domingo, 3 de julho de 2011

Fecha a conta


Pelo menos uma vez por semana os quatro amigos se encontravam no bar do Gilson. O ambiente era simples, a cerveja era gelada e serviam uns petiscos bem gostosos. Para eles, era o lugar ideal para jogar conversa fora, assistir ao futebol e esfriar a cabeça depois de um dia de trabalho. Fora que o Gilsão era um cara extremamente boa praça, um gordinho bonachão desses que logo ficam íntimos dos clientes e fingem ser mal-educados com todo mundo para a galera dar umas risadas. A Soninha, a mulher dele, era um amor de pessoa. E o Valtinho, o único garçom, já era como se fosse da família. Só tinha um problema: a conta sempre vinha errada. Cobrando a mais.

Eles bebiam muito e costumavam comer bastante. Logo, era difícil dizer exatamente se foram 17 ou 19 garrafas ou se a conta fechou em R$92 ou R$105. Mas era refazer os cálculos e perceber que tinha coisa errada acontecendo. O Mauro era sempre o mais exaltado, achava um absurdo a história sempre se repetir. “Pô Gilsão, toda a semana isso? Tá achando que a gente é otário, né?” O João Victor, pelo contrário, era tranquilão e sempre a favor deles pagarem o que foi cobrado e ficar por isso mesmo, a diferença nem era tanta. O Moreira, o mais político do grupo, era o responsável por ir lá oficializar a reclamação e trazer de volta a conta certa. O Gilson contestava um pouco, pegava a calculadora, rabiscava uns papéis e acaba por concordar com ele. Sempre punha a culpa em alguma coisa: geralmente no Valtinho ou na filha dele, a Luciana, que ajudava a família no caixa. Ou no grande movimento do dia, nas pilhas da calculadora, na alta da Bolsa de Valores ou no que desse para tirar o dele da reta. Mas foi do mais racional da turma, o Claudinho, o plano para terem certeza se eram ou não de má fé os reais cobrados a mais.

A ideia era a seguinte: na próxima semana eles não se sentariam juntos. Cada um pegaria uma mesa e ficaria sozinho, bebendo, comendo e anotando em um papelzinho escondido a exata quantidade de tudo que fosse consumido. Assim eles não se distrairiam conversando e confrontariam a lista do que foi pedido com o que seria cobrado. Se as contas viessem mais altas, era mesmo injustiça de caso pensado e eles deixariam de vez o local. Combinado, dito e feito. Cada um chegou em um horário, escolheu sua mesa e consumiu o que queria. O pessoal do bar estranhou, perguntou se estava tudo bem e eles responderam que sim, só queriam variar um pouco as coisas. Alguns pedidos depois, as contas. Frio nas barrigas.

O resultado não foi muito bacana. A conta do Mauro veio com duas cervejas a mais e uma porção de filé com fritas no lugar da de moelas que ele comeu. A do João Victor tinha uma dose de conhaque que ele não tinha pedido e uma porção de frango a passarinho inventada – ele é vegetariano. O Moreira se surpreendeu ao descobrir, olhando sua conta, que três garrafas de cerveja de R$4,20 somam R$15,50. E o pior foi com o Claudinho, que passou mal no dia e não pode ir ao bar, mas recebeu em casa no dia seguinte uma cobrança de cinco cervejas, uma Seleta, um filé de tilápia e um Trident Melancia. Quando ele apareceu no bar pra reclamar, o Gilson nem deixou ele falar e foi dizendo que o máximo que poderia fazer era parcelar em duas vezes. “Amigos amigos, negócios à parte”, justificou.

6 comentários:

João disse...

Não consegui não rir quando chegou na parte do Trident Melancia, sério

ThiagoFC disse...

No primeiro parágrafo eu tive a impressão de que o dono do bar era inspirado no Capelão. Procede?
Enfim, o cara foi sacana, eu não voltaria mais lá.

Thaís Livramento disse...

E o Gilson tá rico, né? Rsrsrsrsrsrs...
Besos,
TL. ;-)

Ulisses Vasconcellos disse...

Thiago, a história sempre é um misto de memórias.

E procede sim.

Blog do Cano disse...

Hauhau! Muito bom mesmo! Remeteu-me a várias coisas... os quatro amigos, o dono do bar fingindo ser mal-educado. Até mesmo a rima entre Gilson e Denílson. Continuo rindo da conta chegando posteriormente pro cara que nem participou!

Fabiano Ribeiro U2 eu FUI disse...

Ainda bem que o Blink fechou hahaha