quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Saudades de um cara 7


Hoje um ciclo se encerra e outro está prestes a ser inaugurado. O primeiro dos anos de vida de gente grande passou. A galera está, aos poucos, se encontrando profissionalmente. No fim das contas foi bom. O negócio agora é aprender a conviver e controlar a saudade de tempos que não voltam mais e de pessoas que voltam, mas só de vez em quando. Nada melhor para um período de fim de uma era e início de outra do que falar de amor, esperança e balango. Com vocês, uma homenagem ao casal Luciana e Marcelo Balango.



Por Matheus Espíndola

Era impressionante que ela gostasse, admirasse e elogiasse um bando de babacas que inventavam novas formas de conversar.

Pelo menos, acho que foi assim que ela apareceu. Graduanda em Letras, sua busca, que tinha finalidades acadêmicas, era por jovens que se comunicavam por meio de gírias. O diálogo era na mesa do Restaurante Universitário e, entre uma baboseira e outra que lhe era ensinada, Luciana fazia com que nos sentíssemos especiais, inteligentes, bonitos... e mais: cheirosos, jovens, esbeltos, elegantes, cabelo bonito, barba bonita, cor bonita, e por aí vai... Seu jeito único de bombardear as companhias com elogios levou-nos à conclusão de que sua missão no mundo devia ser mesmo essa: balangar. Algum sábio conferiu-lhe a alcunha: “Luciana Balango”— portanto.

Em meio à laia de fanfarrões, Luciana era a pitada de maturidade. Aliás, sua verdadeira idade até hoje é um mistério. Enquanto os amigos encontravam na esbórnia a melhor maneira de se inserirem na vida social, Luciana Balango levava uma vida pacata, e consagrou-se como uma companhia infalível para todas as horas. Sorriso fácil, palavras doces e, de vez em sempre, o disparo de um balango fulminante. “Como você está bonito hoje!”.
Moça de família, cantora — em francês — do coral. Ela provou que era mulher para casar. Assim, fisgou o grandioso Marcelo e cedeu-lhe o sobrenome: Marcelo Balango — logo. Ainda hoje, naquela terra turbulenta, é possível encontrar um refúgio de serenidade e harmonia. Com um pouco de sorte, encontra-se o casal e desfruta-se de um papo radiante de paz e esperança.

Alguém disse isso uma vez, e acho válido repetir: “Estudar, saber, agir, vencer. A gente tenta praticar os quatro, mas acaba descobrindo que precisa de muito mais pra ser feliz... carinho, atenção, companhia, confiança, apoio, bons conselhos, boas idéias, gargalhadas e diversão.” Assim é Luciana Balango, que enxerga o melhor de cada um e torna a vida muito mais agradável.

É mesmo impressionante! 

Isso que eu falei.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Cenas do cotidiano


Na cozinha do serviço, no horário do lanche:

- Eu sempre durmo cedo.

- Eu não. Tenho insônia, só consigo dormir altas horas da madrugada. Por isso toda noite eu leio até tarde.

- Nossa, que menina culta!

- Amm... Adivinha o que eu leio.

- Capricho?!

- Não. Livrinho de piadas.

- ...


Amigos, se embebedando na casa nova após uma mudança:

- Vem cá, aquele lance da máquina do tempo é possível mesmo?

- Bom, o tempo é um vetor e... Você sabe o que é um vetor?

- Sei! O mosquito Aedes aegipty é o vetor da dengue.

- ...


Isso que eu falei.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

A extração


Após tantos anos de espera, chegara a hora de acabar com um dos meus piores inimigos. Depois de tanto me fazer sofrer e imaginá-lo exterminado, meu terceiro molar — o popular dente do siso — deixaria meu corpo. “Já vai tarde”, pensei, malicioso, ao acordar.


Antes de ir ao dentista, fui ao trabalho para resolver uma pequena questão administrativa e me certificar de que era mesmo dia útil e eu não estava trabalhando — se tudo desse errado, me agarraria a esse argumento para não cair em depressão. Sigo para o consultório, pontualmente, às 11 horas.


Lá, aguardo alguns instantes. A demora não me surpreende, já a esperava. A dentista aparece, abre a porta e a vejo ao lado de outra mulher. Ela olha para mim, exterioriza certo espanto. “Eu sei o que é o caso dele. E extrações só são marcadas para as 10h40”, resmunga para a colega. Eu intervenho, me defendo e asseguro que o atendente me disse 11 horas. E ela sai às pressas à caça do irresponsável que atrasaria seu almoço. Comecei mal.


A dentista volta, me convida a entrar. Eu ainda me questiono se é só para justificar que a cirurgia terá que ser remarcada ou para consertar de vez minha arcada dentária. Ela, a contragosto, me entrega o avental e os óculos de proteção. O siso estava com os minutos contados. Ahá!


O primeiro procedimento é a anestesia, para o paciente não sentir dor. Legal. Mas, paradoxalmente, cada fincada de agulha em cada ponto da mucosa da minha boca me faz querer desistir. Penso no lado bom e sigo em frente.


A técnica para extrair o terceiro molar é simples, eu diria até meio pré-histórica. Consiste em enfiar um alicate na boca do coitado do paciente e arrancar o dente na marra — para isso não importa as interjeições de dor que ele exclame e nem o volume do gemido.


Enfim, o dente sai!


Na verdade nem foi tão ruim assim. A dentista me pergunta se pode jogar o dente fora. Eu não autorizo. Pensei em guardá-lo, colocar debaixo do travesseiro para que a Fada do Dente troque-o por algumas moedinhas — estou precisando. Só aí me dou conta de que me mudei recentemente e ainda nem tenho travesseiro. Mas trouxe-o assim mesmo. “Em 20 minutos pára de sangrar”, me garante a odontóloga.


Saio cantarolando, um problema a menos na minha vida. Está certo que ainda preciso extrair outros três desses inimigos íntimos, mas uma grande caminhada começa com o primeiro passo. Pego o ônibus e volto para casa, sempre lembrando de que hoje não precisarei trabalhar.


No caminho, o cenário muda completamente. A anestesia passa e uma dor insuportável toma o lugar onde antes morava o pequeno ossinho que a esta altura está no meu bolso. Parece que o buraco na gengiva quer parir outro dente a qualquer custo e os outros 30 e poucos se acastelam para impedir. Ferrou.


Chego a minha casa. Sento, fecho o olho, me concentro e mentalizo: “Não vou chorar. Não vou chorar. Não vou chorar”. Aí me levanto e vou secar as lágrimas, que já estavam pingando na minha roupa. Pelo menos eu tentei.


Lembro do conselho da dentista. “Se doer, tome um analgésico”. Poucas vezes na minha vida fui tão grato a um comprimidinho. A dor passou. Que sensação horrível — não a desejo a ninguém. Quer dizer, talvez eu não me importaria tanto se fosse em um ou outro aí... O fato é que doeu, com força. E os 20 minutos que a cirurgiã me prometeu para estancar o ferimento duraram mais de 24 horas.


Estou me recuperando. Em breve devo estar pronto para outra. Que venham as próximas três extrações!


Isso que eu falei.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Por Ulisses Vasconcellos

Em uma das minhas mais recentes empreitadas jornalísticas, dia 21 de novembro, fui ao show do Chiclete com Banana. A intenção, claro, era dialogar com os músicos para produzir uma matéria. A organização do evento combinou a entrevista e, na hora H, furou. Além disso, choveu literalmente o dia inteiro — um temporal mesmo. Eu dei meu jeito. Segue a cobertura publicada na Tribuna do Cricaré de terça-feira, 25 de novembro.


Chiclete, chuva e banana:
combinação que deu certo


É preciso mais que um temporal para parar um chicleteiro. O público presente ao show do Chiclete com Banana em São Mateus provou que água não dissolve animação — pelo contrário, dá até mais energia. Os milhares de foliões curtiram a apresentação da maior banda de axé brasileira até o último instante, na madrugada contínua ao dia em que foi registrada a maior precipitação do ano.


Quando o Chiclete subiu ao palco, o sábado já se iniciava e a chuva era ininterrupta desde a manhã do dia anterior. Mas foi só Bell Marques aparecer, armado com sua guitarra e sua bandana, e colocar fogo na multidão. Enquanto isso, no alto, a explosão de fogos de artifício coloria o firmamento. O espetáculo foi aberto com o sucesso Eu quero esse amor e o rei dos chicleteiros logo profetizou: “Esta noite não há estrelas no céu. Porque todas elas estão aqui”. A partir daí foi só confiar nos teclados de Wadinho Marques, as percussões de Waltinho Cruz e Deny, a bateria de Rey e o contrabaixo de Lelo que tudo daria certo.


O pessoal dos camarotes, protegidos das águas, resistiu um pouco mais, mas o som contagiante dos baianos acabou reunindo grande parte dos foliões na pista. Formou-se então um único mar de abadás amarelos, cor-de-rosa e alaranjados. No chão, algumas poças se consolidavam, as chapinhas dos cabelos femininos se desfaziam, a roupa sujava. E a alegria e empolgação cresciam na mesma proporção. Coisas dos tais chicleteiros. Representando o Município, o Swing Battifun, do alto do trio elétrico, cuidou para que Bell e sua turma encontrassem o público já aquecido e em ponto de bala para o show inesquecível. São Mateus recebeu visitantes de diversos pontos do País. Bandeiras do Espírito Santo e de outros estados tremularam entre os micareteiros.


Isso que eu falei.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Depoimentos

Imagine uma galera muito massa.

Imagine um churrasco.

Imagine cerveja.

Imagine uma câmera.

Imagine que é despedida.

Imaginou?

Parte 1

Parte 2

Isso que eu falei.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Fator B


Pouca gente sabe, mas o corpo humano tem sua própria bússola. É uma parte do cérebro ainda desconhecida dos cientistas com função única de orientar. Ela não é ativa o tempo inteiro – muito pelo contrário, é estratégica. Para ser acionada precisa de combustível: bastante álcool. Aí as coisas se explicam.

É impressionante, um cidadão embriagado sempre volta para casa inteiro. Não importa a distância, o meio de transporte, a dose ingerida, nada disso. Ele volta, guiado pela misteriosa força que convencionei chamar de Fator B. O bêbado pode perder autonomia sobre seus membros, dicção, senso do ridículo, apetite sexual, mas uma vez com o Fator B acionado o retorno ao lar é certo.

O místico poder garante que, ao final da noite, o encachaçado dormirá na própria cama, custe o que custar. O sexto sentido o sustenta quando as pernas cambaleiam, fixa as mãos no volante e guia o automóvel quando os olhos cerram-se ou crava a coluna vertebral sobre a moto quando o corpo começa a deslizar para um lado. Até consegue carona, se necessário. A rota sempre é impecavelmente lembrada, por mais recente que possa ser a moradia. É como um GPS instalado por dentro.

Uma madrugada dessas eu voltava para casa da Festa da Cidade, alcoolizado, de ônibus. Estava em pé, apertado, sozinho, meio bobo e dialogando com pessoas que nem imagino quem são. De repente um rapaz sentado próximo abre a boca e vomita... e vomita... A multidão (o ônibus estava cheio) mais que depressa passa a zombá-lo. Eu também, mas meu coração benevolente entra em ação.

Com carinho quase materno, oriento o fanfarrão a regurgitar seus alimentos e drinks em local a causar menos estrago – mais longe do corredor, cuidado com os pés dos passageiros, pelo menos fora dos outros bancos. Ele não responde, está desmaiando. O coitado está solitário. A galera já inventa apelidos, aponta o dedo indicador e ri alto. Eu também, mas ainda estou do lado dele. Eis que me vem à mente a questão: “Como é que este embasbacado morto-vivo vai chegar em casa?”

Pergunto a ele se lembra-se onde mora. Ele abre só um olho, põe a língua para fora e resmunga qualquer coisa babando, que interpretei autoritariamente como: “Sei sim, não se preocupe. Estou bem”. Acho que ele está em coma. A esta altura tento insistentemente explicar aos populares que o sujeito não é meu amigo e que nem sequer o conheço. Em vão, agora fiquei sendo o parceiro do derrubado.

O ônibus pára num ponto qualquer. O maluco se levanta repentinamente, respira, olha pela janela e calmamente desce as escadas com toda segurança do mundo. E segue, sozinho, pela rua escura, para o lar doce lar dormir o sono dos justos. O Fator B dele é bom mesmo.

Isso que eu falei

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Reconhecimento

Bom ver as coisas fluindo. Fiquei orgulhoso de ver Os Melhores caras do mundo publicado pelo Jeremias no Informativo Tá na Cara. Depois, o 4-1-3-2, que quase ninguém deve ter entendido nada, bastante elogiado na comunidade do Championship Manager 01/02 e reproduzido no blog do jogo.

Legal.

Isso que eu falei.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

4-1-3-2

Assumo a equipe. A direção espera que o clube obtenha uma posição respeitável no campeonato. Espera o título. Ou, simplesmente, a promoção à divisão de elite. Checagem minuciosa no plantel, olho clínico em busca de valores que mereçam permanecer — só um ou outro. Aos demais, a lista de transferências. Observo as finanças, não era bem o que eu esperava. Segmento os atletas em treinamentos por posição.

É hora de começar a montar o esquadrão. Sem muitos recursos, nomes consagrados esquecidos e desempregados são o primeiro alvo — as promessas vêm em seguida. Talvez um empréstimo valha a pena. Puxo na memória aqueles que outrora deram conta do recado e conquistaram vagas eternas em quaisquer circunstâncias. Em viagem rápida pelos confins europeus, as primeiras peças começam a ser decididas. Grécia, Suécia, Ucrânia, divisões inferiores de Portugal.


Ainda falta alguma coisa. Bielo-Rússia e Bósnia-Herzegovina: celeiro de craques — garantem a linha de frente. Atenção ao limite de estrangeiros. É preciso entender como se encaixam as engrenagens da máquina. Os adversários se reforçam.


Agendar amistosos. Times fortes, que testem minha equipe pra valer. A estratégia precisa ser ajustada. Dois ou três zagueiros? Dois ou três meias? Dois ou três atacantes? De novo analiso o material humano à disposição. Adéquo o time à tática ou a tática ao time? O tempo diz. Começa o campeonato. Tantas horas de jogo se passaram.


Um hat-trick na estréia! Sabia que nele poderia confiar, nunca falhou. Finalização 20 — a chave do sucesso. Ah, e os tais atributos escondidos! Está contente com sua situação no clube, pensa que o técnico é extremamente competente. Acho que vou juntar minha voz à dos que esperam que em breve ele tenha uma oportunidade na seleção principal. A direção está agradada, em questão de tempo deliciar-se-á.


Jogo difícil e decisivo, contra o bicho-papão da temporada. Apreensão, quase tremo. Titulares até poupados na última rodada. Ih, um a zero para eles. Pausa! Penso. Seta maior nos laterais, ação livre no camisa 10, um ponta-de-lança a mais em campo. Rola a bola. Pausa. Rola a bola, pausa. O placar se inverte, gol chorado no finalzinho. Eu grito, saio correndo pelo quarto, quase choro, xingo. Nem percebo o cair das horas. Outro desafio vencido — rumo ao troféu, ao bi, ao tri, ao hexa... Se um combate é perdido, levanta a cabeça que a vida segue. O save também. Madrugada adentro.


Da Terceira Divisão para Tóquio. Libertadores, Champions League, uma de cada vez. Topo da reputação mundial. Quer vir treinar o Brasil? Os anos se passam, no jogo e na vida, e eu continuo na temporada 2001/2002. Os títulos acumulam-se e até as decepções. Uma dica? Na dúvida: mentalidade atacante e passe curto num 4-1-3-2. Comigo sempre deu certo.


Isso que eu falei.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Minhas meninas

Essas meninas só me dão orgulho!


Isso que eu falei.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Vem chegando o verão

Vem chegando o verão
O calor no coração
Essa magia colorida
Coisas da vida...


Não demora muito agora
Todas de bundinha de fora
Topless na areia
Virando sereia...



Vem chegando o verão. Pela primeira vez conhecerei a estação do Sol no litoral capixaba pelo lado de dentro. É estranho. Antes eu tinha um ano inteiro para me preparar psicológica e financeiramente para só uma semaninha de mar, areia e sensação de lugar sem lei. Agora eu irei pegar um ônibus de R$1,60 e voltar para casa depois do trabalho.


Será que eu vou reclamar do som alto de madrugada? Do lixo que os turistas deixam, sem preocupar se o material é ou não biodegradável? Qual será minha atitude quando um inconseqüente, sem qualquer pudor, urinar defronte minha casa, meu lar doce lar? E se eu me pegar ridicularizando um mineiro na praia?


Será esquisito quando tudo subir de preço de uma hora para a outra. Quando o axé tomar conta de vez do som dos carros e dos bares, os óculos escuros passarem a fazer parte do corpo, todo mundo andar sem camisa, suando, e a praia ser invadida por mocinhas de biquíni.


A verdade mesmo é que eu escrevi isso porque essa semana eu vi um velhinho caminhando, de óculos de grau, sem camisa, de sunga roxa, meia e tênis, e celular estilo flip acoplado na pequena veste. E olha que o verão nem chegou.


Isso que eu falei.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Saudades de um cara 6

Fui convocado a participar, mesmo que à distância, da biografia de mais dois amigos que se despedem de Viçosa nos próximos meses. E assim, meio sem querer, escrevi um Saudades de um cara falando do Pelé e da Ana Paula.



Primeiro dia letivo de 2005. O trote estava minuciosamente arquitetado pelos recém-veteranos. Os calouros seriam designados aleatoriamente com nomes de personalidades nacionais e carregariam a nova identificação enquanto durasse a brincadeira. Até aí nada de mais. A novidade foi um deles, que, a partir de então, passou a ser o Pelé.


Com poucos instantes de confraternização estudantil, um dos tantos carecas chamou a atenção. Era mais comunicativo, receptivo, mais gente boa mesmo. Aceitava todas as brincadeiras e toneladas de tinta, e ainda realizou um duplo twist carpado na rampinha de grama digno de deixar qualquer Daiane dos Santos boquiaberta. E, no mesmo dia, na primeira das Coalouradas, lá estava ele, trocando idéias com meio mundo. Um cara especial. Agradou a todos.


Pelé marcou sua vida universitária pela camaradagem e por ter sido o sultão de um paraíso mágico, o memorável Sítio do Pelé. Foi efêmero, mas inesquecível. O sítio foi o ponto de encontro de toda a galera do curso (quando ainda existia uma galera no curso) por poucas vezes, mas palco de curtições guardadas com o maior carinho do mundo nos arquivos dos melhores momentos em Viçosa. Depois, já no núcleo urbano, vez por outra ainda nos oferecia uma baladinha, muito agradável e de ambiente familiar.


Com poucos dias de carreira acadêmica nosso parceiro se enveredou com uma amiguinha. Não deu outra, pouquíssimo tempo depois ele e a Ana Paula (carinhosamente apelidada de Ana Paula Pelé por veteranos bobalhões) eram unha e carne. Pareciam espelho um do outro — e olha que a dissertação nem abordou aspectos físicos. Super gente fina, quietinha, sempre com um sorriso em anexo a um singelo “oi” por onde cruzasse o caminho qualquer um. Moça para casar — seria, mas, claro, já vai se casar com o próprio Pelé.


O jeitinho de séria dela pode até ter enganado, mas não colou muito tempo. O que ficou mesmo foi a capacidade provada (querida monitora de rádio!) e o jeito simples. Aquele papo gostoso toda hora.


A dupla, ou melhor o casal, nunca foi desses que deixam de fazer as coisas por estar namorando. Muito pelo contrário: eram figuras certas nos encontros no saudoso Eucalipto dos Coalas. Não bebiam, não usavam drogas, às vezes deviam ficar até meio espantados com tamanha insanidade da juventude que os acompanhava. Mas nunca falharam. Sempre foram pessoas em quem se podia confiar. Dois seres diferentes. Mais dois amigos para sentir saudade.


Isso que eu falei.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Editorial

Parei de escrever sobre passado. Redigi um texto com mais de cinco anos de antecedência. Será publicado no primeiro número da Revista Isso que eu falei. Em breve. Amplie a imagem.


Isso que eu falei.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Saudades de um cara 5

Garçom. Substantivo masculino. Empregado que serve à mesa em restaurantes, cafés, etc. Só isso? Acho que o Aurélio nunca tomou uma cachaça com o Japonês.


É noite de quinta-feira. Jovens peregrinam com destino prévia e tradicionalmente traçado. Parte deles pára no meio do caminho enquanto os outros seguem adiante. São dois mundos distintos, mas complementares, e que mais tarde se unificarão. O meio do caminho é um pequeno boteco conhecido por Bar do Fernando, Bar do Roberto ou, simplesmente, Chorinho. E é lá dentro que encontramos mais um célebre personagem das madrugadas universitárias, o chamado Japonês.


O Japonês não é só um garçom, um mero atendente. É mais que isso, é parte do show. Além de se encarregar com maestria do vai-e-vem de copos e garrafas, doses de compostos alcoólicos e porções alimentícias de data de fabricação atemporal, sempre recepciona os clientes com um cativante e encantador sorriso na face rosada, vez por outra acompanhado de um comentário perspicaz sobre qualquer coisa. Um sujeito aparentemente tímido, mas bom de papo.


Não se sabe ao certo como e quando sua alcunha se fixou, nem tampouco em que circunstâncias os laços de amizade com os aventureiros noturnos tanto se estreitaram. Ninguém nunca ao menos se preocupou em diagnosticar se ele possui ou não ascendência oriental. Não é essa a idéia. O certo é que de um cidadão que poderia muito bem passar despercebido, ele se tornou um cara legal. Um ingrediente a mais no revigorante estabelecimento com agradável som popular ao fundo, pessoal esquisito e clima abafado.


À medida que os ponteiros do relógio giravam, a música acabava e a clientela lentamente se esvaía. Quase todos rumo ao fim da via, onde parte da juventude já se concentrava desde antes, mais preocupada em quantidade de pessoas que em qualidade da noite. Até que restavam no Chorinho apenas três ou quatro rapazes – talvez acompanhados de um grupo de donzelas – e um violão, emprestado pelo bar.


A galera se empolgava, embalada por canções nostálgicas e de valor harmônico ligeiramente destoante do som que há pouco imperara pelo pequeno recinto. Com a consolidação da madrugada, o volume rústico dos berros tornava-se certamente inoportuno. De quando em quando um funcionário da casa era designado a exigir silêncio e tentar recolher o instrumento — e vez por outra recolhia. Aí o boa-praça Japonês entrava em cena e concedia uma segunda ou terceira chance, mesmo sem muita expectativa de que sua confiança fosse retribuída. Paciência nipônica.


Já amigo de verdade, o querido Japonês passou a ser parte da turma. O profissional mais procurado para oferecer uma e mais uma dose de aguardente a baixo custo com limão a tiracolo. Se notava no bar apenas um do grupo, solitário, não hesitava em oferecer um dedo de prosa e questionar quanto aos ausentes. E gostou tanto de ser carinhosamente coroado como Japonês que estendeu a honra a cada um de seus designadores. Sem muito esforço conquistou seu lugar no oriente do nosso peito, dentro do coração.


Isso que eu falei.

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

Saudades de um cara 4

Não é necessário muito tempo para se tornar inesquecível. É preciso tão somente uma ou outra característica que marque. E que agrade. O cidadão poder surgir num salão embaixo da Folha da Mata, em via pública ou numa cozinha. Foi assim com Luiz Cláudio, Plutão e Abreu. O Saudades de um cara de hoje é tipo um saudade de três caras. Três grandes caras.

Por Matheus Espíndola


Não se trata de metrossexualismo, vaidade exacerbada. Não se trata de humanidade e compaixão absolutas. Também não é o caso de gostar muito de caras bobos. É apenas uma justa e inevitável homenagem a mais três ilustres personagens daquele famigerado conto de fadas chamado 2004/2007.


O primeiro chama-se Luiz Cláudio — raro exemplo heterossexual de um cabeleireiro magnífico, exímio transformador da beleza. Só quem necessita de um corte no cabelo sabe o quanto é impossível sair completamente satisfeito de um salão — principalmente de um salão de macho. Mas para ele não havia segredo. Com sua tesoura de lâmina irregular e seu papo agradável, Luiz, como se tivesse uma máquina que fotografasse pensamentos, parecia adivinhar o desejo de seus clientes.


Entre uma tesourada e outra, ele falava basicamente de mulheres e das baladas viçosenses, embora nunca tenha sido flagrado em uma. Vez por outra, passava rapidamente por seu recinto um amigo ou conhecido, só pra animar a conversa masculina na pitoresca sala. Ao final do serviço, mais uma feliz surpresa: o irrisório preço de sua obra-prima: R$ 5 — bagatela que nunca fez questão de acompanhar a inflação. Não que eu fosse um cara vaidoso...


Já Plutão é um ilustre desconhecido, sujeito como tantos outros que, alcoolizado na balada, necessita de um ombro amigo, um refrigerante, um vômito para se reerguer. E foi exatamente assim que se resumiu sua breve participação em nossa história.


Ele apareceu completamente embriagado, numa noite qualquer, no Bar do Leão – onde os jovens bebem até cair, em plena rua, sem festa, sem nada para comemorar. Embora seu diálogo fosse ininteligível, a comunicação foi eficiente. Plutão mal conseguia se equilibrar, mas recebeu carinho e guaraná de companheiros dos quais jamais se lembrará. “Está bem agora, Plutão?” Ele respondeu com um vômito espetacular. Um atalho para que, instantes depois, voltasse para a realidade. Foi bom tê-lo ajudado. Não que fôssemos tão solidários assim...


Por fim, Abreu. Festa na Casa da Vovó, e, como de costume, tudo totalmente anormal. Uma gargalhada escandalosa, daquelas bem debochadas, ressoa na cozinha da esbórnia. Lembrava um antigo personagem de propaganda de posto de gasolina que, após ser atendido, zombava do frentista: “Põe na conta do Abreu. Se ele não pagar, nem eu!”. Dito isso, ele arrancava e ia embora, regurgitando-se em gargalhadas. A manifestação debochada, do nosso Abreu, foi um ingrediente para que a balada ficasse ainda mais engraçada. No entanto, ele acabou sendo esquecido.


Dias depois, festa no Eucalipto. Como já era de praxe, o comportamento dos presentes era vexatório. No meio de toda a bagunça, ouve-se, novamente da cozinha – onde se concentram os bebuns –, aquela mesma gargalhada. Alguém diagnosticou: “É o Abreu!”. Dessa vez ele foi abordado, explorado, e, para a nossa alegria, reproduziu as piadas do motorista gozador da propaganda do Posto Ipiranga: “Deus lhe pague, porque eu to duro! Háááá há há!”. Dizem que o Abreu, pouco tempo depois, foi embora de Viçosa e deu um calote na república do Fumaça. Ele era de fato muito bobo. Na verdade, a gente gostava mesmo desse tipo de cara.


Isso que eu falei.

domingo, 14 de setembro de 2008

Saudades de um cara 3

A terceira edição do Saudades de um cara é bastante especial. Além da trajetória de vida de uma pessoa fantástica, traz dois recados: boa sorte na Europa e feliz aniversário, Muqueca. Saudades de você.

Há muito tempo atrás (muito tempo mesmo!), ele nasceu. Parecia ter como missão tornar a vida mais simples. Perambulou por aí até o dia em que topou com uma câmera. E o menino de nome estranho se transformou no fotógrafo Reyner Araújo. Dali para o sucesso foi um pulo. A cada clique na máquina fotográfica, engordava a conta bancária, substituía equipamentos e consolidava uma legião de fãs boquiabertos.

Já na faculdade conheceu jovens garotos — quase com idade para serem seus filhos. Isso não foi obstáculo para que se entendessem perfeitamente, compartilhassem pensamentos e fizessem parte da mesma turma por anos. Mas o tempo de parceria nem sempre foi contínuo, já que vez ou outra ele se afastava. Simplesmente sumia do mapa. Quanto aos outros, pacientemente esperavam-no e logo logo ele voltava, mais maluco do que nunca.

Maluco? Talvez. Provavelmente ele tem é uma forma particular de enxergar o mundo. A lente dos seus olhos vê tudo mais belo do que realmente pode ser. Esforça-se tanto para que a sociedade moderna seja menos cruel e mais humana que às vezes acredita que consegue. Por conta disso, seus relatos nem sempre são fiéis à história concreta, mas são carregados uma ternura incomparável.

Recebeu algumas alcunhas para suprir a tortuosa pronúncia do seu nome. Fez-se de Roger, Serginho e tantos outros, até quando foi carinhosamente elevado à categoria de Muqueca. E assim ficou. Simples e direto: o Muqueca, nosso Muquequinha...

É conhecido pelo porte pequeno, porém robusto — físico conseguido graças à natação na adolescência. E, paradoxos à parte, Muqueca conseguiu, por muito tempo, ostentar uma cabeleira esvoaçante mesmo sendo calvo. Particulariza-se por uma risada assaz espontânea, geralmente precedida por um trocadilho obsoleto proferido por ele mesmo.

Nunca concluiu o curso universitário. Havia outras prioridades. Numa dessas, juntou suas economias e nos deixou. Criou coragem e foi seguir a vida na Irlanda depois de, embora ele negue, uma curta temporada em Portugal. Mas voltará. Logo logo.

Pelo bom coração e atitudes benevolentes, vive dizendo que é incompreendido e que vai mudar seu jeito, ser mais mau. Vai nada, Muqueca... Personalidades não mudam assim. Ele sempre será um companheiro especial, disposto a ouvir quem precise e conversar, com as mais doces palavras amigas — quer elas contemplem a realidade ou não.

Isso que eu falei.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

Saudades de um cara 2

Parceiros são parceiros, para qualquer ocasião. Sempre dispostos a estender a mão quando requeridos, sem mensurar esforços. Assim, o brilho do sucesso de um reflete no outro. Algumas duplas fizeram histórias de companheirismo e marcaram época juntos, como He-Man e She-ha, Claudinho e Buchecha, Diego e Robinho e Issoqueeufalei e Blog do Cano.


Ao ser convocado a participar do projeto Saudades de um cara, o jornalista Matheus Espíndola não hesitou e, de cara, detalhou, brilhantemente, a trajetória de vida de outro grande camarada: .


Por Matheus Espíndola


A princípio, seria um cara genérico, como tantos outros. Moreno beirando o preto, óculos e cabelos crespos. Até aí nada demais. Mas eis que no momento da sua gênese, surge uma inovação em termos de formato humano. O criador enunciou: “Como uma estrela, evidenciar-lhe-ei os cinco membros. E será o homem-elástico. Seu crescimento nunca se findará”. Assim ele foi sintetizado, e ficou conhecido como Ré.


No dia em que um pé pisou o assoalho do Eucalipto e, dois metros e meio atrasado, chegou seu respectivo joelho sem pêlos, a multidão se perguntava: “Quem será esse viadinho que nos pede abrigo?” A resposta veio dirigida a uma donzela, desejosa de chamas para acender o seu cigarro. “Sou o Ré. E tenho fogo” — disparou, completando com uma cusparada de fumaça ao ar. Foi assim que tal sujeito começou a entrar para o seleto hall dos melhores caras do mundo.


Encontrou na inacreditável admiração por seu amigo de infância Didi o passaporte para se firmar na turma de COM 2004 e, por incrível que possa parecer, tornou-se um cara indispensável. Defensor árduo dos homossexuais, dos homofóbicos e dos ateus, Ré mostrou, por meio de argumentos firmes, ser sempre um cara muito convicto em suas posições.


No entanto, sua principal contribuição veio por meio da disseminação de uma arte na qual era mestre — batizada de “reginaldisse”, em sua homenagem. Tal dom consiste em fazer exatamente aquele comentário inconveniente. A sentença que não deve ser dita, em hipótese alguma, nesse determinado momento, justamente a essa pessoa. E essa foi sua consagração!


Vez por outra era visto sentado em sua cadeirinha de balanço, jogando dominó na sacada de seu apartamento distante, fumando. Às vezes, lá do alto, ele lançava seus braços elásticos, só para cutucar os amigos e dizer qualquer coisa com sua voz equalizada no grave. A frase sempre começava assim: “Hein, caaara...”


Detentor de braços ilimitados, Ré abraçou toda a turma, de uma só vez — e se quisesse, seria capaz de abraçar o mundo. Um companheiro de todas as horas, ou melhor, de “todos os dias”. Aliás, muito ele lamentou, em vão, por ser zoado pelos amigos “todos os dias”. Não havia mal em zoar. O problema é que isso acontecia “todos os dias.”. Agora fica a saudade, pois só temos esse amigo de vez em quando. E como queríamos que ainda fosse “todos os dias”...!


Isso que eu falei.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Saudades de um cara

Inauguro agora esta seção que é mais um antigo sonho utópico a se tornar realidade. Saudades de um cara é um projeto que, desde a derradeira separação entre meu passado e presente profissional, penso em colocar em prática.


Aqui recordarei minhas impressões sobre grandes ícones do meu passado recente. O que vivemos, o que mais marcou. Desde célebres semi-desconhecidos a grandes parceiros. Serão mini-biografias, que, espero, suscitem lembranças nas mentes e corações de muitos. Sintam-se à vontade para complementá-las. Para começar, o maior símbolo de toda uma geração: Paulo Dimas de Oliveira.



— Paulo Dimas...?

— de Oliveira!


A apresentação não deixa dúvidas: ele quer dialogar. Fala fácil, vocábulos eruditos e tom de voz seguro e ao mesmo tempo maleável. Esse é Paulo Dimas de Oliveira, ilustre cidadão viçosense, aventureiro das madrugadas. O sorriso é tão largo e espontâneo que a ausência da arcada dentária superior esquerda quase passa batida. Quando consegue articular um raciocínio, Paulo Dimas é uma figura de excelente troca de idéias. Mesmo quando suas respostas não têm, absolutamente, qualquer relação com as perguntas que lhe são oferecidas.


Amante da música, vive cantarolando sucessos de décadas passadas. Ganhou, assim, a alcunha de Paulo Ricardo. “Mas Paulo Ricardo é um homem alto”, observa, a contragosto. As letras das canções não seguem a rigidez de quando foram escritas e um verso ou outro é suprimido em prol de uma cadência mais intensa. Paulo aprecia o rock brasileiro e a MPB. É mesmo um rapaz latino-americano. Só não tem uma música preferida, tem “várias”.


Por onde passa, encanta a todos com sua doçura e inocência. “Me dá cinqüenta centavos?” “Para quê, Paulo?” “Para comprar cachaça”. “Não tenho...” “Ummmm. E um real?” Às vezes, bem de vez em quando, é tomado por um súbito desejo incontrolável de se apossar da bebida alheia. Mas o que ele não aceita mesmo é o desperdício: se um restinho de líquido sobrou e está dando sopa, chama o Paulo que ele o liquida.


Paulo Dimas de Oliveira tem uma história de vida interessante. Estudou Química, Medicina, várias ciências. Jogou muita bola pros lados do Novo Silvestre – de médio-volante, camisa cinco. Construiu obras, desde que os materiais chegassem, claro. Quando não, aguardava-os com um rolé pela Universidade, de bobeira, esperando-os pacientemente.


A maior paixão de Paulo Ricardo chama-se Crube Atrético Mineiro. Mas o Galo divide o coração de Paulo Dimas com o Framengo, o São Paulo e o Grêmio – um amor em cada canto do país. Fora do Brasil, Paulo gosta só da Roma.


Paulo Ricardo é mais entre tantos cidadãos mineiros, católicos, que saem às noites à procura de um pouco de diversão. Mas ele é um pouco mais que isso: é uma prova de que a felicidade pode ser encontrada nas coisas simples da vida. Vida que ele segue, sendo expulso de um boteco aqui, fazendo amigos que amanhã não vai recordar o nome ali ou só entoando uma doce serenata pelas calçadas para quem quiser parar e contemplar. Ensinando a viver.


Isso que eu falei.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Amizade

E já que o assunto do momento é amizade, aqui vai um vídeo relacionado.

Essa é a história do Christian:



Isso que eu falei.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Os melhores caras do mundo

Capítulo 1 A porta


O dia amanheceu esplendoroso. Sol forte, borboletas, passarinhos cantando e brincando, aproveitando a intensidade do verão. Tudo nos conformes, dia cheio de vida. Logo cedo, o pequeno anjinho andava pelos corredores do Casarão, distraído fazendo bolas de chiclete. O piso frio refrescava seus pés descalços. Até que viu a enorme porta da sala do Chefe entreaberta. Decidiu espionar. Ele estava de costas para a entrada, trabalhando concentrado e tinha sobre a grande mesa uma pilha de papéis, alguns já riscados. Parecia mais pensativo que o normal. Pensava em voz alta: “Essas vão. Esse fica. Talvez com esse eu feche um grupo. Esses eu decido depois...” O anjinho permaneceu por alguns minutos atrás da fresta, observando, sem entender muito bem o que se passava.


Mais riscos em papéis, alguns com canetas de cores diferentes. Outros pensamentos em voz alta, uma consulta nos arquivos. O pequeno curioso, do lado de fora, não arredava o pé. Sem olhar para trás ou se mover e sem tirar os óculos dos olhos e os olhos das anotações, o Chefe indagou, para surpresa do anjo:


— Filho, queres me acompanhar por hoje? Acho que vais gostar.


A voz forte e segura retumbava pelo cômodo e parecia ao mesmo tempo suave, agradável e muito segura. O anjinho olhou timidamente para o lado e não notou mais ninguém. Pensou em questionar se era ele o convidado, mas a voz não saiu. De tão trêmula, falhou. Abriu a porta devagarzinho e foi entrando, pé ante pé. Nunca pensara que conheceria os aposentos oficiais do Todo-Poderoso. Eram maiores do que ele pensava.


“De certo estás curioso com o que faço, não?!”, perguntou, como se não soubesse a resposta. “Pois bem, estou montando uma turma. E isso dá trabalho, meu pequeno”, prosseguiu, não sem antes afagá-lo com um cafuné, tentando dar sumiço à timidez. “Algumas mais, outras menos. Mas essa será especial. Tudo tem que ser muito bem pensado”. Os olhinhos do anjo se arregalaram e uma sobrancelha se levantou; estava espantado com a quantidade de papéis sobre a imensa mesa de vidro transparente.


“É uma classe. Só posso escolher 40. Preciso cuidar para que seja contemplada com todos os dons do Bem”, disse o Comandante, tentando ser didático. A equação deveria ser perfeita, não faltar nem sobrar virtude alguma. Deveriam se completar. Não importa de quão longe viessem, o que já tivessem passado na vida, o que pretendiam ou quanto tempo permaneceriam na Terra Escolhida. O equilíbrio tinha que ser perfeito.



Capítulo 2 O forno


“Trarei gente de onde for necessário. Até de Terra Roxa”, começou a detalhar. “Serão jornalistas. E uma turma dessa precisa de uma poeta-escritora. Já reservei a Priscilla”. Carecia também de bom som — música para embalar a fantástica equipe que lentamente se formava. Reuniria no mesmo universo o flautista Ferro, o multiinstumentista Maicou e a cantora Sandy. Aproveitando a olhada por terras fluminenses, o Todo-Poderoso traria, mesmo que por pouco tempo, a Gilka para o time. Complementando as harmônicas melodias, Aline transferiria sua faculdade e seu suingue para perto do grupo. Camila Morgado seria a personificação da animação.


A sintonia começava a se aperfeiçoar. Simetria celestial. O anjinho entendera o espírito da coisa. Fernandôncio passaria uma temporada entre eles e, para que a média de altura não ficasse muito irreal, Janaína também. O cérebro da turma estaria na cabeça do Sininho. Haveria um dentre eles que marcaria sua passagem sem dizer ao menos uma única palavra. Essa missão coube ao Erick. O dom da responsabilidade seria confiado à Viviane. Ao Randy, caberia a elegância.


Mas tudo parecia muito normal. Foi aí que o Blau-Blau entrou na história. Ao ouvir essa explicação, o pequeno ser celestial não se conteve e soltou uma gostosa risadinha de canto de boca. O Silvião seria a formalidade em pessoa e o Lilli, o bom moço, cuidaria para que o ritmo não se acelerasse demais. Fofo! Todo bom grupo precisa de alguém para defendê-lo: Tatá. A Vivian seria a responsável por não deixar que a chama da revolução pelas causas sociais se apagasse. Jael, a alma franca.


A graciosidade seria confiada aos pés bailarinos e gestos suaves da Bia. À Luiza, o charme da pronúncia feminina perfeita dos palavrões. Com o coração puro do Douglão era certeza que ele nunca seria esquecido, mesmo depois de seguir por outros rumos. Dayana seria a recatada. Já a Biba, um tanto desajuizada. A missão da Aninha seria explanar aos quatro cantos do mundo como o amor é um dom especial.


— Desculpa, mas... Não falta mais alegria, meu Pai? — questionou o menino dos cabelos cacheados.


O Senhor de longas barbas e túnicas brancas fitou o pequenino nos exíguos olhos negros e pensou um pouco. “Já sei!”, exclamou, assustando o anjinho, que acabou engolindo o chiclete que mascava. “Vitão é o que eu preciso!”. O Mestre ficou orgulhoso por ver que o time que se fechava. No novo embalo, acrescentou à lista dos escolhidos a beleza simples da Bebinha. “Bebinha? Que apelido estranho...”, pensou antes. A pureza da Laane veio em seguida. Kamilão compartilharia seu próprio mundo com os outros felizardos. O Todo-Poderoso parou por um instante. Sentiu um pesar ao anotar os nomes de Natália Carvalho e Felipe Fontes, já pensando na triste despedida. Suspirou e seguiu em frente.


O Cano teria o dom de brincar com as palavras e Muqueca o de pronunciá-las, docemente, nas horas certas. À Hérica, o estilo e o poder de mulher. Com o Fenômeno, a prova de que amizades fenomenais não conheceriam distâncias.


Aquela turma era tão especial que receberia uma bênção rara: assistir de camarote ao nascimento de uma nova vida. Ponto pra Camila Pena e pro Rodrigo. A Monique seria o abraço certo de todas as horas. A Priscilinha, a prova de que diversão e sensatez podem caminhar de mãos dadas.


— E aquela loirinha? — quis saber o mini-intrometido, apontado para a Kelly.


“A Kelly?!”, questionou o Todo-Poderoso, ainda decidindo se zombava ou não do interesse do pupilo. Resolveu deixar passar. “Bom... A Kelly será a guia e motorista dessa tropa toda”, respondeu, rindo. E sem causar muito estardalhaço, Cléverson seria o grande líder do grupo. Quase prefeito. Por fim, o Ulisses seria o cara escolhido para, alguns anos depois, descrever toda essa cena. Assim a primeira geração saía do forno, pronta para se conhecer, se amar e desvendar os mistérios de um mundo novo chamado Universidade Federal de Viçosa.



Capítulo 3 A perfeição


O anjinho ficara maravilhado com tanta atenção, tanto cuidado. Constatou que não tinha mesmo como dar errado. Foi aí que, mais uma vez, foi surpreendido. Com uma doce malícia no tom de voz, o Mestre profetizou: “Essa é primeira versão. O melhor de tudo eu guardei para depois que se conhecerem. Quando acharem que são um grupo completo, encontrarão a pureza do Jeremias”. E não parava por aí. Rafael traria o dom do empreendedorismo. Táubata, a risada mais fantástica da Terra. A turma se depararia com um jovem que teria como função simplesmente ser gente-boa, de graça e com todo mundo. Esse seria o Saulo Rios. Para completar de vez, conheceriam os devaneios do Piscina, o carinho da Pedritta e o intelecto do Locutor. Enfim, fechamento com chaves de ouro.


O Mestre riscou o último papel, carimbou-o e pôs na pasta dos trabalhos concluídos. Afagou mais uma vez os cachinhos da criança e saiu da sala, assobiando uma música alegre. O anjinho permaneceu. Sentou no chão e ficou olhando para os papéis. Naquela manhã ele entendeu que fazer um curso superior, ser jornalista ou estudar na UFV são escolhas. Depende de estudo, talvez sorte. Mas para ser de COM 2004 era preciso um pouco mais. Era preciso ser eleito por Deus. Levantou e saiu correndo atrás do Pai. Viu-o já saindo do Casarão, no fim do extenso corredor e, de longe, gritou:


— Não é muito trabalho para reunir pessoas só por quatro anos?


O Senhor parou; lentamente olhou para trás. Sorriu agradavelmente.


— Quatro anos...? Esses eu reúno pro resto da vida.



Isso que eu falei.

domingo, 10 de agosto de 2008

Que Mario?

Nunca escrevi uma crítica de filme. Nem pretendo tão cedo. O que se segue é uma exteriorização de pensamentos recheada de elogios, sugestões e saudades de tempos bons.

Essa semana me propus a uma inusitada atividade de distração: assistir ao clássico Super Mario Bros – O Filme. Na verdade, até então eu nem sabia que ele existia. Encontrei na internet e resolvi dar uma olhada.

O Mario sempre foi um cara que eu admirei. Até hoje me pego – com relativa freqüência – cantarolando a musiquinha da primeira fase do Super Mario World, o melhor jogo de todos os tempos (tirando os de futebol). Eu sou fã de heróis “normais”. Sempre gostei do Batman porque ele não tem superpoderes, mas o Mario não tem nada mesmo, ele é um encanador! Tá, uma pena aqui, uma flor ali e um cogumelo lá quebram o galho, mas ainda assim é tudo na raça.

Lembro de quando ganhei meu Super Nintendo e, enquanto todo mundo tinha o fantástico Super Mario World, eu tinha um jogo horroroso de futebol, muito do sem graça. Passaram-se meses (talvez anos) até que eu tivesse o meu próprio Super Mario World e pudesse montar no meu próprio Yoshi, matar as minhas próprias tartarugas e salvar minha própria princesa.

Tudo isso veio à tona enquanto eu assistia ao filme. E de tudo que de alguma forma me incomodou, o principal foi ver o Luigi sem bigodes. Luigi sem bigodes é pior que Homem-Aranha sem teia, Batman sem máscara, Superhomem sem cueca vermelha ou Buchecha sem Claudinho. Além de ele ser um molecote, não sabe consertar os vazamentos dos canos e fica chamando o Mario para resolver o problema. Muito inútil.

O Koopa é um ser humano. Eu entendo que àquela época – no longínquo 1993 – não deveria ser tão fácil “filmar” um dinossaurão falando, mas acho que não colou muito. O Yoshi, coitado, é um filhote de tiranossauro Rex, muito feio e nem é verde. O Mario e o Luigi não usam macacões nem boinas e a princesa não tem a beleza e o charme que a do videogame tinha. O Mario é careca! Me lembrou mais o Senhor Wilson, amigo do Denis, o Pimentinha, do que meu herói da infância, símbolo do poderio da Nintendo.

Fiz uma rápida pesquisa na internet e, pelo que eu encontrei, ninguém gostou do filme. Ninguém mesmo. Só críticas, não muito brandas. Mas valeu a idéia. Clássicos são sempre clássicos. Voltei no tempo por alguns instantes.

Sinopse transcrita da caixa do VHS: A descoberta de um universo paralelo vai colocar você dentro de uma incrível aventura! Conheça Mario e Luigi, dois encanadores muito loucos que enfrentam uma corajosa missão, salvar a princesa Daisy em “Dinohatan” – um curioso mundo perdido onde os habitantes descendem de dinossauros. Mas para salvá-la, Mario e Luigi terá que enfrentar o diabólico Koopa, descendente do tiranossauro Rex, que já dominou o planeta de Daisy e tem terríveis planos para conquistar a Terra. Inspirado no superpopular videogame Super Mario Bros., com fantásticos efeitos especiais que agora você vai assistir quantas vezes quiser.

Diálogo do filme:
- “Nome?”
- “Mario.”
- “Sobrenome.”
- “Mario.”
- “E você, como se chama?”
- “Luigi.”
- “Luigi Luigi?”
- “Não. Luigi Mario.”
- “Está bem, está bem. Quantos Marios tem aqui?”
- “Bom, tem três: Mario Mario e Luigi Mario.”

Isso que eu falei.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

Por Ulisses Vasconcellos

Recentemente me firmei como repórter policial da Tribuna do Cricaré. Além de acompanhar a série de crimes de todos os tipos – assassinatos, seqüestros, encontro de corpos e prisões –, tenho produzido diversas reportagens sobre a situação da cadeia pública da cidade.


É assombroso. Um amontoado de gente em cubículos imundos. Um preso com hanseníase e outros com tuberculose, todos respirando o mesmo (pouco) ar. “O inferno”, como me disse um dos detentos. E nessa oportunidade eu tive a primeira chance de escrever uma coisa minha mesmo para publicar no jornal. Sem preocupação com lead, sublead, pirâmide invertida... Saiu na TC do último sábado, 2 de agosto.


Cheiro forte, calor e escuridão


O cheiro forte impressiona. Vem do chão, do pátio, do teto, das paredes. Da água que desce nas paredes. O odor é misto de lixo, mofo, restos de comida, pombos e gente aglomerada, quase um sobre o outro. Fora o calor, num lugar em que o ar até entra, mas não sai. Projetado para seis, abriga 20. Essa realidade tão longe das pessoas está no Centro de São Mateus, nas celas da cadeia pública.


Segundo os detentos, o pátio nunca é varrido. A quantidade de lixo comprova. A de ‘um pé’ de sandália também. Os restos de almoço – algumas vezes o prato todo – fazem a alegria dos pombinhos. Os ‘rastros’ deles estão por toda parte. Esses mesmos pombos passeiam pela caixa-d’água. Há histórias de presos que acharam pedaços das aves na água que tomavam banho e outros que teriam usado os bichinhos para matar a fome.


A luz não entra direito. Como o ar não circula, a sensação de abafamento parece constante. E a água acaba com certa freqüência. Depois do banho, vêm as coceiras. O cara do lado tosse o tempo todo.


Tudo tem a mesma cor de nada, de vazio. A água parada no chão do pátio tem cor de suja. Por lá estão os pombinhos, a bebendo inocentemente. Os sacos de lixo empilhados são o restaurante das baratas. Os presos garantem que a comida é tão ruim, que às vezes é humanamente impossível mandar pra dentro. Humanidade não é muito o que se vê por ali...


“A única alegria do preso é a segunda-feira”, revela um deles. O motivo é a visita da mamãe, a mulher, os filhos. Mas, para não fugir à regra, uma hora da visita se passa com o contato via grade. O discurso é o mesmo em todas as celas: “Erramos, vamos cumprir nossa pena. Mas só queríamos ser tratados como seres-humanos. A gente não é bicho”. A sensação que fica na cabeça de quem adentra – para visitar ou conhecer – os domínios do temeroso Cadeião é de que tem alguma coisa errada. Quem comete um crime, tem, necessariamente, que ser vítima de outro?


Isso que eu falei.