terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Missão Zona da Mata concluída


Na noite do hoje longínquo 10 de abril de 2010, tomei um ônibus rumo a Teófilo Otoni, onde eu prestaria um concurso no dia seguinte. Os 600 km de estrada me separavam da prova para ingressar no Banco do Nordeste do Brasil, que, na real, eu tinha descoberto que existia dias antes quando achei aquele edital na internet e resolvi tentar a sorte. Entre as opções de cidade de prova, Teófilo Otoni era a mais perto de Juiz de Fora.

Quando desembarquei pela manhã, de cara fui conhecer a praça que eu soube ser habitada por bichos-preguiça. Não sosseguei enquanto não vi os bichinhos. Ainda tirei onda com um pessoal que conheci lá por eu saber que os pelos das preguiças nascem em sentido inverso ao de todos os outros mamíferos – informação que eu tinha recebido dias antes em alguma reportagem ou documentário qualquer. O pessoal era um pequeno grupo de concurseiros, de uns três homens e duas meninas, vindos de vários lugares. Os caras ainda tomaram umas cervejas depois do almoço e antes da prova, creio que só para fazer graça. Nunca soube como eles se saíram.


Ainda na praça, me lembro de ter sentido uma dor de cabeça terrível. Estranhei, já que estava acostumado a viajar longas distâncias de ônibus e nunca fui de sentir esses efeitos colaterais. Procurei por uma farmácia no centro, mas não tinha nenhuma aberta na tarde de domingo. Fui para a prova assim mesmo e me virei como deu. Depois, já em casa, soube que meu irmão teve a mesma dor na mesma hora que eu e matei a charada: tínhamos tomado uma tal vacina para gripe antes de eu viajar e um dos possíveis efeitos era a dor de cabeça.

O resultado demorou uma eternidade para sair. Mas valeu a pena esperar, eu passei. E desde então eu tenho esperado a convocação, com o nível de esperança de ser chamado variando de alto a baixo de tempos em tempos. De uns meses pra cá, tinha voltado a estudar em busca de uma oportunidade de trabalhar outra vez com o que eu me formei e tocar a vida pra frente. Tanto que tive que deixar minhas experiências literárias de lado e o blog ficou meio paradão. Até que no finzinho de dezembro, mais de dois anos e meio depois da prova, um telegrama mudou a minha vida. Na próxima semana, tomo posse no Banco do Nordeste como comunicador social.

Estou indo morar em Montes Claros, onde eu nunca estive, mas tenho a impressão de que vou me dar bem. É como se eu tivesse um tabuleiro de War e na mão uma carta escrita “sua missão é conquistar a Zona da Mata e o Norte de Minas”. A primeira parte, depois de anos de Juiz de Fora e Viçosa, está concluída.

Aos amigos que torceram por mim e estão comemorando comigo, meu muito obrigado. A quem ainda estuda para tentar um cargo público, garanto que se você continuar praticando, você vai conseguir. E então você vai ficar melhor e melhor. E essas nem são palavras minhas, são de um pequeno jovem imediatamente depois de conquistar uma das maiores vitórias da vida.





A gente se vê no Norte.

domingo, 16 de dezembro de 2012

Conto de amor e loucura


Eles se amavam. Viviam um para o outro, eram uma coisa só. Ela era louca por ele.

Passaram bons e maus momentos juntos. Perrengues. Ela sofreu por ele em outras épocas. Até que passou. A situação melhorou.

Então ela pediu a ele uma prova de amor.

E ele deu a ela o mundo.

Ele, Corinthians. Ela, Fiel.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O fim do mundo


Beirava as oito da manhã. O Sol quente castigava as costas desprotegidas. Poderia ser a hora ideal para um meteoro perdido acertar em cheio a Terra e acabar com essa humanidade vazia sem deixar qualquer vestígio. Mas não foi assim. Era início de um sábado e um cara com nome de legume (ou fruta, nunca fui bom de biologia) fazia do microfone um maçarico para incendiar os guerreiros que teimavam em desafiar o próprio corpo rumo ao infinito do prazer carnal do contato dos lábios regado a álcool e dança.

A equipe se concentrava o mais próximo possível de um megacarro, com som invejavelmente potente. O artista, lá no alto, defendia que não iria embora nunca mais. Nem ele, nem ninguém. Ao longe, do campo de visão próximo da fonte inesgotável das bebidas – uma imensidão contínua de barracas open bar – se via bem o tal Tomate, além de gente, gente, gente (gente boa!) e uma chuva contínua de bebidas alcoólicas lançadas dos copos ao alto, que imediatamente se precipitava sobre as cabeças daqueles foliões escolhidos pelos deuses para estar juntos em um possível e iminente fim do mundo.

Diziam por aí que não seria possível vencer toda a maratona da programação com o corpo limpo de substâncias alucinógenas estranhas a ele. É que as violas das primeiras apresentações irradiaram muita energia positiva. Catalisada, essa força se transformou em molas propulsoras nas pernas dos guerreiros. Ela foi convertida em saltos nos ritmos das mais diversas coreografias de axé. Juntos, estavam amigos que vieram de todos os lados. De Minas Gerais e da região. E a galera de São Paulo chegou mais então. Distrito Federal compareceu. E o cerrado foi o sertão da Brasil e de repente se viu transformar na Bahia.

Nesse tempo, o meteoro a caminho (que nem de perto era da paixão, como diria o amigo Luan) cruzava as galáxias e se aproximava da Terra em velocidade recorde, para estourar de vez esse planetinha. Só que tinha muita gente do bem junta. E outra festa inteira pra acontecer no dia seguinte, que se tornaria ainda mais inesquecível para toda aquela recém-formada equipe de sucesso. Por isso, os deuses, de última hora, decidiram por um desvio mínimo na rota do meteoro e ele se chocou contra uma constelação qualquer, fazendo um monte de estrelas virarem farinha.

A festa continuou. A vida continuou. No hotel, na piscina, no Caldas Country Show. Para falar a verdade, se o mundo tivesse acabado naquela manhã quente de sábado, os paladinos de chapéu se dariam por satisfeitos. É sempre bom terminar no auge.





Escrito às 12h17 de um sábado alucinante, ainda sem dormir e sob forte efeito de álcool. Um relato sobre a lembrança viva de uma cena inesquecível de chuva de bebidas, que eu contemplava sozinho enquanto pedia mais um copo de vodca durante o eletrizante show do Tomate no trio elétrico (depois das apresentações de Israel e Rodolfo, Luan Santana, Chitãozinho e Xororó, Fernando e Sorocaba e Gusttavo Lima no palco principal).


17 de novembro de 2012 – Caldas Novas – Goiás

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

O palhaço


Eu devia ter uns seis anos. O circo chegou à cidade e foi montado perto da minha casa. Eu fui às sessões todos os dias. Se pudesse, teria ido mais de uma vez por dia. Tudo me encantava: o mágico, os trapezistas, o globo das motos. E, depois de conhecer e me fascinar por um universo completamente novo, decidi: pela primeira vez na vida, respondi, com firmeza, a quem me perguntava o que eu queria ser quando crescesse: queria ser palhaço.

Não poderia existir profissão melhor: viver às gargalhadas, rodeado de bichos diferentes, viajar sempre e ainda assistir ao espetáculo todas as noites. Os adultos riam da ingenuidade da minha convicção, nem imaginavam a seriedade da coisa. Mas eu havia definido, seria palhaço! Quando o circo se foi, ainda mantive a decisão por um tempo. Só que o sonho do picadeiro foi aos poucos sendo deixado de lado, à medida que eu crescia e percebia que a carreira não era tão viável como eu pensava ser.

Depois, vieram as outras ideias pro futuro, mais racionais. A veterinária não daria certo, fatalmente passaria pela biologia e eu me perderia por ali. O mundo da informática me interessava, mas traria de brinde minhas eternas piores inimigas: a física e a matemática. Com a química eu até me dava bem, mas não ao ponto de fazer disso meu ganha-pão.

Gostava mesmo das palavras. E, assim, meio de paraquedas, caí no universo do jornalismo. É, mas as forças do destino – e do mercado – trataram de me afastar de lá, pelo menos por um tempo.

Eu, o cara das letras, então me vi imerso em um mundo de números e cifras. Quando mais novo, pensei em tantas carreiras para mim e acabei por não seguir nenhuma delas. Pensei em todas de novo numa terça-feira dessas de manhã enquanto abotoava a camisa social e calçava os sapatos pra ir trabalhar. Poderiam ser aqueles sapatos de palhaço.

sábado, 29 de setembro de 2012

Carta santa aberta à humanidade


Filhos e filhas,

Que o Pai esteja convosco.

A situação em que me encontro chegou a um ponto em que não posso mais me omitir. Sinto-me obrigado a falar diretamente convosco, filhos e filhas, e o meio que penso ser mais eficiente é me manifestar por escrito, dirigindo-me a todos indiscriminadamente. Escrevo para milhões de interlocutores, faz-se necessário. E confesso estar constrangido. Oprimido, acuado.

De antemão, revelo que preferiria não ter que fazer isso. Afirmo ter total ciência de que nossa cordial relação pode ser afetada, arranhada, mas não tenho escolhas. É isso ou ver as coisas piorarem. A decisão foi dolorosamente bem pensada.

Acontece que as recentes variações tão bruscas de temperatura são efeitos de massas de ar, de densidades diferentes, associadas a mudanças nos níveis de umidade, que resultam na instabilidade do clima. E tem muito mais coisa envolvida nesse esquenta e esfria que nem eu entendo, não sou meteorologista. Eu mesmo vivo gripado.

Acreditem, meus pequenos, eu tenho senso de humor. Vivo às gargalhadas, faço graça de tudo. 

Mas já não dá mais, está insuportável. Tenho sofrido, andado cabisbaixo. Aonde eu vou, ouço enxurradas de piadinhas maldosas sobre mim. É um bullying infinito. Tudo sou eu, tudo eu. Eu faço chover só de sacanagem para avacalhar o fim de semana da galera, eu não sei mexer no controle do ar condicionado, eu devo viver dançando a Dança da Manivela e cantando “aqui tá quente, tá frio, muito quente, tá frio”. Outro dia me chamaram de bipolar. Cadê o respeito? Não tenho nada a ver com isso. Sério, nada! Minha função aqui em cima é outra. E nem existe essa tal máquina de controlar o tempo.

Portanto, filhos, peço-vos de coração para pegarem mais leve comigo. Já tenho idade avançada e não me faz bem ficar triste assim. O verão vem aí e as coisas vão voltar ao normal. Combinado?

Agradeço a atenção. Que o bom Deus vos abençoe.


Pedro

terça-feira, 18 de setembro de 2012

As you are


A vida é preenchida por momentos de glória e decepção. O ser humano precisa aprender a conviver com o sucesso e o fracasso. A linha divisória entre o êxito e a falha é das mais tênues e tende para um dos lados de acordo com o resultado das provas que o universo oferece todo o tempo. Foi mais ou menos o que aconteceu comigo há dez longos anos e creio só agora estar disposto a tocar no assunto abertamente.

Eu havia me mudado de cidade, mais uma vez, há pouco. Vivia a situação desagradável de ser o novato em todas as redes de relacionamento e não saber exatamente como andava minha aceitação. Na nova escola, já tinha vivido algumas situações que não me favoreciam. Até que recebi um convite inesperado: uma festinha na casa de cara gente boa da outra sala, então namorado de uma menina que estudava comigo. O surpreendente é que aquela turma era das mais fechadas e diziam que andavam apenas entre eles. Pareciam ter gostado de mim.

Lá fui eu. Um apartamento bacana, com cobertura, música alta, umas bebidas. Perfeito para uma galerinha do ensino médio!  A madrugada chegando e eu aproveitava para estreitar meus fracos laços de amizade e conhecer o pessoal com quem eu ainda não tinha conversado direito.

Seguindo o cerimonial à risca, chegou a hora da rodinha de violão. Todo mundo sentado no chão, perninhas cruzadas e uns pop rocks cantados em conjunto. Convencionou-se então que cada um tocaria uma música e cederia o violão ao colega ao lado, que mandaria mais uma. E a cada fim de canção do Jota Quest, Pearl Jam ou Legião Urbana, o ritual se repetia, outro assumia o posto de líder da roda e eu me questionava se só eu no mundo não sabia dedilhar as cordas do instrumento. Ele se aproximava de mim e eu, em silêncio, pensava a melhor atitude a ser tomada para não sair muito por baixo.

Até que o violão chegou ao meu lado. A música terminou e ele me foi entregue. Eu, fingindo certa naturalidade, o repassei ao próximo. Só que o tal próximo não aceitou, alegando ser a minha vez de chefiar a turma puxando um hit musical. Não havia mais escolhas: abri o jogo, revelei que não sabia tocar. Eles insistiam, reafirmavam que poderia ser qualquer canção. Eu, cabisbaixo, ratificava: não dava mesmo. Aí eu recebi uma indagação que mais soou como uma pá de cal, a machadada final:

– Pô, cara, mas nem Come as you are?

– Não, galera. Nem Come as you are.

Um instante de silêncio, as pessoas se entreolharam. O amigo do lado tomou o violão e tocou qualquer coisa. Depois ainda apareceram com uma guitarra e uma caixa de som e um deles gastou na introdução de Sweet Child o’ Mine, acho que só pra me humilhar. Eu permaneci desolado e a noite perdeu metade da graça que tinha. E até hoje fico meio mal quando ouço Nirvana. Confiro se ninguém vem com um violão na minha direção.

É, Kurt, onde quer que você esteja, fique sabendo que o seu riff me causou uma situação bastante desfavorável. Eu que tenho uma cabeça boa, dei a volta por cima e não pensei em bobagens, tipo um suicídio. Opa, comentário nada pessoal, viu?



segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Diferente


Ele dizia que ela era diferente. Dizia que sentia isso. Só não sabia apontar exatamente onde estava a diferença, se era em ponto especial ou no todo. É que ela se portava de um belo jeitinho próprio, único. De um jeito dela. Tinha uma postura definitivamente singular. Ela era dona de uma presença discreta, mas marcantemente discreta, impossível de passar despercebida.

Ela conversava coisas diferentes, inteligentes. Tinha uma história interessante e falava de uma forma diferente, que dava mais vontade de ser ouvida, sem a menor pressa. Carregava um humor gostoso e constante. Ela era das companhias mais agradáveis, pra esperar a chuva, pra ver o sol, pra caminhar estrada afora. E, então, como mágica, os programinhas mais simples poderiam se converter em eventos diferentemente especiais.

Ela era uma pessoa linda. E, some-se a isso, uma mulher linda. Como se não bastasse, ainda tinha olhos que brilhavam. Eram como olhos de princesa! Isso, uma bela princesa de um reino imaginário, boa definição.

E ela tinha um beijo diferente.

Ou talvez ela fosse igual às outras. De dias bons e dias ruins. Como as outras. De acertos e erros. Igual a todas. Com qualidades e defeitos. Só com o sorriso muito mais bonito.