domingo, 13 de fevereiro de 2011

Perseguição


O gosto dela por homens mais velhos veio desde a adolescência. As ideias de maturidade, de estabilidade profissional e segurança a fascinavam. O primeiro amor platônico foi um primo. Depois, um amigo da tia. O instrutor da academia foi o próximo. E nesta lista não poderia faltar um professor universitário.

Já há alguns dias ela notara que estava perdidamente apaixonada pelo mestre. Contava os dias para a aula e, quando ela chegava, sentava-se na primeira cadeira com o cabelo arrumado e expondo um sorrisinho bobo. Escrevia os nomes dos dois envoltos por milhares corações nas folhas de material de estudo.

Esses amores jamais saiam do plano das ideias. Mas com o professor foi diferente. Ela realmente acreditava que poderiam viver um romance. Ou pelo menos uma aventura. Só havia um problema: como abrir o jogo com ele? Durante a aula seria impossível. Enviar um e-mail com a apresentação das boas intenções e a proposta de um encontro parecia muito frio. Esperar encontrá-lo numa festa soava pouquíssimo eficiente. A saída decidida foi uma conversa franca, longe da faculdade. Para isso ela só precisaria descobrir onde ele morava.

O plano estava armado. Saiu da aula de sexta-feira mais cedo e foi direto pro carro, já estacionado ao lado de uma árvore. Estava prestes a arrancar assim que o professor aparecesse e entrasse no veículo dele. A outra parte do plano estava chegando: o melhor amigo dela, tranquilo, deixava a faculdade, com mochila nas costas e um assobio na boca. Ela, de grandes óculos escuros, abaixou um pouco os vidros e o convocou: “Ei! Psiu. Pssssiu”. Ele procurou de onde vinha o chamamento, olhou para o carro sem entender e ela fez sinal para que ele corresse e lá entrasse – o professor já estava a caminho. Pedido atendido. Ela precisaria de companhia que a ajudasse a perceber se estava ou não sendo notada pelo amado.

O professor entrou no carrão, com vidros pretos. Com muita gente ainda saindo, não foi possível concluir se ele estava ou não sozinho, embora os dois amigos no carro tenham tido a impressão de ver a porta do carona se fechando. Ele deu partida, eles seguiram. Sem ter a menor ideia de para onde iriam.

O percurso começou rumo à avenida principal da cidade. Muitos carros, tráfego intenso, nada que levantasse qualquer suspeita. Após minutos, o carro dele deu seta para a esquerda e entrou em um bairro desconhecido. O veículo de trás fez o mesmo. O trânsito diminuiu consideravelmente. Um sinal, duas rotatórias e algumas placas de “Pare” depois, só restavam os dois carros na via. O dele, com vidros pretos que o blindavam de qualquer vazamento de informação do que pudesse estar acontecendo em seu interior. O dela, com vidros transparentes que deixavam à mostra dois estudantes com quem ele convivia duas vezes por semana. E que nem imaginavam em que lugar da cidade estavam.

Outra curva à direita e o carro da frente parou. O de trás também. Do da frente saiu, do lado do carona, uma mulher, de vestido, com longos cabelos anelados loiros e fichário na mão. A garota do carro de trás ficou sem reação. E agora, o que fazer? Como agir? Será que eles estão juntos ou foi só uma gentileza? Era preciso pensar rápido. Virou-se para o amigo: “Desce”. “O quê?” “Desce, cara. Finge que mora nessa casa aí.” “Mas eu nem sei onde estamos.” “Desce que depois eu te busco, vai.”

Ele obedeceu. Ela acelerou, passou pelo carro do professor e ainda buzinou e deu tchauzinho. O colega caminhou até o portão, abriu a mochila e ficou procurando as chaves de casa até o carro que restou também ir. Depois, se sentou num murinho, acendeu um cigarro, ligou o mp3 e esperou o retorno da comparsa. Amigo é para essas coisas.

Tática frustrada. Mas na segunda-feira ela já estava apaixonada por um advogado que tinha escritório no prédio onde ela fazia estágio. E tinha um plano infalível para conquistá-lo.

4 comentários:

Joyce disse...

Que delícia reviver isso tudo! O texto retrata a sua presença nestes momentos, mesmo passada a aventura. Você é especial. Um grande amigo e excelente escritor. Joyce Bellei

rafa paschoa disse...

Muito bom! Seu texto é excelente... Essa história, então ..rs..

Blog do Cano disse...

Uai Didi. Pelo visto é baseada em fatos reais. Você era o melhor amigo? Ou seria você o professor comedor?

Ulisses Vasconcellos disse...

Não, Cano.

Dessa vez eu fui tão somente o relator.