que acontecesse. O principal troféu do futebol brasileiro voltou a ser corinthiano depois de seis anos, no campeonato mais disputado de todos os tempos.

O páreo entre Corinthians e Vasco foi sensacional. O time da Colina deu uma lição de profissionalismo a todos os outros ao, mesmo campeão da Copa do Brasil e garantido na Libertadores da América do próximo ano, lutar até o fim pelos títulos da Sulmericana e do Brasileirão. Ao contrário do que fizeram, por exemplo, o próprio Corinthians e o Santos nos dois últimos anos.

O Vasco tem um novo ídolo: o craque zagueiro Dedé. Diferenciado, defende, arma, faz gols. Já é um mito entre os cruzmaltinos e parte do crédito pelo excelente ano da equipe pode ser depositada na conta dele. E o time da faixa diagonal apostou em uma combinação sempre eficaz: juventude e experiência. Dois dos maiores ídolos da história estão de volta e jogando muita bola. Parabéns Juninho e Felipe, pelo físico, técnica e dedicação. E o elenco fechado para tentar dar o título ao treinador Ricardo Gomes foi demais.

O Corinthians montou um time pra ser campeão. Aliás, um não, dois. E aí é que foi feita a diferença. Em um campeonato longo, com 38 rodadas, o mais importante é ter grupo. A base é forte: Júlio César, Alessandro, Paulo André, Leandro Castán, Fábio Santos, Ralf, Paulinho, Alex, Emerson, Willian e Liédson. Mas, se precisar, vai de Danilo Fernandes, Welder, Chicão, Wallace, Ramon, Ramirez, Edenílson, Danilo, Morais, Jorge Henrique e Adriano. As peças de reposição são, em geral, de qualidade e deram conta do recado. Foi a vitória da coletividade. E a torcida, como sempre, fez o que cabe a ela: apoio irrestrito e incondicional.

Outro ponto importante foi manter o técnico Tite, que nunca esteve de bem com a torcida. Com a eliminação prematura na Libertadores, todos queriam a cabeça do comandante, mas a diretoria acertou em confiar no trabalho dele e deixar que ele montasse seu time. Em pouco tempo, o Corinthians chegou à final do Paulista, ainda com o time em formação, e viu o título ficar com o excelente Santos. O Santos que foi coadjuvante neste Brasileiro e só não passou despercebido porque o Neymar foi genial e, quando não estava convocado, estava em campo dando show Brasil afora.

A campanha do Fluminense foi bonita e o Fred é o cara. O Flamengo até que tentou bater de frente com os líderes, mas o time, como um todo, é limitado e depende dos lampejos de genialidade do Ronaldinho Gaúcho e Thiago Neves. O problema que o Flamengo fez festa para o Ronaldinho do Barcelona, mas trouxe mesmo o Ronaldinho do Milan. Altos e baixos, mas ainda assim fora de série. Só não o suficiente para carregar o grupo. O Inter tem time pra fazer mais do que fez. E, apesar do gosto amargo no final, São Paulo e Botafogo montaram boas equipes, mas pecaram demais dentro e fora de campo. O Figueirense não conseguiu nada, mas saiu por cima.

Do Palmeiras e do Grêmio há tempos não se espera muita coisa. O Atlético Mineiro outra vez teve como título a permanência na Série A. A vergonha do Brasileirão 2011 foi o Cruzeiro, com uma campanha pífia. De melhor time do país no começo do ano a virtual rebaixado nas últimas rodadas, fez muito feio. É hora de uma faxina geral na Toca da Raposa. De cima pra baixo.

“Como o Corinthians venceu o melhor Brasileiro da história” é, na verdade, a manchete de uma revista Placar do final de 1999, ano em que o troféu também terminou no Parque São Jorge. Mas a edição de 2011 foi, incomparavelmente, melhor. Disputa acirradíssima, times fortes e rodadas emocionantes. Oscilações na tabela todo o tempo. Em campo, desfile de craques como Dedé e Neymar, Ralf e Ronaldinho, Fred e Lucas, Leandro Damião, Loco Abreu e Montillo.

Para o Corinthians, foi especial. Montou um time pra ser campeão e foi. Com todos os méritos, brigando pela ponta do começo ao fim. Mas infelizmente o saldo do domingo é negativo para a nação alvinegra. O Corinthians tem uma taça a mais e um ídolo a menos. Um mito tão vencedor foi derrotado de vez pelo álcool. Esse jamais será esquecido. Punho direito cerrado erguido eternamente dentro dos nossos corações.

Descanse em paz, Doutor Sócrates.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Viçosa viçosa




Você sabe exatamente o que significa “viçoso”? Em uma rápida pesquisa pelos dicionários, é possível coletar definições como “coberto de verdura, de vegetação exuberante”, “que está no pleno vigor da sua beleza vegetal” e “cheio de vigor, de força, de mocidade”. Quer dizer então que, em bom português, uma cidade viçosa é um local bonito, certo? Se estivermos falando do mesmo lugar, é muito mais do que isso.

Viçosa é uma cidade que se desenvolve acompanhando avanços acadêmicos. A Universidade Federal de Viçosa, a UFV, verdade seja dita, quase sempre é a última opção de quem quer cursar uma graduação. Muitos chegam pensando em sair, tentar a sorte em uma faculdade de cidade maior. Mal sabem o quanto vão se apaixonar por esse pequeno fim de mundo.

Em Viçosa aportam pessoas de todos os cantos do universo. E por lá se ouvem todos os sotaques, o que já sugere brincadeiras entre os colegas. Do “r” dos paulistas ao cantado dos baianos, passando pelo “s” dos cariocas e o português diferente dos africanos, conhece-se gente de todas as culturas. E faz-se todo tipo de amizades entre idas e vindas ao PVA e ao PVB, entre horas de estudo (e cochilos) na biblioteca, entre tardes de conversa fiada (e cochilos) no gramado do DCE.

Se você passar um tempo por lá, são esses amigos que estarão ao seu lado nas milhares de festas. São eles que vão te ajudar a entender as matérias que não entram na sua cabeça, colocar seu nome nos trabalhos quando você faltar, vão rir e cuidar de você bêbado e te acompanhar ao Hospital São Sebastião quando você estiver mal. Eles vão te ouvir chorar quando você terminar um namoro. E estar com você em alguma balada no outro dia levantando seu astral. Serão suas mães, pais e irmãos por alguns anos e seus melhores amigos pra vida inteira.

Viçosa talvez seja o último lugar do mundo onde as pessoas andam de chinelos pelas ruas. Onde a bicicleta ainda é o meio de transporte mais utilizado. A vida por lá é muito mais simples. Onde as festas custam barato.

E que tal esperar todo o semestre por uma festa na lama? A Cervejada, marca registrada de Viçosa, é, provavelmente, a coisa mais singular desse lugar único. Uma balada à tarde, em meio ao barro, em que se veste cuidadosamente a pior roupa, que dificilmente vai ser usada de novo. Só quem já foi sabe que a diversão é mais do que certa, mesmo você voltando pra casa bonito como um monstro do pântano, carregando mato em todos os cantinhos do corpo e sabendo que vai achar lama na orelha por uma semana. Fora as escoriações pelas pernas e braços. E como vale a pena!

Lá, todo mundo tem um bar favorito. E no Leão não tem como não se sentir em casa. Há bêbados nas ruas aos montes e dá pra ficar amigo de boa parte deles. Tem uma marcha estudantil que carrega protestos e folia. Que se desdobrou em uma micareta de nível nacional e em uma festa em que a galera fica mais louca que a Liga da Justiça inteira.

A UFV é linda. As quatro pilastras são como um portal para um universo paralelo. A reta arborizada toca de leve a alma de quem caminha até os prédios. O Recanto das Cigarras é o orgulho maior de todo estudante, onde se levam amigos e parentes de fora para mostrar a maravilha que é estar em Viçosa. O RU pode não ter a melhor comida do mundo, mas salva a vida de muita gente por um preço módico. E é um excelente local para se esbarrar com todos da universidade – companhia para almoçar nunca falta. Há um campeonato de futsal entre os cursos que mexe com o coração da galera. E uma lagoa poluída que, em ocasiões especiais, serve para nadar. Em Viçosa agroboys, nerds, bichos-grilos e patricinhas convivem pacificamente. Até na mesma república, se for o caso.

A foto com os formandos em frente ao Bernardão (para quem consegue acordar cedo no dia, claro) é um espetáculo à parte. Ver seu nome e foto em uma página do livro de biografias com sua história na cidade é muito bacana. E, para coroar a estadia nessa terra encantada, fecha-se o ciclo com o maior baile de formatura que se tem notícia nas galáxias. O mais luxuoso, o mais animado, o melhor do mundo. Aquele em que, de tão grande, três anos depois quem foi ainda vai descobrir atrações que não viu. E, cá entre nós, ver a UFV no topo todo ano quando sai o ranking das melhores universidades do Brasil dá um orgulho!

Na despedida de Viçosa, é bem possível que você ache que nunca mais vai ser tão feliz como lá. E você vai estar certo. É que lá tudo é diferente. Serão os melhores anos da sua vida, você vai conhecer as melhores pessoas e a saudade de tudo vai bater todos os dias, em alguns mais fortes do que outros. Então agradeça a Deus por ter sido escolhido por ele para viver, por um tempo que seja, no paraíso. Sempre que puder, volte à cidade “cheia de vigor, de força, de mocidade”. Você vai conhecer mais gente encantadora e rever muitos dos guerreiros das antigas. Aí é só calçar um par de chinelos e abrir uma cerveja. Se tiver uma pocinha de lama por perto, melhor ainda.

sábado, 19 de novembro de 2011

Vestidos


Tudo corria às mil maravilhas no namoro do Gilberto e da Paula. Juntos há um mês, tudo era motivo para sorrisos e para quererem estar juntos. Parecia que dessa vez, enfim, tinham encontrado as pessoas certas. Já haviam sido apresentados aos amigos do outro, aos pais e estavam com uma viagem marcada pra ele conhecer a avó dela, numa cidadezinha pequena. A rotina dos dois mudou desde o início do namoro e girava em torno de cinema, teatro, filmes em casa, barzinhos e idas ao clube. O Gilberto estava orgulhoso porque apresentaria a Paula, de quem ele tanto falava, aos colegas da empresa na festa de fim de ano.

A Paula estava um pouco insegura, queria causar uma boa impressão com o pessoal do trabalho do namorado. Demorou dias para escolher uma roupa que considerasse ideal para a ocasião. Revirou o estoque de todas as lojas do centro e passou uma semana indo ao shopping todos os dias, até que se decidiu por um vestido verde, bonito, elegante, nem curto nem justo demais. No dia, ela caprichou na maquiagem e estava pronta pontualmente às nove à espera do Gilberto. Quando ele chegou, do carro mesmo disse que ela estava especialmente linda.

Na festa, o Gilberto fez questão de passar de mesa em mesa apresentando a namorada. Peito inflado de orgulho, exibia sua morena como um troféu – e ela achava isso a coisa mais bonitinha do mundo. Todos foram simpáticos, diziam que estavam ansiosos em conhecê-la porque ele falava muito dela e convidavam os pombinhos a sentarem-se com eles. Foi assim com o pessoal do financeiro, do RH, dos serviços gerais e da gerência. Mas antes de se decidir por onde ficar, Gilberto tomou a Paula pela mão para levá-la à mesa do Afonso, o patrão. Seu Afonso levantou-se para cumprimentar o funcionário e conhecer sua famosa namorada, e junto com ele, a esposa, Sílvia. Enquanto Gilberto e Afonso abraçavam-se, com direito a tapinha nas costas e tudo, Paula esboçou um aceno de mão e um risinho para Sílvia, até que teve a pior visão de sua vida: a mulher do patrão do namorado trajava exatamente o mesmo vestido verde que ela. O mesmo decote, a mesma alça direita com linhas douradas, o mesmo detalhe na perna esquerda. O mesmo vestido que ela custou tanto para encontrar, que ela achou chique, discreto e que valorizava suas pernas. O mesmo vestido que custou quase metade do salário e foi dividido em seis vezes no cartão.

O sorriso da Paula desmoronou. O da Sílvia também, que ficou séria, com olhos arregalados e boca aberta. Paula virou as costas, pôs-se a chorar e correu para a rua. Quando o Gilberto percebeu, ela já estava lá fora, com a maquiagem borradíssima e os olhos inchados e vermelhos. Lá foi ele, enquanto Afonso abraçava Sílvia e a pedia secretamente para tentar manter a postura perante os empregados. A Paula não parou de chorar, não queria conversa e exigiu que o Gilberto a levasse de volta para casa. Ele tentou argumentar, mas ela, aos soluços, foi irredutível. Em meia hora o Afonso alegou um mal estar e também deixou a festa, com a família.

Em frente ao apartamento dela, Paula pediu desculpas a Gilberto por ter estragado a noite dele, mas ele relevou, ainda tentava confortá-la. Por fim, ela disse que não queria mais vê-lo, o namoro não daria mais certo depois da humilhação. Alegou que nunca mais ela conseguiria encontrar com os colegas dele à vontade. Rosto molhado por lágrimas, Paula deixou o carro e entrou em casa. Chorou toda a noite. E nunca mais falou com Gilberto.

Triste, o Gilberto decidiu voltar à festa para ver como tinha ficado o clima. Quando chegou, a banda contratada já tinha começado a tocar e o pessoal já estava dançando animado e bebendo bastante. Foi aí que o Gilberto viu o Jonas, seu melhor amigo na empresa, que chegou atrasado e nem estava sabendo da confusão com a mulher do patrão. Por ironia do destino, Gilberto e o Jonas vestiam a mesma camisa azul. Igualzinha, sem tirar nem por nada. E, ao perceber, o Jonas gritou: “ô meu parceiro, vamos fazer uma dupla sertaneja?”, seguido de uma risada escandalosa. Sem perder tempo, Jonas, espirituoso, pediu à banda para cantarem uma moda juntos.

E não é que eles levaram jeito para a coisa? A galera gostou e eles cantaram a noite inteira. Depois, começaram a fazer pequenas apresentações, ensaiar com músicos profissionais e decidiram deixar a empresa para investir na carreira. Hoje, Jonas e Gilberto é uma das duplas mais famosas da região e o hit “Vestidos iguais” é o mais tocado em todas as rádios, todo mundo sabe a letra na ponta da língua. E a Paula chora toda vez que ouve, coitada.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Conto à tróis 2 - parte 3

Chega ao fim o mistério. O último capítulo de O aniversário do Doutor Pantaleão guarda surpresas nessa rede de intrigas, sedução e morte com sotaque nordestino. Experiência policial e a popularização das redes sociais solucionam o caso.


Capítulo 3 - Vocês mataram o meu amigo, no blog Cueca e Meia.

domingo, 6 de novembro de 2011

Conto à tróis 2 - parte 2

Agora é comigo.

Capítulo 2 - Em nome da lei


Pascoal sentiu um pânico jamais experimentado. Com as pernas trêmulas, abraçou o tórax do amigo de infância e clamou por seu nome. Pantaleão não esboçou qualquer reação, estava mesmo sem vida. Inevitáveis lágrimas vieram à tona. O tom mórbido do azul da língua do cirurgião compunha a cena de filme de terror. Às pressas, Pascoal saiu em busca do jovem e despachado Cardoso para decidirem as providências.

Em minutos, estavam os dois ao lado do cadáver no banheiro trancado. Cardoso não acreditou no que viu e Pascoal ainda aparentava estado de choque. O sobrinho sugeriu levarem qualquer desculpa aos convidados para o sumiço do anfitrião, enquanto Pascoal tinha o celular em mãos prestes a ligar para o Doutor Quaresma, o delegado. Cardoso rejeitou veementemente a ideia, temia pela reputação da família e lembrava-o dos abutres da imprensa à porta do casarão. Mas Pascoal achou por bem acionar o policial.

Doutor Quaresma era delegado há pouco tempo em Pica-paus, o suficiente para ser respeitado por todos. Era um dos raros casos de autoridades incorruptíveis. Não frequentava as colunas sociais e nem era visto em noitadas. Não media esforços para o cumprimento da lei, custasse a quem custasse. Chamavam-no de Zorro do Sertão. Quando seu Fusion parou em frente à mansão e o delegado de porte robusto e grossos bigodes negros desceu com cara de poucos amigos, os presentes à festa souberam que algo de muito errado acontecia.

Com as informações passadas por Pascoal, Quaresma traçava sua linha de investigação. Tudo levava a crer estarem diante de um assassinato bem calculado. Todos eram suspeitos, até o próprio amigo de infância, embora o delegado não apostasse suas fichas nele. Cardoso sim aparecia como um forte candidato a ter matado o tio, já que, após o recente divórcio de Pantaleão, sem filhos, o sobrinho era o único herdeiro de seu império. A ex-mulher do cirurgião, Dona Zuleide Fortunato, também poderia estar metida na história, mesmo sem ter ido ao aniversário, pela primeira vez desde que a festa tornou-se o evento mais comentado da cidade. Uma jovem loira de curvas bem delineadas e vinte e poucos anos chamada Duda, ex-garota de programa e ex-amante de Pantaleão, completava a lista inicial de possíveis suspeitos. Mas a informação mais importante a ser considerada é que o médico estava muito bem cotado para ser candidato a prefeito nas próximas eleições.

Sem dar explicações, Doutor Quaresma passou pela segurança, atravessou o jardim e entrou no casarão. Passou pelos convidados, mirou seus suspeitos de cima a baixo, cruzou o salão e dirigiu-se ao banheiro, onde o corpo do anfitrião estava. Sua experiência policial o fez observar atentamente o ambiente e perceber que não havia marcas de pés ou sapatos molhados no chão, além das do defunto. A janela basculante estava aberta ao máximo, com uma pequena marca de sangue em uma das extremidades. Na lixeira, dois preservativos, um batom usado, as chaves da porta, papelotes vazios de cocaína e duas embalagens de pirulito, sendo uma azul.

O delegado foi para o salão. Pediu uma pausa à banda. Anunciou a todos que um crime acabara de ocorrer na casa. E convidou Cardoso, Duda e o prefeito Raimundo Carlos Sodré a acompanharem-no até a biblioteca, para alguns esclarecimentos. Antes, porém, havia acionado seus investigadores e ordenado que cercassem a mansão.

(continua...)

Conto à tróis 2 - parte 1

O Conto à tróis está de volta. O projeto que reúne, além de mim, os escritores Matheus Espíndola e Marcos Oliveira, traz, dessa vez, uma história policial, passada no sertão nordestino. Conheça O aniversário do Doutor Pantaleão.


Confira como a trama tem início em capítulo homônimo do conto no Blog do Cano.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Chamas de Sonhos


Era fim de tarde e a ansiedade tomava conta de todos eles. Estava quase na hora do tão aguardado primeiro torneio de MMA do pedaço. A nova mania esportiva ganhou o país e chegou até eles. Faltava apenas a porta do depósito ser fechada, para eles terem certeza de que ninguém mais apareceria por ali. Pouco antes das 18 horas – no horário previsto – as chaves giraram na fechadura e os personagens saíram de cartazes, caixas de bonecos e enfeites de bolo para dar início à competição.

Todos os dias quando os humanos fecham as lojas de produtos para festas infantis, super-heróis e desenhos animados à venda sob as mais diversas formas saem de suas embalagens para conversar. Falam de sua força, a história de vida de cada um e imaginam como será a criança dona da festa que eles decorarão. São amigos, planejam brincadeiras e atividades para passar o tempo. E, numa dessas, o pessoal da Liga da Justiça teve a ideia de organizar o torneio de luta entre eles. A única regra: para não ser injusto com ninguém, estava proibido o uso de poderes.

A semana foi de divulgação do evento, inscrições e montagem da tabela. Os bonecos tiraram muitos objetos de madeira das caixas e montaram um ringue, com tatame de espuma. Chegara a hora do primeiro combate. Sem surpresas, o Shrek confirmou o favoritismo e bateu fácil no Tigrão, para orgulho da Fiona e tristeza do Pooh, que quase chorou, coitado. Em seguida, a primeira luta da categoria elite: Ryu contra Thor. A briga foi boa, a galera quase não piscou. A Moranguinho e a Barbie morriam de dó a cada golpe mais forte. Um Power Ranger dessas versões mais modernas era o mais exaltado, gritava o tempo todo e um bonequinho do Chaves ficou tão tenso que sofreu um piripaque. Sem poder soltar um hadouken, o japonês dos videogames ficou sem saber como atacar o oponente e acabou perdendo por pontos. O juiz Harry Potter ergueu o braço do loirinho do martelo, como campeão da rodada.

O próximo combate era o mais esperado da noite: Wolverine contra Batman. Os dois entraram no ringue de madeira mal-encarados. O Morcegão começou melhor, dominando a luta. Mas o mutante tinha mais raiva. Quando o locutor Cebolinha deu início ao terceiro lound, o herói de Gothan City arremessou um bumerangue contra o Wolverine. Pelo entendimento dele, arma não era poder e poderia ser usada. O x-man, assustado, alçou suas garras e rachou a arminha de plástico em duas. Em seguida, atacou o Morcego, acusando-o de antijogo. O Lanterna Verde não gostou de como seu amigo de Liga foi questionado e levitou o Wolverine, com a força de seu anel. O Ciclope, que nem é tão chegado assim do cara das garras, tomou as dores em nome do Instituto Xavier e lançou um raio nas costas do Lanterna. Pronto, estava armada a bagunça.

Todo mundo invadiu o campo de lutas para protestar. O Homem-Aranha ainda tentou separar a moçada, fazendo umas barreiras de teia, mas não teve jeito. O Aladin e o Pernalonga saíram na porrada, o Simba discutiu com a Fera, a Dona Florinda bateu no Pato Donald e o Ben 10 toda hora virava um alienígena diferente pra brigar com alguém. O Magneto levantou um carrinho do Hot Wheels e lançou contra o Peter Pan, o Pica-pau bicou o nariz do Pateta e o Coringa ria como um bobo e jogava cartas em uma tartaruga ninja. Lá no canto, a briga era entra palhacinhos e dinossauros. O Flash gritou algo que o Tocha Humana, do Quarteto Fantástico, não gostou e o rapaz do fogo mirou uma rajada incendiária nele. O Flash se esquivou, claro, mas as labaredas atingiram objetos de madeira. O fogo pegou na hora, se alastrou e começou a queimar tudo que encontrou. O Aquaman tentou apagar as chamas, mas sem sucesso.

Em minutos o fogo tomou conta do depósito e partiu rumo a outros andares do prédio e a edifícios vizinhos. A fumaça preta e o clarão incandescente invadiram o bairro. Os personagens tentaram se salvar, mas nenhum deles sobreviveu. As chamas atingiram uma loja de pneus ao lado e a situação ficou ainda pior. O fogo ardeu por alguns dias, causando muitos estragos, prejuízos e, principalmente, tristeza.



Não foi assim que começou o incêndio em uma loja de festas de Juiz de Fora essa semana. É só uma homenagem aos verdadeiros heróis da sociedade, os bombeiros, e um desejo de força aos trabalhadores que perderam tudo.


sexta-feira, 14 de outubro de 2011

À primeira íris


A cena dos olhos dele cruzando com os dela pela primeira vez foi inesquecível. Ele nunca tinha reparado tanto em um par de olhos. O brilho que as duas esferas azuis emitiu pareceu iluminar todo o ambiente e transpor qualquer barreira física, até atingir o interior dele. Eles não se falaram, muito menos se tocaram, mas a força daquele olhar fez com que ela entrasse de vez em seus pensamentos e sentimentos e por lá ficasse.

Os olhos azuis pareciam ter sido esculpidos com a mais rara das pedras preciosas, algo como uma utópica liga de topázios e turquesas. A cor única harmonizava de forma perfeita com o tom claro da pele dela. Tornava os olhos maiores e o olhar muito mais intenso. Lembrava, simultaneamente, o frio polar e o calor escaldante dos dias de sol sem nuvens.

Até que eles se vissem outra vez, a luz do olhar dela não saiu da mente dele.

Ele não imaginava, mas, ao vê-lo, os olhos dele ficaram registrados nas memórias dela. O olhar cheio ofuscou todo o entorno dos dois naquele rápido instante em que se cruzaram. O verde bucólico da íris dele transmitiu a ela de imediato uma estranha e confortante sensação de segurança. Sem saber explicar por que, ela sentiu-se na primavera.

Ela pensava nos detalhes dos olhos dele, como flores em um campo. Pequenos raios luminosos em uma imensidão verde-oliva que brilhavam até ela. O olhar dele era como o portal de acesso a algo maior e valioso.

Até que eles se vissem outra vez, a luz do olhar dele não saiu da mente dela.

Eles se encontraram novamente, numa situação propícia. Os dois meio atrapalhados, inseguros. Conheceram-se, falaram qualquer coisa, riram. Em questão de tempo, se renderam a um beijo. O toque dos lábios levou as luzes brilhantes dos olhares, outrora tão contempladas por eles, a se apagaram. E, no escuro total, eles foram, juntos, para outra dimensão.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Empatia precoce


Os dois sempre moraram na mesma rua e tinham a mesma idade. Eram da mesma série na escola. Tinham os mesmos amigos, conheciam as mesmas pessoas e frequentavam o mesmo campinho e a sala de catecismo. Tinham tudo para serem os melhores amigos do mundo. Mas não eram nem perto disso.

Desde crianças, não se suportavam. As mães se acostumaram a ser chamadas na escola para conversar com a diretora porque, vira e mexe, os dois meninos saiam na mão, por qualquer motivo. Um comentário mal interpretado de um lado já levava a uma resposta atravessada do outro e aí era questão de tempo para eles se engalfinharem no chão. Do colégio ou da rua.

Brigaram na sala de aula, no corredor e infinitas vezes no pátio. Trocaram socos na cantina, na porta da escola e uma vez no banheiro. Jogando bolinhas de gude. Num passeio da classe a um museu. Durante uma prova de matemática.

Nas olimpíadas do colégio, cansaram de ser expulsos de campo ou de quadra por brigas entre si. Se eram de times adversários, já se estranhavam na primeira dividida. Se da mesma equipe, questão de tempo até um se irritar com um lance do outro e a confusão começar. Mas nunca souberam explicar de onde vinha tamanha empatia pelo vizinho.

A coisa se agravou quando se tornaram adolescentes. Para terminar de vez com qualquer possibilidade de entendimento, apaixonaram-se pela mesma garota. E parece que ela também gostou deles, porque namorou os dois. Duas vezes com cada.

Como os amigos eram os mesmos, estavam, a contragosto, sempre juntos. As primeiras festas de 15 anos, os primeiros porres e as primeiras viagens para fora da cidade foram as mesmas dos dois. Com o tempo, aprenderam a se suportar, embora não escondessem de ninguém que não iam com a cara um do outro.

Veio a faculdade. Eles escolheram o mesmo curso e ganharam mais alguns anos de convívio. Nas aulas de discussões, nunca tinham a mesma opinião e, não raro, a esfera acadêmica era deixada de lado e dava lugar à pessoal. Os novos colegas se divertiam com a situação. Na formatura estiveram todos os amigos em comum. Metade convidada por cada um.

Escolheram o mesmo ramo de atividade e hoje trabalham em empresas concorrentes. Para eles, uma motivação a mais para buscar a liderança de mercado. Ainda se esbarram com frequência em coquetéis empresariais e reuniões da turma da faculdade, do colégio ou da rua. Numa dessas, discutiram de novo e resolveram, depois de tantos anos, tirar a limpo as diferenças. Como homens, na mão, sob os olhares de muitas testemunhas. Cada um pegou um controle e ligaram o PlayStation, no Pro Evolution. Um escolheu o Barça e outro o Real. Estaria naqueles dois tempos de dez minutos a grande chance da consagração e superação do eterno maior rival da vida.

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Chamas de Sabor


A rotina de trabalho de Élton no escritório era intensa, mas ele a considerava tranquila. Como contador há alguns anos, estava acostumado a conviver com pilhas de papéis, prazos curtos e documentos dos mais variados. Entendia-se bem com eles. A pequena equipe, embora não cultivasse grande amizade fora da empresa, trabalhava coesa. O salário era o suficiente para ter um carro e uma casa e criar o casal de filhos pequenos. O que tirava o Élton do sério era ter que atender o Ícaro.

Ícaro era o braço direito do dono de uma fábrica de guloseimas da cidade. Ele apresentava-se como gestor financeiro e coordenador do departamento de pessoal da indústria alimentícia Sabor, mas na verdade era um ex-peão que, de tanta lealdade ao patrão, fora promovido a faz-tudo em uma firma que andava mal das pernas. Cheques voltando dos bancos e dificuldade em honrar compromissos com fornecedores não eram coisas raras. E, embora já fosse cliente do escritório há uns dois anos, Ícaro não conseguia acertar o nome do Élton, o que o deixava bastante irritado.

“Ôôô meu amigo Hélio! Como vai essa força?” Era tudo que o Élton não precisava para começar o dia bem. Quando o Ícaro apontava na sala de atendimento, o contador já se levantava para ir ao banheiro, beber água, fingir procurar um documento no arquivo ou fazer qualquer coisa – uma vez até ajudou a faxineira a esfregar o chão – para não ter que atender o cliente chato. “Aí Élder, chega aqui, trouxe um biscoitinho pra você hoje”, e pedia mil coisas e o presenteava com um recheado de morango que o Élton não aguentava nem sentir o cheiro. Jurou pra si um dia comprar a fábrica de guloseimas e colocá-la abaixo. Se possível, com o Ícaro dentro.

Um dia, logo pela manhã, apareceu o tal cliente. Um dos colegas de Élton viajava de férias e o outro estava em casa por conta de uma virose. Não teve jeito, foi necessário que ele o atendesse. Nesta data, especialmente, parecia que Ícaro estava particularmente mais chato. Não levou nenhum dos documentos pedidos pelo escritório na semana anterior para confeccionar um comprovante que precisava remeter à Receita Federal e já chegou avisando que queria o papel na hora. Reclamou da demora, disse que, se as coisas continuassem assim, a conceituada Sabor iria acabar procurando um escritório mais competente. Todo mundo sabia que a empresa dele corria contra a maré para não decretar a falência e que, mesmo se quisessem trocar de contadores, não era o Ícaro quem apitava nada lá.

Com uma paciência inspirada sabe-se lá onde, Élton o recebeu e demonstrou por que, legalmente, os documentos eram precisos. Ícaro não quis saber, acusou-o de má vontade e, de tanto que ele insistiu, o Élton chamou o senhor Fonseca, dono do escritório. O chefe veio, acalmou o cliente e, com seu jeitão boa-praça, resolveu as coisas. Fonseca recomendou outra vez os papéis necessários e marcou com Ícaro de novo no fim da tarde. Depois puxou a orelha do seu funcionário, disse que entendia que o cliente era muito exigente, mas o pediu pra ter mais presteza no atendimento. Élton, furioso, aguentou calado. Brotou em sua alma um forte sentimento de vingança.

Horas depois, reapareceu o Ícaro. Uma pasta abarrotada de papéis em mãos e muita pressa. “Ô Élcio, vê se me ajuda agora porque não tô com tempo pra essas frescurinhas que você fica me pedindo, hein? Quebra o meu galho aí”. Tamanha era a desorganização do material trazido pelo cliente que o Élton só conseguiu deixar o escritório quarenta minutos após o expediente, depois de preparar, cuidadosamente e contra sua vontade, tudo que a fábrica de doces e salgados precisava. Ouviu muitas bobagens do Ícaro (tentando fazê-las entrar por um ouvido e sair por outro) e, para piorar, teve que aturar o Fonseca, político que só, dar razão ao cliente outra vez. Quando saiu do serviço, com o estresse em níveis estratosféricos, sentou-se em um bar próximo e pediu uma cerveja pra relaxar. Mas não conseguiu.

Não parava de pensar no ódio que o infeliz o trazia. Aquela cara de bobo, o jeito de falar repugnante. E, pior, no sermão que ganhou, gratuitamente, do patrão. Quis largar o escritório, mas precisava pagar as contas da família. Quis vingar-se de Ícaro, cogitou encontrá-lo e rasgar vagarosamente todos seus documentos, mas concluiu que teria que refazer todo o trabalho. Impotente, deu mais um gole na cerveja e, ao abaixar o copo, apareceu em seu campo de visão, como um oásis no deserto, a lotérica da rua, com um das portas já baixas. Uma lâmpada acendeu acima de sua cabeça.

Élton deixou o dinheiro da cerveja sobre a mesa e correu até a casa de jogos. Perguntou se ainda dava tempo para uma última fezinha e o atendente, a contragosto, disse que sim. Marcou seis números quaisquer no canhoto e foi embora agarrado ao papelzinho, abraçado à sua esperança de mudar pra sempre de vida. Ainda naquela noite seria o mais novo milionário do país.

Na hora do sorteio, esposa e filhos já dormiam. Quando o sexto número foi anunciado e todos bateram com o canhoto, Élton, com olhos cheios de lágrimas, conteve seus impulsos de gritar e correr e xingar e manteve-se frio, com o pensamento fixo em Ícaro. Dedos das mãos cerrados, como prontos para a batalha. Não conseguiu dormir a madrugada inteira.

Antes do amanhecer, Élton estava de pé. Vestiu seu único terno e calçou os melhores sapatos. Tomou café na padaria e, assim que a lotérica abriu, foi o primeiro cliente a entrar. Buscou seus milhões e não se importou com qualquer norma de segurança. Dirigiu-se então à sede da Sabor à espera do proprietário da empresa que tanto odiava. Apresentou-se ao empresário como um investidor, disposto a adquirir a firma e todo seu patrimônio, mas sem manter qualquer funcionário. A reação inicial do dono foi negar a proposta, mas Élton já sabia que a fábrica tendia a fechar as portas em breve. Ofereceu o dobro do que a empresa valia e ali mesmo bateram o martelo e assinaram a transferência de posse, que o novo dono, com a experiência de contador, levou preparada.

O próximo passo foi ir a um posto de gasolina. O frentista mostrou-se preocupado com a quantidade de galões de gasolina que o Élton pediu, mas vendeu assim mesmo. O rapaz estava bem vestido, não aparentava más intenções e a grana era boa. Aquela manhã a cidade conheceu seu maior incêndio.

Enquanto espalhava a gasolina pelo pátio da fábrica vazia, Élton gargalhava, lembrando-se dos dois anos em que o infeliz Ícaro o irritou e de todos os nomes que lhe chamara. Agora ele não teria mais emprego, muito menos a amada fábrica de pé. Quando riscou o fósforo, sentiu um prazer nunca antes experimentado. O calor das labaredas na face foi, para ele, a mais cruel das vinganças. Quando soube das notícias, da venda da firma, da demissão e do fogo, Ícaro chorou copiosamente. Sentiu um pedaço de si arrancado e deixou a cidade rumo à terra dos pais, no norte do estado.

Mas nem tudo saiu como Élton planejara. Ao lado da fábrica ficava uma reserva de mata atlântica considerada patrimônio ambiental, que as chamas do incêndio, ao se alastrarem, deixaram em cinzas. Foi notícia internacional, vieram bombeiros da capital. As câmeras de segurança das empresas vizinhas à ex-Sabor denunciaram Élton e seus galões. Ele foi preso no mesmo dia por crime contra a natureza.

Na delegacia, pagou fiança alta e foi liberado – dinheiro não era problema. O julgamento durou seis meses. Foi condenado a pagar uma indenização astronômica e a recuperar toda a área, criando um parque ecológico. O que sobrou do prêmio da loteria ficou com os advogados.

Um semestre depois, Élton não era mais réu. Sem um centavo, foi aceito de volta no escritório do Fonseca, era um excelente contador. A mulher o perdoou pelo devaneio. Tudo continua como estava antes e hoje Élton segue feliz sua rotina. Porque, pelo menos, nunca mais viu o Ícaro.

sábado, 24 de setembro de 2011

Duas


Elas eram amicíssimas, não se desgrudavam nunca. Sabiam tudo uma da outra e nunca tinham brigado sério. Era até raro não vê-las juntas. Eram muito parecidas, só os amigos mais próximos sabiam identificar com precisão quem era quem. Até o pai delas se confundia às vezes. E eram incrivelmente bonitas.

A beleza delas sempre fez sucesso. Atualmente as duas trabalham no mesmo lugar e, por lá, todo o bairro já ouviu falar das irmãs lindas e iguais. O gerente nunca declarou abertamente, mas, após a contratação delas, a procura pela empresa cresceu exponencialmente. Coincidência ou não, pelo público masculino.

Elas já se acostumaram a chamar a atenção. Foi assim durante toda a faculdade, em que as festas do curso que fizeram juntas eram as mais cheias. Nunca faltaram amigos querendo ser do mesmo grupo de trabalho ou perguntando, em princípio inocentemente, qual a boa do fim de semana. A biblioteca também se enchia mais quando elas estavam por lá.

Na escola não foi diferente. As irmãs eram o sonho de todos os colegas. Desde novinhas faziam sucesso com os tidos como inalcançáveis caras do terceiro ano. Eram superpopulares e escolheram a dedo os rapazes com quem se relacionaram. O vôlei da Educação Física tinha até plateia e o time das olimpíadas interclasses tinha mais torcida que o time de futebol profissional da cidade.

Na adolescência fizeram alguns trabalhos como modelos, sempre juntas. Eram as mais procuradas da idade para as campanhas publicitárias. Mas não quiseram seguir a carreira porque sabiam que uma hora teriam que se separar. Também foram as musas do curso de inglês, do balé e da academia.

Quando crianças, elas receberam todos os elogios possíveis. A praça ficava lotada de velhinhas babonas quando elas estavam lá brincando no escorregador. Os pais ficavam cheios de orgulhos das crias. E as gêmeas sempre juntas.

Já começaram a ser percebidas como diferentes dos demais ainda na maternidade. Os enfermeiros opinavam que elas eram mais bonitas, mais engraçadinhas que os outros bebês. E daí em diante naturalmente as irmãs mantiveram os holofotes sobre si.

Na verdade, o sucesso começou até antes disso. Meses antes delas nascerem, comentava-se que aquele espermatozoide era mais vistoso que os outros. E que ainda iria dar o falar.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Vida maquiada


Ana havia acabado de escolher a roupa para a noite. Após o banho, ficou em dúvida entre o vestido branco e o azul e escolheu o preto, caiu melhor e combinava mais com a sandália. Antes da maquiagem, aproveitou o computador ligado tocando um som e acessou seu perfil numa rede social. Surpreendeu-se ao ver uma mensagem do Léo, um cara com quem tinha ficado há um tempo, dizendo que se lembrara dela à tarde e que deveriam marcar de se reverem. Ana achou bonitinho, riu sozinha e pegou sua base facial, precisava se apressar.

Enquanto disfarçava as leves marcas de olheiras com retoques de corretivo, ela ouviu a música característica do toque do celular vindo do quarto. Quem ligava era o Fabrício, da academia. Eles se conheceram outro dia enquanto corriam nas esteiras e, papo vai e papo vem dia após dia, ele pediu o telefone dela. Ana não acreditou que ele ligaria, mas se enganou. O Fabrício revelou que há um tempo pensava nela e a convidou para acompanhá-lo num show em uma casa noturna. No entanto, ela agradeceu, já tinha um compromisso.

Já com o pó compacto na face, Ana decidia o tom da sombra nos olhos e o celular, agora sobre a pia do banheiro, vibrou ao receber um torpedo. Ela leu algo que jamais esperava: uma mensagem do Felipe, seu ex-namorado já há alguns meses. Ele confidenciava que ainda não havia esquecido ela e que a Ana tinha razão, ele deveria ter dado mais valor ao relacionamento que tinham. Ela, atônita, quase erra a maquiagem e risca a testa. Preferiu pensar melhor e responder em outra hora.

O próximo contato veio do telefone residencial, enquanto Ana contornava os olhos com o lápis. Era sua melhor amiga, a Bel. Ligou para dizer que o primo dela, o Marquinhos, tinha acabado de perguntar a ela na rua sobre o estado civil da Ana. E ainda pediu à prima para fazer boas recomendações dele a ela. Riram e despediram-se, com a promessa de almoçarem juntas no dia seguinte para contar como foi a noite que estava prestes a se iniciar.

Rímel e blush aplicados. Na primeira passada de batom, duas buzinadas vindas da rua. Ana agilizou-se, pegou a bolsa, desligou o computador e saiu para encontrar com o Orlando, seu colega de trabalho, com quem sairia junto pela primeira vez e que havia acabado de chegar para buscá-la. Ana tinha certeza de que tinha arrasado na maquiagem. O Orlando foi logo dizendo que nunca tinha visto ela tão linda.

Porque os homens gostam do que veem e as mulheres do que ouvem. Talvez por isso as mulheres se pintem e os homens mintam.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Prestativo


Já beirava as dez da noite e ele precisava se apressar ou perderia a hora. Tinha acabado o banho, usado desodorante e borrifado perfume bom. Aos assovios de uma canção popular, tentava se decidir entre a camisa polo ou a listrada. Sentia que a noite seria diferente.

A tarde tinha sido de preparação. Ele ocupou o pen-drive com o melhor da música romântica, de vários estilos. O que quer que a companhia preferisse ouvir, a opção estaria lá, à mão. Levou o carro para lavar e pediu pra passarem aquele produto que deixa com cheiro de novo. Passou pano no sapatênis e tirou a barba. Comprou preservativos aromatizados.

Ele não tinha conseguido entrar pra uma universidade. Trabalhava desde cedo e não tinha como dedicar-se aos estudos pra conseguir aprovação numa instituição pública. Também não tinha condições de pagar por uma particular. Mas isso não interferia na decisão que havia tomado de que sua próxima namorada seria uma universitária.

E assim eram seus dias. Quando chegava a hora da aula na faculdade acabar, ele passava devagar de carro no ponto de carona, como quem não quer nada, e levava uma mocinha em casa. Era prestativo e engraçado, bom de papo. O plano ainda não tinha rendido muita coisa, mas uma hora iria dar certo. Ele sabia que iria.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O menino e a bola


O menino foi o último a ser escolhido, mas isso não era raro. No campinho tinha o número exato de garotos para uma partida, senão nem o deixariam jogar. O colega que perdeu o par ou ímpar reclamou que seu time ficaria mais fraco porque o menino estaria nele. Os outros argumentaram que sempre um lado fica um pouco melhor que o outro, não tem jeito.

Mandaram o menino ficar parado na frente, na banheira. E ele foi. Mas na primeira jogada perdeu a bola e acusaram-no de ter matado um contra-ataque. Olharam feio pra ele. Depois, recebeu a bola em boa posição, mas não conseguiu dominá-la e a jogada outra vez não surtiu efeito. Recebeu, em consequência, um xingamento pessoal cabeludo. Os que eram mais seus amigos o defenderam.

Mandaram o menino ficar parado atrás, fechando a zaga. E ele foi. Mas deu azar que de cara enfrentou o mais habilidoso da turma, que o driblou com facilidade, correu mais que ele e bateu cruzado, fazendo um golaço no cantinho para inaugurar o placar da pelada. Só um amigo do menino tocou em sua mão e o condecorou pela tentativa; ainda deu uma dica de marcação. O resto gritou com ele.

Mandaram o menino pro gol, pra atrapalhar menos. E ele foi. Mas, pra acabar de vez com qualquer chance de redenção, sofreu um gol debaixo das pernas logo depois de o placar ter ficado em 1 a 1. Nem foi tão culpa dele, a bola desviou na defesa e o surpreendeu. Mas ele foi condenado. Expulsaram o menino da brincadeira e um time ficou com um a menos. Foi embora mais cedo.

Mas o que ninguém sabia é que o menino, ainda bem criança, já era poeta. Tinha mil obras. Quando chegou em casa, pegou um lápis e o caderno e teceu um lindo poema sobre futebol. Nele, o menino batia na bola melhor que o Zico, driblava melhor que o Mané e fazia mais gols que o Pelé. Era o melhor do mundo.

sábado, 27 de agosto de 2011

Cenas do cotidiano 5


Era horário do lanche, quatro da tarde. Na cantina da empresa, funcionários tomavam cafezinho e jogavam um pouco de conversa fora. O assunto da vez era festa de formatura.

“Pra mulher, o inverno é bem pior, por causa do frio. Os vestidos sempre são muito abertos”, comenta uma estagiária.

“Para homem é até melhor, porque já vai estar de terno mesmo”, opina um colega.

“É que nem casamento: para homem é bem melhor casar no frio”, discorre um terceiro.

“Aaah, na verdade pra homem não é bom casar em época nenhuma do ano”, defende o funcionário anterior.

Gargalhadas gerais. As mulheres do ambiente se levantam e retornam ao trabalho. E nunca mais tomam café no mesmo horário.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Arca de Noé


De cabeça baixa, Edgard refletia a decisão que acabara de tomar. A sala vazia e em silêncio dava a impressão de que estava sozinho no mundo, distante de todos. O som do choro baixinho de Denise vindo do quarto tornava a situação muito mais cruel. Ele sabia que não seria fácil terminar um relacionamento tão longo e não foi. Mas precisava por fim a uma situação que se arrastava, já não era mais a mesma coisa. Precisavam de um tempo sozinhos. Depois de deixar cair muitas lágrimas, Denise resolveu que, se fosse para terminarem, que não existissem mais memórias do namoro. E decidiu devolver todos os presentes que ganhara dele nos últimos sete anos.

Eles se conheceram quando faziam cursinho pré-vestibular, eram da mesma sala. E, um dia após o primeiro beijo, na casa dela numa tarde de estudos de Física, foram passear no shopping. O Edgard conseguiu um ursinho, muito feio por sinal, numa dessas máquinas de bichinhos, com garrinha de metal, que quase ninguém ganha. Deu-o à ainda melhor amiga e ela adorou a mascote. No primeiro mês de namoro, outro ursinho de presente, esse sim bonito.

Foi assim durante os anos. Aniversário de namoro, aniversário dela, Natal, aprovação no vestibular e formatura, tudo era motivo pra mais uma pelúcia. Os primeiros ficavam em cima da cama, depois ganharam também a escrivaninha e, com o tempo, as três prateleiras já não eram mais suficientes para acomodá-los. E o que começou com ursos, cachorrinhos e sapos, agora era uma coleção com macaco, coala, golfinho, girafa, hipopótamo, hiena, gaivota, lhama, mamute, ornitorrinco, Pateta, Margarida, Yoshi, Bidu e toda infinidade de personagens infantis e variedades que a fauna pode oferecer.

Os passos de Denise quebraram o silêncio, aumentando o ritmo rumo à porta do quarto. Ela surgiu aos olhos dele, com o rosto vermelho e inchado e com dezenas de animais de pelúcia nas mãos e braços e um tigre branco pendurado pela cauda na boca. O Edgard ficou atônito, embasbacado. O susto foi grande, quase do tamanho da vontade de rir ao ver a agora ex-namorada escondida embaixo de um mundo de pelos. Levantou-se rápido, tentou dizer que ela estava se precipitando, que os presentes deveriam ficar com ela, mas Denise não ouviu, largou tudo sobre o sofá e voltou para o quarto para a segunda viagem. E em instantes apareceu carregando o panda gigante presente de cinco anos de namoro – maior que ela. E, num vai-e-vem de vaquinha, leão e arara-azul, o quarto de Denise ficou vazio. Ela olhou para ele pela última vez, secou uma lágrima e bateu a porta do quarto.

Enquanto Edgard carregava os bichos para o carro, lembrava-se da história de cada um deles, emocionado. O gato Mingau do primeiro aniversário dela juntos, o porquinho do Natal. A galinha d’Angola de quando ela conseguiu o primeiro estágio e a zebra pela aprovação em Cálculo II. O avestruz de quando ele ficou fora uns meses no intercâmbio. O texugo porque ele simplesmente achou um bicho com o nome engraçado. Enfim, porta-malas lotado e bancos traseiros com mais espécies animais do que a arca de Noé. O panda grandão no banco do carona. Com cinto de segurança e tudo.

Quando o Edgard chegou em casa, pediu ajuda à irmã para organizar as pelúcias que, a contragosto, trouxera da casa da Denise. Ofereceu-os a ela, que não teve coragem de aceitar. Eles ajeitaram os bichos pelo chão do quarto do rapaz. E ele acabou pegando no sono sentado, ao lado deles.

Mas poucos dias longe de Denise foram suficientes para o Edgard ter certeza de que era dela mesmo que ele gostava. Pensativo, voltou correndo do trabalho para casa e olhou cada um dos bichos, um por um, como quem procura por algo precioso. Quando terminou, sorriu. Quis ligar para a Denise e pedir para reatar o namoro. Falar que à tarde devolveria todos os animais e que, da casa dela, só sairiam para o apê deles, que já começaria a ser montado. Com um quarto só para as pelúcias. Mas manteve-se calmo para não tomar decisões precipitadas.

No fundo, tinha certeza de que ela aceitaria. O ursinho feioso não tinha sido devolvido.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A extração 3


A mãe acordou desesperada com o pranto da filha. Levantou-se às pressas e, com o coração aos saltos, abriu a porta do quarto da menina, que, ainda deitada, chorava e soluçava abraçada ao cãozinho de pelúcia. A mãe pensou logo em um pesadelo, como ocorrera três vezes no último mês e já se viu a recuperar o discurso de que não existiam bruxas em vassouras perseguindo crianças. Mas não era bruxa. Era dor. De dente.

Se para os pesadelos o remédio era relativamente fácil (paciência, um chocolate e desenho animado logo cedo), para dor a mãe ainda não tinha fórmula mágica pronta. O jeito foi abraçar forte a filha, secar as lágrimas com as longas orelhas do Bob, a pelúcia, e anunciar que chegara o dia de ela conhecer uma tia com quem ela se daria muito bem, a dentista. Aí o pânico tomou conta da menina de vez e o choro aumentou assustadoramente.

Poucas horas depois, estavam na sala de espera do consultório mãe, filha e o Bob, segurado pela cauda – a presença do cachorro fora condição da menina para aceitar conhecer a odontóloga. Ela ainda não havia parado de chorar desde a manhã e a mãe suspeitava ser agora muito mais por medo do que por dor. A menina não queria ver a dentista, imaginava-a como uma bruxa velha, muito mais feia do que a dos pesadelos, com uma verruga com pelos no nariz e um aparelho torturador em forma de motorzinho na mão. Arrancaria todos os seus dentes, sem qualquer piedade, às gargalhadas. A mãe garantia que não e, após demoradas negociações, as duas estavam no sofá da clínica.

Quando a secretária anunciou que a menina era a próxima, o mundo pareceu que acabaria. O choro virou grito e ela se escondeu atrás das pernas da mãe, na tentativa de se proteger do monstro que estava prestes a buscá-la. Mas não veio um monstro. Muito menos uma bruxa. Do corredor surgiu lentamente uma moça grande e bonita, com cabelos pretos e a roupa, sapatos e o sorriso brancos. Abaixou-se para cumprimentar a menina e sorriu, com um singelo oi. As lágrimas da menina pausaram por um instante e ela levantou uma das sobrancelhas, com o olhar fixo na grande mulher de branco, ainda sem entender a situação. Aceitou a mão dela estendida e, com receio, caminhou com a moça de mãos dadas até sua sala, olhando a mãe por trás do próprio ombro.

O consultório não parecia a morada de um ser maligno. Fotos de pessoas felizes nas paredes e um boneco em forma de dente agarrado a uma escova decoravam o ambiente. A menina sorriu quando a cadeira subiu, ao som de um barulho engraçado. A primeira pergunta da dentista não foi respondida. A segunda recebeu como feedback um monossílabo qualquer. E em minutos a criança estava contando como o dente doeu e o bicho de pelúcia, agora no colo, a ajudou a suportar o sofrimento. A dentista ofereceu um pedaço de doce e, quando a menina mordeu, o pequeno dente de leite ficou cravado na guloseima. A mulher retirou-o com cuidado e explicou que o pontinho preto eram bichinhos muito pequenos que queriam fazer mal à menina, mas ela não deixaria. Elogiou-a por ter sido valente durante a extração. Tornou-se heroína.

A criança ouviu atenta todas as recomendações de como cuidar da saúde da boca. Ganhou o dente de lembrança, para levar consigo à espera da fada do dente, e, de quebra, um sorvete. Para completar, a moça mostrou a ela uma foto antiga de quando caiu seu primeiro dente, exatamente na mesma posição da janela recém-aberta. Riram juntas. A menina saiu correndo ao encontro da mãe. Quando chegou em casa, a primeira coisa que fez foi querer escovar os dentes. Até os do amigo de pelúcia. E à noite confidenciou à mãe que não queria mais ser bailarina quando crescesse, queria ser dentista.

No dia seguinte, a menina acordou e logo olhou embaixo do travesseiro. O dente havia se transformado em uma moeda.




É só uma tentativa de quitar minha dívida com o mundo da odontologia depois da primeira e segunda edições. Talvez agora esteja paga.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Conto à tróis - parte 1

Foram semanas de negociações. Conversas até a madrugada envolvendo assessores, empresários e produtores. Altos valores. E um final feliz. Inicia-se agora um projeto inovador na literatura brasileira: Conto à tróis, o primeiro conto escrito a seis mãos. Uma história em três capítulos, cada um criado por um autor, com total liberdade para dar rumo aos acontecimentos. A consolidada parceira com o jornalista Matheus Espíndola, do Blog do Cano, está de volta, com a ilustre participação do também jornalista Marcos Oliveira, dono do Cueca e Meia – projeto paralelo do musical Sandália e Meia. Divirtam-se.


Amor de coletivo


Capítulo 1 – Sapatos novos

Há um mês Fábio não ia mais ao trabalho com má vontade. Pelo contrário, aguardava com ansiedade a hora de tomar o ônibus rumo à fábrica. Passou a fazer a barba diariamente e comprou sapatos novos. Até aprendeu a passar a camisa direito. Fábio não gostava muito de ser montador de carros, mas o salário não era ruim para quem parou de estudar no ensino médio para ajudar a mãe nas despesas da casa. O sonho de cursar a faculdade de Ciências Sociais foi adiado sem data para ser retomado. O trajeto até a indústria ganhou nova cor quando uma moça diferente passou a pegar o mesmo ônibus que ele.

Fábio trabalhava em esquema de escalas, alguns dias da semana começando pela manhã e outros à noite. E eram nesses últimos que ele a encontrava. Ela era linda, pequena e branquinha, com longos cabelos pretos e bochechas rosadas. Aparentava ter 20 e poucos anos, corpinho com tudo no lugar. Ele, com seus 27, estava há alguns sem uma namorada. Ela sempre se sentava no mesmo banco, no fundo do coletivo, e falava ao celular todo o percurso. Ria muito. Carregava uma bolsa grande de couro. Todos os dias descia no mesmo ponto.

Nesse tempo dividindo o mesmo ônibus, tudo que ele descobriu dela era que se chamava Gláucia. Ela disse o nome algumas vezes ao atender ao telefone. Pelas conversas, não dava para sacar com quem ela falava. O tom de voz era baixo. Nem tampouco ele poderia imaginar se ela voltava para casa ou ia ao trabalho. A bolsa preta aumentava ainda mais o mistério.

Fábio ia à fábrica acompanhado de um colega, o Nestor. Fábio era caladão, tímido e gostava de ler. O Nestor era o extremo oposto – boa pinta, conquistador e brincalhão. Era o funcionário preferido de todos os superiores e já tinha se envolvido com praticamente todas as mulheres da empresa, das estagiárias às diretoras. Ele já havia percebido que o amigo não tirava os olhos da mocinha do último banco e não perdeu a oportunidade de fazer piada com a situação. Espalhou a história do amor platônico no setor de montagem e Fábio tentou negar, dizendo que era invenção. Mas era notório como ele ficava sem graça quando os colegas tocavam no assunto.

Uma noite em que Fábio não trabalhou, estava em casa lendo um conto de Edgard Allan Poe quando fechou o livro, pensou um pouco e decidiu que deveria levar adiante a ideia de conhecer a Gláucia. Apresentar-se para ela, falar qualquer coisa. Criou coragem e ligou para o Nestor, revelou que estava a fim da garota e pediu conselhos ao colega mais experiente no trato às mulheres. Nestor brincou com a situação, mas apoiou a iniciativa – poderia sim dar certo. Os dois trabalhariam no dia seguinte pela manhã, mas Fábio pediu que Nestor o encontrasse à noite, no ponto em que pegavam o ônibus para a indústria. Simulariam estar indo para um dia normal de serviço, mas Fábio desceria no mesmo ponto que Gláucia e, com jeitinho, abordaria a moça para uma conversa. Nestor não gostou do plano, no fim das contas ele sairia de casa apenas para uma volta de ônibus, mas aceitou fazer parte do jogo proposto pelo amigo.

Fábio lustrou os sapatos novos. E não conseguiu dormir aquela noite.

continua...

sábado, 9 de julho de 2011

Opostos


Ela sempre foi a mais baixa da sala na escola. Ele tem dificuldades em encontrar tênis tamanho 43. O prato preferido dela é lasanha. Ele, se pudesse, almoçava comida japonesa todos os dias. Ele acha que todo mundo tem que assistir O Poderoso Chefão ao menos uma vez na vida e ela vai ao cinema quando tem qualquer filme com o Johnny Depp. Ele está para concluir o mestrado em Economia e Finanças e ela cursa Publicidade em uma particular não muito bem vista na cidade.

Ele tem duas camisas do Black Sabbath. O sonho dela é ir a um show do Jeito Moleque. Ele está juntando dinheiro para conhecer Machu Picchu e a melhor viagem da vida dela foi um Réveillon em Cabo Frio. Ele se diverte com as crônicas do Veríssimo e ela está lendo o último livro do Harry Potter. Ela tem um pôster do Atlético campeão mineiro de 99 guardado e diz que se pudesse casaria com o Marques, o Guilherme e o Valdir. Ele prefere tênis.

Ela gosta de homens com barba. Já ele, acha que coça demais. Ele prefere morenas. Ela pintou o cabelo de uma cor meio castanha. O sobrenome dele é Silva e o dela é algo polonês, difícil de falar. Ele bebe Jack Daniel’s e ela sempre pede caipirinha. Ele frequenta bares. Ela, boates. Ela terminou o último namoro porque o cara era ciumento demais. O último relacionamento dele acabou porque não estava mais bom. Ela é de Touro e ele acha que esse negócio de signo não tem nada a ver.

Ele fuma Carlton. Ela tem um Renault. Ele ainda mora com os pais. Ela tem dois graus de miopia. Ele nasceu sem os dentes do siso. Ela não gosta de circo. Ele tem saudades do Rex, seu primeiro cachorro. Ela tem um vestido xadrez esquisito. Ele foi o último da turma a comprar celular. Ela segue o Rafinha Bastos no Twitter porque acha engraçado.

Eles um dia se encontraram sem querer. E conversaram muito mesmo pra tentar se conhecer.

Mas não rolou nada. Eles são diferentes demais. E hoje um nem lembra mais que o outro existe.

domingo, 3 de julho de 2011

Fecha a conta


Pelo menos uma vez por semana os quatro amigos se encontravam no bar do Gilson. O ambiente era simples, a cerveja era gelada e serviam uns petiscos bem gostosos. Para eles, era o lugar ideal para jogar conversa fora, assistir ao futebol e esfriar a cabeça depois de um dia de trabalho. Fora que o Gilsão era um cara extremamente boa praça, um gordinho bonachão desses que logo ficam íntimos dos clientes e fingem ser mal-educados com todo mundo para a galera dar umas risadas. A Soninha, a mulher dele, era um amor de pessoa. E o Valtinho, o único garçom, já era como se fosse da família. Só tinha um problema: a conta sempre vinha errada. Cobrando a mais.

Eles bebiam muito e costumavam comer bastante. Logo, era difícil dizer exatamente se foram 17 ou 19 garrafas ou se a conta fechou em R$92 ou R$105. Mas era refazer os cálculos e perceber que tinha coisa errada acontecendo. O Mauro era sempre o mais exaltado, achava um absurdo a história sempre se repetir. “Pô Gilsão, toda a semana isso? Tá achando que a gente é otário, né?” O João Victor, pelo contrário, era tranquilão e sempre a favor deles pagarem o que foi cobrado e ficar por isso mesmo, a diferença nem era tanta. O Moreira, o mais político do grupo, era o responsável por ir lá oficializar a reclamação e trazer de volta a conta certa. O Gilson contestava um pouco, pegava a calculadora, rabiscava uns papéis e acaba por concordar com ele. Sempre punha a culpa em alguma coisa: geralmente no Valtinho ou na filha dele, a Luciana, que ajudava a família no caixa. Ou no grande movimento do dia, nas pilhas da calculadora, na alta da Bolsa de Valores ou no que desse para tirar o dele da reta. Mas foi do mais racional da turma, o Claudinho, o plano para terem certeza se eram ou não de má fé os reais cobrados a mais.

A ideia era a seguinte: na próxima semana eles não se sentariam juntos. Cada um pegaria uma mesa e ficaria sozinho, bebendo, comendo e anotando em um papelzinho escondido a exata quantidade de tudo que fosse consumido. Assim eles não se distrairiam conversando e confrontariam a lista do que foi pedido com o que seria cobrado. Se as contas viessem mais altas, era mesmo injustiça de caso pensado e eles deixariam de vez o local. Combinado, dito e feito. Cada um chegou em um horário, escolheu sua mesa e consumiu o que queria. O pessoal do bar estranhou, perguntou se estava tudo bem e eles responderam que sim, só queriam variar um pouco as coisas. Alguns pedidos depois, as contas. Frio nas barrigas.

O resultado não foi muito bacana. A conta do Mauro veio com duas cervejas a mais e uma porção de filé com fritas no lugar da de moelas que ele comeu. A do João Victor tinha uma dose de conhaque que ele não tinha pedido e uma porção de frango a passarinho inventada – ele é vegetariano. O Moreira se surpreendeu ao descobrir, olhando sua conta, que três garrafas de cerveja de R$4,20 somam R$15,50. E o pior foi com o Claudinho, que passou mal no dia e não pode ir ao bar, mas recebeu em casa no dia seguinte uma cobrança de cinco cervejas, uma Seleta, um filé de tilápia e um Trident Melancia. Quando ele apareceu no bar pra reclamar, o Gilson nem deixou ele falar e foi dizendo que o máximo que poderia fazer era parcelar em duas vezes. “Amigos amigos, negócios à parte”, justificou.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Primo coragem


A primeira lembrança que ele tem da infância é de uma brincadeira qualquer ao lado da prima. Nunca mais viria uma criança linda como aquela: cachinhos nos cabelos, traços singelos no rosto e grandes olhos que brilhavam. Ele não sabia por que, mas já sentia que aquela garotinha o fazia bem de um jeito diferente.

Eles não moravam na mesma cidade. Culpa do emprego do pai, que o levara para longe do restante da família. Ainda bem que existia o Natal, aguardado durante longos meses, para juntar todo mundo na farta ceia da casa da avó, com direito a presentes, tio vestido de Papai Noel e pelo menos um reencontro anual com a prima.

No início da adolescência, ele se deu conta de que era mesmo dela que gostava. De verdade. Sonhava com o primeiro beijo, imaginava como seria namorar escondido da família por um tempo e até o dia em que se casariam – ela deslumbrante, vestido branco ressaltando o olhar. Confidenciou seus pensamentos a um ou outro amigo, que o aconselharam a abrir o jogo com ela. Mas, ano após ano, faltava coragem. E se ela dissesse não?

Ela cresceu e ficou cada vez mais bonita. O corpo começou a ganhar formas, ficou vaidosa e os olhos pareciam brilhar ainda mais. Era engraçada, carinhosa, tinha planos de ser médica – assim como ele. Talvez por ela ser tão perfeita, a timidez sempre vencia o sentimento puro que ele trazia e ele não se declarava. O primo teve o primeiro beijo com uma vizinha, a prima com um colega de sala.

Na festa de 15 anos dela, ele decidiu que a pediria em namoro. Mas ao vê-la, mais linda que nunca, dançando a valsa com outro primo (da outra família dela e mais velho que eles), travou e não conseguiu dizer nada. No dia seguinte, ela revelaria ao primo preterido que preferiria ter dançado com ele, porém, como ele só chegaria de viagem no dia da festa, não poderia participar dos ensaios. Quando ela saiu de perto, ele chorou.

No fim desse ano, a avó morreu e não houve mais Natal em família. Após a primeira ceia na própria casa, ele trancou-se no quarto com uma foto dos dois, crianças, nas mãos. Olhava para o olhar dela.

Na próxima festa de 15 anos de uma prima deles, ela não foi porque tinha prova de vestibular. E no casamento de um tio mais novo, foi ele quem não deu as caras porque era sua calourada na faculdade. Ela mudou-se pra longe para estudar. Quando dava, se falavam pela internet ou num telefonema rápido. E isso fazia muito bem a ele.

Quando ele concluiu o curso de Direito, convidou muita gente da família para a formatura. Talvez fosse a ocasião perfeita para contar à prima o que se passava com ele há tantos anos. Ela foi. E, sem graça, levou o namorado. Talvez tenha sido a pior noite da vida dele, que encheu a cara de uísque e apagou cedo. Para a formatura dela – não em Medicina, mas em alguma Engenharia – ele fingiu ter um compromisso no dia e optou por não ir. Ele se casou com a primeira namorada séria. Logo depois ela também subiu ao altar, com o então chefe. Em silêncio e por muitos anos, ele pensava no olhar dela.

Eles se viram mais algumas vezes, em ocasiões de família, mas com certo distanciamento. Ela teve dois filhos e se separou. Ele se divorciou relativamente rápido, sem nenhum herdeiro. E depois de uns anos sem se falarem, ele passou por uma loja de joias e viu, na vitrine, uma pedra que brilhava muito, exatamente como o olhar da prima. Decidiu que, enfim, era hora de ela saber o que ele sentira durante toda a vida. Seria, sem falta, quando se vissem da próxima vez. Jurou para si ter coragem, pelo amor que nunca deixou acabar.

Só que no próximo reencontro ele estava presente apenas de corpo. Uma enfermidade súbita o tirou a vida de uma hora para outra, ainda novo. Ela, quando soube, ficou muito mal. Triste, fez questão de ir ao velório. Quando o viu pela última vez, depois de muito tempo, seus olhos brilharam de novo.

domingo, 5 de junho de 2011

A extração 2

Continuação de um momento passado, bem dolorido.



Duas semanas após a cirurgia para retirar meu primeiro dente do siso, há longos dois anos e meio, o segundo foi extraído. Eu, mais esperto e experiente, saí do consultório já para a farmácia, encomendei os remédios necessários e me cuidei para não sofrer tanto como da outra vez. Deu certo. O problema é que ainda restavam outros dois terceiros molares, os de baixo, segundo a dentista responsável pelas primeiras extrações, em posições bem mais complicadas de serem retirados.

O tempo passou, eu me mudei de cidade, larguei o emprego, comecei a trabalhar outra vez e deixei de lado a preocupação com os sisos inferiores durante o período. Até que decidi procurar outro dentista para analisar a real necessidade de tirar os dentes, aproveitando que moro com minha família (sei lá, poderia precisar deles) e a empresa tem convênio odontológico.

Do consultório, sou encaminhado a uma clínica de raios-x. Nada agradável as plaquinhas na minha boca empurrando minha língua e me fazendo engasgar. Um dos lados não deu certo e tive que repetir o procedimento. Pronto, agora sim. Levo o resultado de volta ao dentista. Ele analisa, fica sério e em silêncio e depois solta a primeira das más notícias: “Tem uma coisa que eu preciso te falar antes. Seus dentes estão bem deitados e as raízes estão dentro do nervo, que passa por baixo da arcada dentária”. Não parecia legal. Completou me informando que nesse caso tanto o pré quanto o pós-operatório não são simples e que havia chances reais de eu perder a sensibilidade na boca onde estão os dentes, pelo menos por um tempo.

Dia marcado, hora marcada, medicamentos recomendados tomados, lá estou eu na antessala no aguardo da cirurgia. Chego pontualmente às 11h e só sou atendido ao meio-dia. Quando entro na sala, a primeira surpresa: outro dentista acompanharia a extração. Em princípio, não fiz ideia do porquê. Começa a operação. As radiografias afixadas no aparelho de luz da cadeira me mostravam o quão horizontal cada dente estava, o que não me transmitia exatamente muita tranquilidade. Pano na cabeça que deixa só o rosto para fora e anestesia, anestesia, anestesia.

Em seguida eu descobri qual era a função do segundo dentista: segurar o sugador. Mas mais que isso, me manter atento. Ao menor sinal meu de distração, ele descia o aparelho para mais dentro da garganta, tentando me fazer engasgar. Isso umas mil vezes, algumas com sucesso. Quando eu já estava na situação desagradável de ter pelo menos três mãos na minha boca, além de sugador, agulha e uma ponta de metal, o dentista titular pergunta ao colega: “A final da Copa do Brasil é sábado?” Ao que ele responde: “Acho que é sim”. Eu não me contive e intervi: “Hum-hum”, e levantei quatro dedos da mão. “Ah, é quarta?” “Aham”.

Dez minutos mais tarde, a pergunta é para mim: “Você é vascaíno, cara?” Como responder isso com tantas mãos, aparelhos e sangue na boca? Só enfiei a mão no bolso e mostrei meu chaveiro do Corinthians. Saí-me bem. Mudando o assunto, a recomendação foi para que eu não me preocupasse com alguns pequenos estalos que ouviria. Tensão. Alicate na boca e creck, crack, track. Sai um pedaço de dente, outro pedaço, mais outro. Eu nem olho para a mesinha ao lado, onde as partes são depositadas – melhor não ter certeza do que está acontecendo.

O primeiro dente é extraído, em partes, mas é. Antes de começar os procedimentos para o segundo, ouço: “Umm, este está bem dentro do osso. O buraco vai ser grande. Você vai lembrar de mim por uma semana”. Está certo que ele é dentista, não psicólogo, mas, cá entre nós, precisa desse terrorismo? Outra observação: os aparelhos que são colocados na boca dos pacientes não deveriam ter dois lados. Uma ponta cutuca e logo depois a outra precisa ser usada para pressionar, alçando a primeira, empapada de sangue, aos olhos do enfermo. Não é bacana, sério.

Enfim, último dente fora. Com base na primeira trágica experiência, já peço um arsenal de remédios. Defendo que prefiro ficar dopado a sentir aquela dor insuportável. O dentista me garante que vai me passar o remédio mais poderoso. Deve ser mesmo, porque precisei assinar um papel na farmácia com meu nome completo, endereço, documento de identidade e telefone. Por pouco não levantam minha ficha criminal e analisam minhas comunidades no Orkut. Mas o tal medicamento funciona, segurou a onda legal. Fiquei sabendo que é forte mesmo, indicado para pacientes com câncer.

Por fim, em um texto sobre odontologia ele não pode faltar. Fica meu registro de protesto contra o motorzinho e seu barulho assustador. Ele foi usado tantas vezes que uma hora eu achei que o dente não seria mais extraído, mas pulverizado até sumir. Felizmente não nos veremos tão cedo, motor. Pelo menos eu espero.