terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Cenas do cotidiano


Na cozinha do serviço, no horário do lanche:

- Eu sempre durmo cedo.

- Eu não. Tenho insônia, só consigo dormir altas horas da madrugada. Por isso toda noite eu leio até tarde.

- Nossa, que menina culta!

- Amm... Adivinha o que eu leio.

- Capricho?!

- Não. Livrinho de piadas.

- ...


Amigos, se embebedando na casa nova após uma mudança:

- Vem cá, aquele lance da máquina do tempo é possível mesmo?

- Bom, o tempo é um vetor e... Você sabe o que é um vetor?

- Sei! O mosquito Aedes aegipty é o vetor da dengue.

- ...


Isso que eu falei.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

A extração


Após tantos anos de espera, chegara a hora de acabar com um dos meus piores inimigos. Depois de tanto me fazer sofrer e imaginá-lo exterminado, meu terceiro molar — o popular dente do siso — deixaria meu corpo. “Já vai tarde”, pensei, malicioso, ao acordar.


Antes de ir ao dentista, fui ao trabalho para resolver uma pequena questão administrativa e me certificar de que era mesmo dia útil e eu não estava trabalhando — se tudo desse errado, me agarraria a esse argumento para não cair em depressão. Sigo para o consultório, pontualmente, às 11 horas.


Lá, aguardo alguns instantes. A demora não me surpreende, já a esperava. A dentista aparece, abre a porta e a vejo ao lado de outra mulher. Ela olha para mim, exterioriza certo espanto. “Eu sei o que é o caso dele. E extrações só são marcadas para as 10h40”, resmunga para a colega. Eu intervenho, me defendo e asseguro que o atendente me disse 11 horas. E ela sai às pressas à caça do irresponsável que atrasaria seu almoço. Comecei mal.


A dentista volta, me convida a entrar. Eu ainda me questiono se é só para justificar que a cirurgia terá que ser remarcada ou para consertar de vez minha arcada dentária. Ela, a contragosto, me entrega o avental e os óculos de proteção. O siso estava com os minutos contados. Ahá!


O primeiro procedimento é a anestesia, para o paciente não sentir dor. Legal. Mas, paradoxalmente, cada fincada de agulha em cada ponto da mucosa da minha boca me faz querer desistir. Penso no lado bom e sigo em frente.


A técnica para extrair o terceiro molar é simples, eu diria até meio pré-histórica. Consiste em enfiar um alicate na boca do coitado do paciente e arrancar o dente na marra — para isso não importa as interjeições de dor que ele exclame e nem o volume do gemido.


Enfim, o dente sai!


Na verdade nem foi tão ruim assim. A dentista me pergunta se pode jogar o dente fora. Eu não autorizo. Pensei em guardá-lo, colocar debaixo do travesseiro para que a Fada do Dente troque-o por algumas moedinhas — estou precisando. Só aí me dou conta de que me mudei recentemente e ainda nem tenho travesseiro. Mas trouxe-o assim mesmo. “Em 20 minutos pára de sangrar”, me garante a odontóloga.


Saio cantarolando, um problema a menos na minha vida. Está certo que ainda preciso extrair outros três desses inimigos íntimos, mas uma grande caminhada começa com o primeiro passo. Pego o ônibus e volto para casa, sempre lembrando de que hoje não precisarei trabalhar.


No caminho, o cenário muda completamente. A anestesia passa e uma dor insuportável toma o lugar onde antes morava o pequeno ossinho que a esta altura está no meu bolso. Parece que o buraco na gengiva quer parir outro dente a qualquer custo e os outros 30 e poucos se acastelam para impedir. Ferrou.


Chego a minha casa. Sento, fecho o olho, me concentro e mentalizo: “Não vou chorar. Não vou chorar. Não vou chorar”. Aí me levanto e vou secar as lágrimas, que já estavam pingando na minha roupa. Pelo menos eu tentei.


Lembro do conselho da dentista. “Se doer, tome um analgésico”. Poucas vezes na minha vida fui tão grato a um comprimidinho. A dor passou. Que sensação horrível — não a desejo a ninguém. Quer dizer, talvez eu não me importaria tanto se fosse em um ou outro aí... O fato é que doeu, com força. E os 20 minutos que a cirurgiã me prometeu para estancar o ferimento duraram mais de 24 horas.


Estou me recuperando. Em breve devo estar pronto para outra. Que venham as próximas três extrações!


Isso que eu falei.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Por Ulisses Vasconcellos

Em uma das minhas mais recentes empreitadas jornalísticas, dia 21 de novembro, fui ao show do Chiclete com Banana. A intenção, claro, era dialogar com os músicos para produzir uma matéria. A organização do evento combinou a entrevista e, na hora H, furou. Além disso, choveu literalmente o dia inteiro — um temporal mesmo. Eu dei meu jeito. Segue a cobertura publicada na Tribuna do Cricaré de terça-feira, 25 de novembro.


Chiclete, chuva e banana:
combinação que deu certo


É preciso mais que um temporal para parar um chicleteiro. O público presente ao show do Chiclete com Banana em São Mateus provou que água não dissolve animação — pelo contrário, dá até mais energia. Os milhares de foliões curtiram a apresentação da maior banda de axé brasileira até o último instante, na madrugada contínua ao dia em que foi registrada a maior precipitação do ano.


Quando o Chiclete subiu ao palco, o sábado já se iniciava e a chuva era ininterrupta desde a manhã do dia anterior. Mas foi só Bell Marques aparecer, armado com sua guitarra e sua bandana, e colocar fogo na multidão. Enquanto isso, no alto, a explosão de fogos de artifício coloria o firmamento. O espetáculo foi aberto com o sucesso Eu quero esse amor e o rei dos chicleteiros logo profetizou: “Esta noite não há estrelas no céu. Porque todas elas estão aqui”. A partir daí foi só confiar nos teclados de Wadinho Marques, as percussões de Waltinho Cruz e Deny, a bateria de Rey e o contrabaixo de Lelo que tudo daria certo.


O pessoal dos camarotes, protegidos das águas, resistiu um pouco mais, mas o som contagiante dos baianos acabou reunindo grande parte dos foliões na pista. Formou-se então um único mar de abadás amarelos, cor-de-rosa e alaranjados. No chão, algumas poças se consolidavam, as chapinhas dos cabelos femininos se desfaziam, a roupa sujava. E a alegria e empolgação cresciam na mesma proporção. Coisas dos tais chicleteiros. Representando o Município, o Swing Battifun, do alto do trio elétrico, cuidou para que Bell e sua turma encontrassem o público já aquecido e em ponto de bala para o show inesquecível. São Mateus recebeu visitantes de diversos pontos do País. Bandeiras do Espírito Santo e de outros estados tremularam entre os micareteiros.


Isso que eu falei.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Depoimentos

Imagine uma galera muito massa.

Imagine um churrasco.

Imagine cerveja.

Imagine uma câmera.

Imagine que é despedida.

Imaginou?

Parte 1

Parte 2

Isso que eu falei.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Fator B


Pouca gente sabe, mas o corpo humano tem sua própria bússola. É uma parte do cérebro ainda desconhecida dos cientistas com função única de orientar. Ela não é ativa o tempo inteiro – muito pelo contrário, é estratégica. Para ser acionada precisa de combustível: bastante álcool. Aí as coisas se explicam.

É impressionante, um cidadão embriagado sempre volta para casa inteiro. Não importa a distância, o meio de transporte, a dose ingerida, nada disso. Ele volta, guiado pela misteriosa força que convencionei chamar de Fator B. O bêbado pode perder autonomia sobre seus membros, dicção, senso do ridículo, apetite sexual, mas uma vez com o Fator B acionado o retorno ao lar é certo.

O místico poder garante que, ao final da noite, o encachaçado dormirá na própria cama, custe o que custar. O sexto sentido o sustenta quando as pernas cambaleiam, fixa as mãos no volante e guia o automóvel quando os olhos cerram-se ou crava a coluna vertebral sobre a moto quando o corpo começa a deslizar para um lado. Até consegue carona, se necessário. A rota sempre é impecavelmente lembrada, por mais recente que possa ser a moradia. É como um GPS instalado por dentro.

Uma madrugada dessas eu voltava para casa da Festa da Cidade, alcoolizado, de ônibus. Estava em pé, apertado, sozinho, meio bobo e dialogando com pessoas que nem imagino quem são. De repente um rapaz sentado próximo abre a boca e vomita... e vomita... A multidão (o ônibus estava cheio) mais que depressa passa a zombá-lo. Eu também, mas meu coração benevolente entra em ação.

Com carinho quase materno, oriento o fanfarrão a regurgitar seus alimentos e drinks em local a causar menos estrago – mais longe do corredor, cuidado com os pés dos passageiros, pelo menos fora dos outros bancos. Ele não responde, está desmaiando. O coitado está solitário. A galera já inventa apelidos, aponta o dedo indicador e ri alto. Eu também, mas ainda estou do lado dele. Eis que me vem à mente a questão: “Como é que este embasbacado morto-vivo vai chegar em casa?”

Pergunto a ele se lembra-se onde mora. Ele abre só um olho, põe a língua para fora e resmunga qualquer coisa babando, que interpretei autoritariamente como: “Sei sim, não se preocupe. Estou bem”. Acho que ele está em coma. A esta altura tento insistentemente explicar aos populares que o sujeito não é meu amigo e que nem sequer o conheço. Em vão, agora fiquei sendo o parceiro do derrubado.

O ônibus pára num ponto qualquer. O maluco se levanta repentinamente, respira, olha pela janela e calmamente desce as escadas com toda segurança do mundo. E segue, sozinho, pela rua escura, para o lar doce lar dormir o sono dos justos. O Fator B dele é bom mesmo.

Isso que eu falei

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Reconhecimento

Bom ver as coisas fluindo. Fiquei orgulhoso de ver Os Melhores caras do mundo publicado pelo Jeremias no Informativo Tá na Cara. Depois, o 4-1-3-2, que quase ninguém deve ter entendido nada, bastante elogiado na comunidade do Championship Manager 01/02 e reproduzido no blog do jogo.

Legal.

Isso que eu falei.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

4-1-3-2

Assumo a equipe. A direção espera que o clube obtenha uma posição respeitável no campeonato. Espera o título. Ou, simplesmente, a promoção à divisão de elite. Checagem minuciosa no plantel, olho clínico em busca de valores que mereçam permanecer — só um ou outro. Aos demais, a lista de transferências. Observo as finanças, não era bem o que eu esperava. Segmento os atletas em treinamentos por posição.

É hora de começar a montar o esquadrão. Sem muitos recursos, nomes consagrados esquecidos e desempregados são o primeiro alvo — as promessas vêm em seguida. Talvez um empréstimo valha a pena. Puxo na memória aqueles que outrora deram conta do recado e conquistaram vagas eternas em quaisquer circunstâncias. Em viagem rápida pelos confins europeus, as primeiras peças começam a ser decididas. Grécia, Suécia, Ucrânia, divisões inferiores de Portugal.


Ainda falta alguma coisa. Bielo-Rússia e Bósnia-Herzegovina: celeiro de craques — garantem a linha de frente. Atenção ao limite de estrangeiros. É preciso entender como se encaixam as engrenagens da máquina. Os adversários se reforçam.


Agendar amistosos. Times fortes, que testem minha equipe pra valer. A estratégia precisa ser ajustada. Dois ou três zagueiros? Dois ou três meias? Dois ou três atacantes? De novo analiso o material humano à disposição. Adéquo o time à tática ou a tática ao time? O tempo diz. Começa o campeonato. Tantas horas de jogo se passaram.


Um hat-trick na estréia! Sabia que nele poderia confiar, nunca falhou. Finalização 20 — a chave do sucesso. Ah, e os tais atributos escondidos! Está contente com sua situação no clube, pensa que o técnico é extremamente competente. Acho que vou juntar minha voz à dos que esperam que em breve ele tenha uma oportunidade na seleção principal. A direção está agradada, em questão de tempo deliciar-se-á.


Jogo difícil e decisivo, contra o bicho-papão da temporada. Apreensão, quase tremo. Titulares até poupados na última rodada. Ih, um a zero para eles. Pausa! Penso. Seta maior nos laterais, ação livre no camisa 10, um ponta-de-lança a mais em campo. Rola a bola. Pausa. Rola a bola, pausa. O placar se inverte, gol chorado no finalzinho. Eu grito, saio correndo pelo quarto, quase choro, xingo. Nem percebo o cair das horas. Outro desafio vencido — rumo ao troféu, ao bi, ao tri, ao hexa... Se um combate é perdido, levanta a cabeça que a vida segue. O save também. Madrugada adentro.


Da Terceira Divisão para Tóquio. Libertadores, Champions League, uma de cada vez. Topo da reputação mundial. Quer vir treinar o Brasil? Os anos se passam, no jogo e na vida, e eu continuo na temporada 2001/2002. Os títulos acumulam-se e até as decepções. Uma dica? Na dúvida: mentalidade atacante e passe curto num 4-1-3-2. Comigo sempre deu certo.


Isso que eu falei.