segunda-feira, 12 de junho de 2017

Conta


No caminho, feito a passos lentos e conversa boa, uma fábrica cinza e feia destoava da paisagem e uma fumaça escura escapava e sujava um pedaço do céu sem nuvens. Pausa.

- Eu já te contei que aqui era uma escola? Minha primeira escola. Tinha um pátio grande, com azulejos vermelhos, e daquele lado, lá no fundo, ficava um parquinho, velho. Aprendi muita coisa nesse lugar, viu? Ah, que tempo! Fui muito feliz aqui dentro. Muitos anos. Meus primeiros amigos todos são dessa época. 

- É?

- Eu já te contei que eu tinha uma colega, vou te confessar, que era a coisa mais linda? Meu coração quase pulava pela boca quando ela chegava perto, eu tremia todo por dentro. Que menina linda, diferente de todas! 

- Umm.

- Já te falei do sorrisão dela? Do tamanho do mundo. E um jeitinho de falar, tão doce. Quando ela chegava perto de mim, aquele cabelão com as pontinhas claras amarrado num rabo-de-cavalo, parecia que o tempo parava. Falava muito, sobre tudo, parecia que já conhecia o mundo.

- Sei como é.

- Te contei que foi com ela meu primeiro beijo? Foi, depois de um ensaio de quadrilha. Perto daquele portão marrom tinha um chafariz, foi atrás dele. Que dia, meu amigo! Eu me lembro até hoje do barulhinho da água, que nem cachoeira, do nosso lado.

- Massa.

- Já te falei que ela foi minha namorada? A primeira. Eu tinha certeza que seria a única. Jurava. Tem muito tempo, mas foi uma época legal, a gente se dava super bem. De andar à toa, de mãos dadas na volta pra casa sem pressa, as festinhas, na biblioteca. Minha amigona mesmo. Ela viajava de férias pra praia e trazia umas conchinhas pra mim, essas coisas. Eu me lembro até de um banquinho branco, meio descascado, onde a gente se sentava pra conversar quando a gente brigava. A carinha dela de brava. Mas era coisa de dois minutos e tava tudo bem de novo, você tinha que ver!

- É.

- Eu já te falei o tanto que eu gostei dessa menina? Era muito! Doido isso, né? A gente era tão novo. E tanto tempo depois eu tô aqui falando disso, em frente a uma fábrica. A vida passou, depois cada um seguiu seu rumo, perdemos contato. Nunca mais tive notícias. Eu conheci muita gente, me casei, fiz família, fui feliz. Mas tá aí: já te contei que foi com aquela mulher que eu descobri o que é gostar de alguém de verdade?

- Já contou sim, vô. Aliás, conta sempre que a gente passa por aqui.

Um suspiro longo, um sorriso simpático entre bochechas rosas cheias de marcas e dois olhos que olhavam uma coisa, mas viam outra. Fixos em outro tempo.

- É, eu sei. Gosto dessa história.

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