quarta-feira, 7 de março de 2012

O homem e os ratos

Eu sempre gostei de animais. Sempre mesmo, desde que me entendo por gente. Até cogitei cursar Veterinária, mas desisti logo quando me toquei que me dava muito melhor com o Português do que com a Biologia. E sempre gostei de ter animais. Lembro-me com detalhes de como foram meus primeiros encontros com os cachorros que tive: o Rex, o Ringo, a Paquita e o Nick – os dois últimos meus mesmo, não da minha família.

As adversidades sociais modernas me impedem de ter outro cão. Morar em apartamento e não saber onde vou estar num prazo médio são fatores cruciais aqui. Já há alguns anos, então, contorno a situação criando roedores. Viajo nos ratinhos, me faz bem observá-los.

Eu sempre gostei de dormir. Sempre mesmo, desde que me entendo por gente. Era o último a levantar e o campeão de horas seguidas de sono. Até hoje, aos finais de semana, dependendo da madrugada anterior, só vejo a luz do sol na tarde seguinte quando ela quase não existe mais.

Nunca fui de sonhar muito. Pelo menos, não que eu me lembre. Nem de ter sonhos proféticos ou esquisitos. Mas algo tem me chamado a atenção: de um tempo pra cá tenho sonhado, costumeiramente, com, vejam só, roedores!

Talvez seja porque os bichinhos estão na minha vida não é de hoje. O primeiro foi o Rock, quando eu estava na sexta série. Comprei o hamster – desses comuns, amarelinho – numa loja em frente à escola e o levei pra casa numa caixa de papel, sem me preocupar que ele precisaria de um lugar para morar. O jeito foi descolar um caixote. Só que o Rock aprendeu a escalar a madeira e fugir. E eu o procurava pela casa meio desesperado, até que descobri onde era o esconderijo do bicho: embaixo da geladeira. Então, eu guardava o rato outra vez no caixote, ele fugia daí a pouco e eu o pegava embaixo da geladeira. Sucessivamente. Uma hora saí com a minha família e, quando voltamos, ele não estava nem na caixa e nem na cozinha. Fui encontrá-lo no outro dia embaixo do pneu de um carro em frente à minha casa, todo amassado e rodeado por insetos. E eu morava no segundo andar! Triste cena. Pelos meus cálculos, ele foi meu por dois dias. Deixou algumas lembranças, como quando urinou na minha mão e minha mãe ficou gritando que xixi de rato passava doença.

A segunda da lista foi a Maria, uma gerbil (ou esquilo da Mongólia). Eu nem imaginava que existisse essa espécie, até que, já durante a faculdade, entrei em uma loja de pets e a vi. Resultado: comprei-a, em parceria com meus companheiros de república, e ela virou mascote da casa e xodó da turma. Certa vez, conheci um cara que criava gerbils (imagino que seja esse o plural) e ele me ofereceu uma ratinha filhote para fazer companhia à Maria. Aceitei. Mas antes que a roedorazinha conhecesse sua futura amiga, a Maria se foi. Morreu quando uma escada, dessas móveis, caiu sobre ela, na noite de Natal. Acredito que tenha sido a vez que eu mais chorei na vida. Às lágrimas, velei a pobre em uma caixinha de pasta de dente e a enterrei num canteiro na garagem do prédio. Com uma cruz por cima.


Entrei em contato com o rapaz que me daria a outra esquila e contei do falecimento. Ele me ofereceu então duas roedoras. E, assim, entravam na minha vida a Lisa e a Maggie. Com nomes inspirados nas filhas de Homer Simpson, elas tornaram-se as novas mascotes da república e estiveram comigo até que eu me formasse. Depois, me mudei para longe e elas foram herdadas pela minha família. As duas irmãs se foram – dessa vez, de forma natural, sem desgraças. A Lisa morreu primeiro e a Maggie, já velhinha e debilitada, foi ao céu dos esquilos encontrar-se com a irmã.



Vieram alguns anos sem bichos. Mas não me desfiz da estrutura de criação, principalmente do aquário onde os roedores moravam. Até que recebi um presente: Zé e Superman – dois hamsters chineses assim batizados pelo meu priminho, então com cinco anos e dono dos pais dos ratinhos. A verdade é que eu nunca soube quem era quem porque eles eram absolutamente iguais. Um deles já passou dessa para melhor, mas o outro, que convencionei ser o Zé, está esbanjando saúde, cochilando durante o dia e correndo na rodinha à noite.

Talvez pela variedade de espécies e personalidades dos roedores com quem convivi, meu cérebro insista em me fazer sonhar com os bichos. Só que não são sonhos bons. O roteiro é mais ou menos o mesmo: eu perco o ratinho, como acontecia com o Rock, e, tenso, custo a localizá-lo. Aí percebo que não tenho só um roedor, mas muitos! São gaiolas e aquários, de todas as formas e tamanhos, completamente cheios. Nessa hora me sinto muito mal porque não consigo me lembrar desde quando tenho tantos animais e nem há quanto tempo não os alimento. E ainda me aflige a ideia de que há machos e fêmeas juntos e que, em questão de instantes, eles se reproduzirão incessantemente e a casa será tomada por roedores. Então, me aparece, de supetão, o Cazuza, todo despenteado e bebasso, cantando alto no meu ouvido “a tua piscina tá cheia de ratos, tuas ideias não correspondem aos fatos”. Tá, essa parte é mentira. Só escrevi pra eu ver como poderia ser pior.

Vez por outra ainda acontecem coisas inexplicáveis, como quando, em um dos sonhos, eu criava ratos em um aquário, só que com água. E eles viviam de boa, nadando como se tudo estivesse nos padrões da Mãe Natureza. E no último sonho que tive, em uma das gaiolas próxima às dos roedores, eu criava pedaços de torresmo fritos.

O mais interessante dos sonhos são as gaiolas que descubro que tenho. Costumam ser grandes, com vários andares, rampas e túneis. Coisas de outro mundo. Certa vez, uma tinha três andares, estrutura de vidro envolta por madeira nas laterais e um sistema sensacional de iluminação interna. Tá aí, acho que eu deveria ser contratado por designers de gaiolas e me deixarem dormindo, até eu ter um sonho desses e descrever as residências que vejo para que eles as criem no mundo real. Estou sendo desperdiçado.

5 comentários:

Fabi disse...

Cachorros, patos, pintinhos, porquinho da índia... lembrei dos animais que tive e perdi, deu um misto de nostalgia e angústia. Independente dos sentimentos que foram despertados, belíssimo texto, como sempre!

Cláudia disse...

Seu texto me fez viajar no tempo. A hamster Cacau, que ganhei de um amigo de infância. Minha mãe, a princípio, aceitou bem a nova moradora de nossa casa. Porém, um dia, a Cacau fugiu da gaiolinha. Temperamental, afinal fêmeas, sejam elas ratinhas ou mulheres, costumam ser um tanto... temperamentais... Cacau mordeu a mão da minha mãe, depois a minha mão. Foi embora, levada de volta à casa do meu amigo. Devolveram a Cacau! Hoje, prefiro não ter animais de estimação. Também moro em apartamento, meus horários são meio malucos. Mas, aos pouquinhos, penso em ter um cachorrinho. Quem sabe?
Adoro seus textos, mais uma vez: parabéns!

Blog do Cano disse...

Hahaha! Cara, eu gargalhei de verdade no momento dos torresmos fritos!!! Belíssima psicanálise!

Luiza Campos disse...

Lembrei instantaneamente de um poema do Manuel Bandeira, que li quando tinha uns 8 anos:

"Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas . . .


— O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada."

beijos brother!

Rafael Vasconcellos disse...

Ow, c esqueceu q seu primeiro animal não foi o Rex. Foi uma galinha q a Tia Jacinta te deu, lembra?