quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Saudades de um cara 5

Garçom. Substantivo masculino. Empregado que serve à mesa em restaurantes, cafés, etc. Só isso? Acho que o Aurélio nunca tomou uma cachaça com o Japonês.


É noite de quinta-feira. Jovens peregrinam com destino prévia e tradicionalmente traçado. Parte deles pára no meio do caminho enquanto os outros seguem adiante. São dois mundos distintos, mas complementares, e que mais tarde se unificarão. O meio do caminho é um pequeno boteco conhecido por Bar do Fernando, Bar do Roberto ou, simplesmente, Chorinho. E é lá dentro que encontramos mais um célebre personagem das madrugadas universitárias, o chamado Japonês.


O Japonês não é só um garçom, um mero atendente. É mais que isso, é parte do show. Além de se encarregar com maestria do vai-e-vem de copos e garrafas, doses de compostos alcoólicos e porções alimentícias de data de fabricação atemporal, sempre recepciona os clientes com um cativante e encantador sorriso na face rosada, vez por outra acompanhado de um comentário perspicaz sobre qualquer coisa. Um sujeito aparentemente tímido, mas bom de papo.


Não se sabe ao certo como e quando sua alcunha se fixou, nem tampouco em que circunstâncias os laços de amizade com os aventureiros noturnos tanto se estreitaram. Ninguém nunca ao menos se preocupou em diagnosticar se ele possui ou não ascendência oriental. Não é essa a idéia. O certo é que de um cidadão que poderia muito bem passar despercebido, ele se tornou um cara legal. Um ingrediente a mais no revigorante estabelecimento com agradável som popular ao fundo, pessoal esquisito e clima abafado.


À medida que os ponteiros do relógio giravam, a música acabava e a clientela lentamente se esvaía. Quase todos rumo ao fim da via, onde parte da juventude já se concentrava desde antes, mais preocupada em quantidade de pessoas que em qualidade da noite. Até que restavam no Chorinho apenas três ou quatro rapazes – talvez acompanhados de um grupo de donzelas – e um violão, emprestado pelo bar.


A galera se empolgava, embalada por canções nostálgicas e de valor harmônico ligeiramente destoante do som que há pouco imperara pelo pequeno recinto. Com a consolidação da madrugada, o volume rústico dos berros tornava-se certamente inoportuno. De quando em quando um funcionário da casa era designado a exigir silêncio e tentar recolher o instrumento — e vez por outra recolhia. Aí o boa-praça Japonês entrava em cena e concedia uma segunda ou terceira chance, mesmo sem muita expectativa de que sua confiança fosse retribuída. Paciência nipônica.


Já amigo de verdade, o querido Japonês passou a ser parte da turma. O profissional mais procurado para oferecer uma e mais uma dose de aguardente a baixo custo com limão a tiracolo. Se notava no bar apenas um do grupo, solitário, não hesitava em oferecer um dedo de prosa e questionar quanto aos ausentes. E gostou tanto de ser carinhosamente coroado como Japonês que estendeu a honra a cada um de seus designadores. Sem muito esforço conquistou seu lugar no oriente do nosso peito, dentro do coração.


Isso que eu falei.

2 comentários:

Letícia Cocô disse...

Saudades do Chorinho!
E de te ver com um bigode notável numa dessas quintas da vida...

Maicou disse...

Glorioso Japonês e das quintas-feiras econômicas, R$2,00... a primeira canção sempre era Nós vamos invadir sua praia hahahahahhahaha