
terça-feira, 28 de junho de 2011
Primo coragem

domingo, 5 de junho de 2011
A extração 2

Duas semanas após a cirurgia para retirar meu primeiro dente do siso, há longos dois anos e meio, o segundo foi extraído. Eu, mais esperto e experiente, saí do consultório já para a farmácia, encomendei os remédios necessários e me cuidei para não sofrer tanto como da outra vez. Deu certo. O problema é que ainda restavam outros dois terceiros molares, os de baixo, segundo a dentista responsável pelas primeiras extrações, em posições bem mais complicadas de serem retirados.
O tempo passou, eu me mudei de cidade, larguei o emprego, comecei a trabalhar outra vez e deixei de lado a preocupação com os sisos inferiores durante o período. Até que decidi procurar outro dentista para analisar a real necessidade de tirar os dentes, aproveitando que moro com minha família (sei lá, poderia precisar deles) e a empresa tem convênio odontológico.
Do consultório, sou encaminhado a uma clínica de raios-x. Nada agradável as plaquinhas na minha boca empurrando minha língua e me fazendo engasgar. Um dos lados não deu certo e tive que repetir o procedimento. Pronto, agora sim. Levo o resultado de volta ao dentista. Ele analisa, fica sério e em silêncio e depois solta a primeira das más notícias: “Tem uma coisa que eu preciso te falar antes. Seus dentes estão bem deitados e as raízes estão dentro do nervo, que passa por baixo da arcada dentária”. Não parecia legal. Completou me informando que nesse caso tanto o pré quanto o pós-operatório não são simples e que havia chances reais de eu perder a sensibilidade na boca onde estão os dentes, pelo menos por um tempo.
Dia marcado, hora marcada, medicamentos recomendados tomados, lá estou eu na antessala no aguardo da cirurgia. Chego pontualmente às 11h e só sou atendido ao meio-dia. Quando entro na sala, a primeira surpresa: outro dentista acompanharia a extração. Em princípio, não fiz ideia do porquê. Começa a operação. As radiografias afixadas no aparelho de luz da cadeira me mostravam o quão horizontal cada dente estava, o que não me transmitia exatamente muita tranquilidade. Pano na cabeça que deixa só o rosto para fora e anestesia, anestesia, anestesia.
Em seguida eu descobri qual era a função do segundo dentista: segurar o sugador. Mas mais que isso, me manter atento. Ao menor sinal meu de distração, ele descia o aparelho para mais dentro da garganta, tentando me fazer engasgar. Isso umas mil vezes, algumas com sucesso. Quando eu já estava na situação desagradável de ter pelo menos três mãos na minha boca, além de sugador, agulha e uma ponta de metal, o dentista titular pergunta ao colega: “A final da Copa do Brasil é sábado?” Ao que ele responde: “Acho que é sim”. Eu não me contive e intervi: “Hum-hum”, e levantei quatro dedos da mão. “Ah, é quarta?” “Aham”.
Dez minutos mais tarde, a pergunta é para mim: “Você é vascaíno, cara?” Como responder isso com tantas mãos, aparelhos e sangue na boca? Só enfiei a mão no bolso e mostrei meu chaveiro do Corinthians. Saí-me bem. Mudando o assunto, a recomendação foi para que eu não me preocupasse com alguns pequenos estalos que ouviria. Tensão. Alicate na boca e creck, crack, track. Sai um pedaço de dente, outro pedaço, mais outro. Eu nem olho para a mesinha ao lado, onde as partes são depositadas – melhor não ter certeza do que está acontecendo.
O primeiro dente é extraído, em partes, mas é. Antes de começar os procedimentos para o segundo, ouço: “Umm, este está bem dentro do osso. O buraco vai ser grande. Você vai lembrar de mim por uma semana”. Está certo que ele é dentista, não psicólogo, mas, cá entre nós, precisa desse terrorismo? Outra observação: os aparelhos que são colocados na boca dos pacientes não deveriam ter dois lados. Uma ponta cutuca e logo depois a outra precisa ser usada para pressionar, alçando a primeira, empapada de sangue, aos olhos do enfermo. Não é bacana, sério.
Enfim, último dente fora. Com base na primeira trágica experiência, já peço um arsenal de remédios. Defendo que prefiro ficar dopado a sentir aquela dor insuportável. O dentista me garante que vai me passar o remédio mais poderoso. Deve ser mesmo, porque precisei assinar um papel na farmácia com meu nome completo, endereço, documento de identidade e telefone. Por pouco não levantam minha ficha criminal e analisam minhas comunidades no Orkut. Mas o tal medicamento funciona, segurou a onda legal. Fiquei sabendo que é forte mesmo, indicado para pacientes com câncer.
Por fim, em um texto sobre odontologia ele não pode faltar. Fica meu registro de protesto contra o motorzinho e seu barulho assustador. Ele foi usado tantas vezes que uma hora eu achei que o dente não seria mais extraído, mas pulverizado até sumir. Felizmente não nos veremos tão cedo, motor. Pelo menos eu espero.
sexta-feira, 13 de maio de 2011
Masculino

Com o tempo, criou uma admiração pelo local. Dessas de sempre elogiar, de brincar de dizer que um dia ainda trabalharia lá. Orgulhava-se de afirmar que presenciara todas as boas histórias acontecidas nos dois andares da casa nos últimos anos. Até que, quem diria, foi o protagonista de uma.
Ainda no começo de uma noite de bom público, ele foi ao banheiro. Parou por um instante no espaço que divide o ambiente masculino e o feminino, onde fica afixado um quadro com a programação do mês da casa e decidiu em quais dias estaria presente – praticamente todos. Naturalmente caminhou para a porta com o M pintado, distanciando-se da com um F. Normal, seguiu-se a balada.
Mais tarde, sob efeito de algumas cervejas, teve vontade outra vez de ir ao sanitário. Como a fila estava razoavelmente grande, foi aonde, embora já tivesse estado, não ia com frequência: o banheiro do segundo andar. Com uma long neck na mão e viajando ao som de uma boa banda que tocava um clássico do rock internacional, entrou, parou em frente à latrina e ali aliviou a bexiga, com a porta despreocupadamente aberta. Ao terminar, virou-se de costas e viu duas moças – uma com batom e outra com maquiagem nas mãos – em frente ao espelho, com olhos arregalados e semblante de espanto. Para piorar, a porta de acesso ao vaso ao lado foi aberta e de lá saiu outra mulher, que soltou um gritinho fino quando o notou.
Sem processar direito o que acontecia, mas sem ter outra escolha, caminhou rápido para deixar o banheiro, ainda tendo tempo de topar com uma quarta mulher, que lá entrava e parou ao vê-lo, dando um passo para trás. Andou até a porta e lá notou o mesmo M, igual ao do andar debaixo. Algo não se encaixava. Então deu meia volta e avistou o outro sanitário, com um H em destaque na entrada. Fora traído pelos sinônimos.
segunda-feira, 9 de maio de 2011
A hora certa

A breve investigação terminou da melhor maneira possível. Descobri que ela tinha um nível cultural bacana, estudava e trabalhava, não era de dar vexames por aí, era fã da mesma banda que eu e, o principal, estava solteira há um tempo. Quando a vi pela segunda vez, andando com uma amiga pela rua, meu coração disparou e só consegui esboçar um cumprimento formal, meio sem jeito. Ela riu e continuou a caminhada e eu parei a minha, observando o quão doce era aquele andar. Tive certeza de que a gente se daria muito bem.
Criei coragem, procurei a garota e a adicionei numa dessas redes sociais, mandando um recadinho simpático. Ela respondeu e eu escrevi outra vez qualquer coisa. Pronto, em questão de semanas, já nos falávamos quase diariamente pela internet e eu já tinha o número do celular dela. Pensei mil vezes antes de escrever o primeiro SMS quando vi algo que me lembrou ela. Foram torturantes três minutos de angústia até eu receber a resposta, dizendo que ela havia adorado a associação. Foi a deixa para, mais tarde, convidá-la para sair comigo.
Escolhi um bar que achei tudo a ver com a ocasião – área nobre da cidade, bem frequentado. Busquei-a em casa, elogiei a roupa e o cabelo. Sentamos lado a lado, em uma mesa mais ao fundo, longe da luz principal. A porção não demorou a chegar, bebíamos a quarta garrafa de cerveja, já havíamos contado nossas vidas, falado bem da nossa banda preferida e mal dos nossos chefes. Ríamos muito. Foi quando eu decidi que aquela era a hora certa: puxei a cadeira dela para mais perto da minha. Nesse simples gesto, pensava dar um grande passo no início de um relacionamento duradouro. Elevar a intimidade do casal. Sentir mais forte o cheiro e a respiração. Quem sabe adiantar o primeiro beijo, guardado para a despedida da noite. E, talvez por considerar tão significativa aquela literal aproximação, puxei com força demais. Ela caiu. De costas no chão.
O barulho espatifado roubou a atenção de todos à volta. Sem graça, ela não sabia se ria ou chorava, se tentava levantar-se ou se ficava por ali mesmo para não passar ainda mais vergonha em pé, aos olhos do bar. Eu, em estado de choque, não consegui me mexer. Abaixei a cabeça sobre a mesa e, em um segundo, fiquei rosa, vermelho, lilás e roxo, em rápida mudança de coloração que acusa ao indivíduo ter exata ciência do tamanho da besteira recém-feita. Um cara da mesa ao lado, que tomava cerveja tranquilo com dois amigos, ajudou a moça a se por de pé. Ainda o ouvi perguntando a ela se estava tudo bem. Claro que estava tudo péssimo.
Pedi a conta e pedi desculpas. Um monte de desculpas. Ela disse que estava tudo bem, para eu não me preocupar. Fomos embora e o caminho até a casa dela presenciou o mais constrangedor dos silêncios. Um “tchau, a gente se vê”, “é”, foi o último diálogo da noite. No outro dia, ela já não era mais amiga na rede social e nunca respondeu minha mensagem no celular perguntando se ainda estava brava comigo. E eu, eu ainda acho que tinha tudo para dar certo.
Sim, eu era o cara da mesa ao lado. Só que com um pouquinho de imaginação.
sábado, 2 de abril de 2011
O dia em que eu fui eliminado

Eu já havia estado naquela situação outras duas ou três vezes. Mas nenhuma delas me deixou tão baqueado. Talvez fosse mal pressentimento. Eu enfrentava duas pessoas: uma mulher bem gostosa, de algum lugar do Sul, e um rapaz meio afeminado, do Norte ou Nordeste. Sinceramente não sabia se qualquer destas características poderia pesar a favor deles ou de mim. Nos outros paredões tinha sido mais fácil.
O que me recordo melhor dessa noite é que, após um suspense interminável, a câmera mostrou minha torcida. E estava todo mundo lá: minha família, meus amigos de infância, a galera da faculdade, o pessoal do trabalho e mais um monte de gente que eu não conhecia com camisa com a minha foto. Eu gritei, apalpei a tela e, se não me engano, usei interjeições com palavras que não deveriam ter ido ao ar naquele horário. Acontece, era ao vivo.
Aí vieram os comerciais, o Bial enrolou mais um pouco e chamou a mim e aos outros dois elimináveis para recebermos o veredicto do povo. Antes, falou algo complexo sobre guerreiros, naves espaciais, bandas de jazz, Las Vegas, pipoca com leite condensado, pênaltis não marcados e o Rafiki do Rei Leão, que acho que ninguém entendeu. E com uns cinquenta e poucos por cento dos votos o eliminado era eu.
Abracei todo mundo, até quem eu não gostava – um deles me ajudou a carregar a mala até a porta. No abraço mais demorado, ouvi baixinho um “a gente conversa lá fora, me espera”. Depois, uns três “nossa amizade é pra sempre, irmão”. Então saí e um mundo de gente me aplaudiu e gritou meu nome – não entendi por que, já que eu tinha perdido o jogo. Troquei uma ideia rápida com o Bial, falei que meu erro foi ter sido eu mesmo e pedi desculpas à minha família por qualquer coisa. Chorei um pouquinho.
No mesmo dia descobri em que a minha vida tinha se tornado. Eu tinha uma infinidade de fã-clubes espalhados pelo Brasil – e sem saber fazer nada da vida. Isso sem falar do tanto de comunidades em sites de relacionamentos, a maior delas com muito mais de cem mil pessoas. Loucos! Daí em diante todo mundo queria tirar foto comigo, me pagavam para ir a festas, saí na capa de todas as revistas de televisão, fui ao Faustão e peguei muita mulher – até emendei um breve romance com uma atriz dessas que namoram todo mundo. Farra total.
É, mas com o passar dos meses minha popularidade foi, naturalmente, caindo. Passei a aparecer durante a semana em programas menos badalados de outras emissoras, até que acabaram de vez os convites. Um a um, os fãs-clubes foram sendo fechados. Revistas, nunca mais. Meu último trampo tem um tempinho: fui repórter de um programa que cobre eventos na emissora da minha cidade por um tempo, até que fui dispensado porque não dava muita audiência. E, desde então, procuro uma oportunidade de mostrar meu talento, em qualquer ramo de atividade. Estou precisando mesmo, a grana da época das vacas gordas já se foi.
Até que hoje, passeando despercebido pela rua, vi o anúncio de temos vagas naquela plaquinha ali na rua e entrei. Esta é minha experiência. Começo amanhã?
terça-feira, 29 de março de 2011
O Imperador e o povo

A história, que parece um miniconto infanto-juvenil, se confunde com a vida de Adriano, o Imperador. Um atleta marcado por polêmicas e sucessos. Paradoxalmente a carreira do jogador é repleta de escândalos e conquistas. Aos amantes do esporte bretão, é impossível esquecer o início avassalador na Inter de Milão, o excelente desempenho dentro de campo pelo Flamengo em 2009 e, mais ainda, o antológico gol de empate contra a Argentina na final da Copa América de 2004 aos 48 minutos do segundo tempo.
O triste é lembrar que Adriano dividiu seu sucesso em páginas esportivas com brigas em público com ex-namorada, fotos ao lado de traficantes de drogas e ostentando armas de fogo, além de muitas, muitas faltas aos treinos. E agora?
O Corinthians é uma eterna panela de pressão, onde qualquer deslize pode ser fatal. Por outro lado, é o local ideal para quem quer mostrar ao mundo que pode sim estar outra vez entre os maiores. Futebol para isso Adriano sempre teve. É hora de transformar a interrogação que carrega sobre si em uma exclamação. O time do povo está, em grande maioria, de braços abertos para a chegada do matador. A expectativa é que, ao lado de Liédson, um ataque fenomenal esteja para ser formado. Quando um imperador aceita de tão bom grado ser mais um em um meio marcado pela Democracia, pode ser um forte indício de que tempos de glória estão próximos.
Bem-vindo ao Corinthians, Adriano!
Este foi o primeiro texto meu para o blog da Fiel Juiz de Fora, onde vou ter uma coluna literária. Vez por outra, trago o que tiver lá para cá.
quinta-feira, 17 de março de 2011
Baby, baby
Há uns dias conheci o filho de um primo. Na verdade eu já tinha o visto uma vez, no aniversário dele de um ano, mas não não houve interação. Agora, com cinco, o menino fala bastante – geralmente de videogames. Talvez por isso nos demos tão bem.
O fato se deu quando eu e minha cunhada conversávamos sobre ele, enquanto seus olhos estavam fixos sobre a tela do PSP, grudado nas mãos (geração anos 80, PSP é um PlayStation Portable – isso mesmo, como um minigame de Playstation, com alta definição). Eu disse que achava o pequeno primo muito parecido com meu tio, pai do pai dele. Minha cunhada avaliou que suas feições eram iguais às da mãe. Fomos, então, tirar a prova.
- Nícolas!
- Oi. (Sem piscar, olhos fixos no game.)
- Com quem que você se parece?
- Com o Justin.
- Com quem?
- Justin Bieber.
É... A nova geração chegou.