sexta-feira, 18 de maio de 2012

Conto à tróis 3 - parte 1


O Conto à tróis chega à sua terceira edição. Dessa vez, faço o desfecho da obra Como escrever uma canção de amor?.

Jairo, um jovem compositor em busca de inspiração para a música. Para a vida.

Parte 1, por Marcos Oliveira, dessa vez publicado no consagrado Sandália e Meia.

domingo, 29 de abril de 2012

A4


Ela estava a postos há algumas semanas, mas ninguém tinha precisado dela ainda. Ela não desanimava, acreditava que seria útil em breve. Fazia planos para um trabalho bem feito e não decepcionar. A vida no interior da impressora não era fácil, mas aquela folha A4, a última da bandeja, tentava ver as coisas de uma forma positiva.

O problema é que a história sempre se repetia: ela esperava pacientemente a vez de subir, conhecer o toner e ganhar o mundo, grafada de letras ou quem sabe uma bela imagem, mas a gaveta era carregada com mais papel e a folha solitária continuava no fundo.  A impressora era a única da repartição, muito usada, e a gerência havia disseminado a cultura da solidariedade corporativa, que instruía os empregados a não esperar que outro tome pequenas atitudes que poderiam melhorar o trabalho de todos – como encher a impressora de folhas.

No começo, a folha aproveitava para trocar ideias com as novas companheiras de bandeja e fazer amizades. Mas, com o tempo, tornou-se amarga. Via outros papéis acabarem de ser colocados na gaveta e, instantes depois, ganharem o mundo.  Não conseguia mais aceitar a injustiça da situação. Calou-se.

Até que surgiu a oportunidade de ser impressa. A folha ficou radiante, quase não se continha, parecia criança à espera da festa de aniversário. Faltavam apenas quatro papéis. Três. Dois. Ela era a próxima! Minutos de expectativa... e a bandeja foi aberta, carregada com uma resma de 500 A4 e ela continuou no fundo. Os sonhos de receber um jato de tinta com versos de Camões ou a conclusão de um trabalho científico deram lugar ao ódio no coração. Ao sentimento de vingança.

Passaram-se mais semanas até a folha ter outra oportunidade de deixar a gaveta. E da próxima vez deu certo. Mas ela não queria mais. Pôs em prática a vingança arquitetada durante dias e noites. Quando foi puxada, entrou na impressora e empacou, antes de receber a tinta. Travou o equipamento, que ficou parado por toda a tarde. A repartição não pôde imprimir mais nada e a rotina de trabalho foi completamente modificada. Chamaram os técnicos, que só apareceram dois dias depois. Dias de caos. E a impressora nunca mais parou de dar problema. Mesmo dilacerada, aquela folha ria em silêncio. Vingara-se dos inúteis que não tinham dado a ela o valor que merecia.



Dizem que assim surgiram impressões chulas que terminam com “a quatro”.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Atrás de um caminhão


No princípio da noite de sexta-feira, Maurício Júnior preparava-se para a balada, que prometia. O abadá estava separado, sobre a cama. A expectativa era das melhores. Mauricinho havia intensificado os treinos na academia nas últimas semanas e passado a tarde daquele dia exercitando bíceps e ombros. 

O rapaz tirou a barba com um Mach 3 Turbo para não ter erro e perfumou-se com uma fragrância importada. Montou um moicano com gel. Vestiu a bermuda e calçou os tênis novos. O celular tocou, eram os amigos informando que já estavam na porta. Pegou as chaves do carro e uma garrafa de Absolut – o camarote teria bebidas liberadas, mas o caminho até lá seria regado a vodca e energéticos. Partiu confiante para a micareta e, assim, perdeu as contas de com quantas garotas ficou.

Roberto Júnior nem esperava ir à tal festa. Ele não dava a mínima para shows de axé, não era a onda dele. Acontece que justo no dia recebeu de volta uma grana que tinha emprestado para um amigo há um tempo e não contava que veria outra vez tão cedo. Decidiu torrá-la e a balada do trio elétrico era aonde todo mundo iria no dia. Comprou um ingresso de pista mesmo, o mais barato.

Betinho nunca entrou em uma academia. Não estava exatamente no peso ideal. Em casa, tomou banho rápido e foi. Não fez a barba e passou um desodorante desses de supermercado. Encheu a cara de cerveja e foi de ônibus, cantando umas músicas que não conhecia direito e batucando nas paredes com uma galera que nunca havia visto. Partiu confiante para a micareta e, assim, perdeu as contas de com quantas garotas ficou.



Maurício e Roberto não se conhecem. Mas talvez naquela noite tenham interagido um com o outro, indiretamente, muito mais do que imaginam.

terça-feira, 13 de março de 2012

Bola metade


Enfim, o Antônio aceitou sair com o pessoal da empresa. Depois de meses sendo convidado para os happy hours e só agradecendo, ele disse que iria à comemoração do aniversário do Couto, na terça-feira, em um bar novo na cidade. Os colegas brincaram que teriam duas festas em uma – a do aniversariante e a presença, inédita, do Antônio. O fato é que, desde que o casamento dele terminara, tornou-se um cara caseiro. Era adverso a festas e badalações. O Couto era mesmo um cara super gente fina e amigo de todo mundo, mas a ida do Antônio ao bar poderia significar, para quem convivia com ele, um princípio de mudança de atitude.

O Antônio casou-se cedo, com uma amiga da faculdade. O matrimônio não deu certo e, aos trinta anos, estava solteiro de novo, mas sem o menor pique. Passou a dedicar todo o seu tempo livre a um único passatempo: assistir futebol na tevê. Na verdade, embora não admitisse, ele era um camisa nove frustrado. Um jovem goleador, campeão de todos os torneios amadores da região, que não teve chance de seguir como profissional por conta de uma lesão no joelho esquerdo durante um teste. Trocou os gramados pela nostalgia, diziam.

Ele sabia de cor a classificação dos campeonatos. E tinha as tabelas na ponta da língua. Assinou canais por assinatura e acompanhava todas as ligas exibidas. Quando não era horário de jogos, Antônio divertia-se assistindo a antigos clássicos pela internet. Fazia pipoca e tudo. Meia dúzia de long necks para as semifinais da Copa de 54. Pizza no forno para a primeira rodada da Copa da Holanda ao vivo. Um pacote grande de Doritos por um bom Ba-Vi.

Agora lá estava o Antônio no bar, em plena terça, com os colegas. O espaço era novo para todo mundo, recém-inaugurado. Eles juntaram algumas mesas, pediram cervejas e uns petiscos. O pessoal se divertia contando casos engraçados com clientes. Papo vai papo vem, o Antônio mirou uma mesa do outro lado do bar, se surpreendeu e fixou o olhar. Nela, uma mulher bonita, atraente, trajada com um belo vestido e com longos cabelos pretos cacheados sobre os ombros. Pernas cruzadas. Sozinha. Ele a observou por alguns segundos. Na certa, esperava por alguém.

A partir de então, Antônio não conseguiu prestar atenção em mais conversa alguma. Todo o bar foi sumariamente ofuscado pela beleza da morena dos cachos. Ainda sozinha. Apenas uma taça de vinho na mesa. Ele percebeu traços de impaciência no comportamento dela. Olhava fixamente para um ponto, fora do campo de visão dele, bloqueado por uma pilastra. Balançava as pernas num ritmo constante de inquietude. Chegou a morder o lábio inferior mais de uma vez. Definitivamente, ela estava tensa.

Os minutos passavam, o papo na mesa já era a última festa da empresa e o Antônio estava cada vez mais longe do assunto e do cotidiano corporativo. A mulher continuava só, com o corpo inerte e a face voltada a um canto do bar onde impiedosamente o olhar dele não alcançava. Curiosidade fatal. Ele teve a impressão de tê-la visto balbuciar, baixinho, um palavrão. E, estranhamente, assim ela pareceu ainda mais charmosa.

De súbito, a bela se levantou. Como quem tinha a plena certeza de que aquela era a hora de partir. Pagou a conta no caixa e deixou o bar, sem perceber qualquer outro freguês, mas a tempo de passar ao lado da mesa de Antônio e permitir que ele sentisse seu leve perfume. O rapaz não resistiu, foi até a mesa em que ela estava para conferir o que a mulher mirava com tamanho interesse. Surpreso, riu para ele mesmo. Uma televisão exibia uma tela dividida entre um repórter entrevistando um jogador de futebol ainda no campo após uma partida imediatamente terminada e a classificação da Série B do Brasileirão. Ela era só uma torcedora apaixonada. E talvez ele tivesse encontrado sua alma gêmea.

No sábado teria jogo de novo. E ele estaria lá outra vez.

quarta-feira, 7 de março de 2012

O homem e os ratos

Eu sempre gostei de animais. Sempre mesmo, desde que me entendo por gente. Até cogitei cursar Veterinária, mas desisti logo quando me toquei que me dava muito melhor com o Português do que com a Biologia. E sempre gostei de ter animais. Lembro-me com detalhes de como foram meus primeiros encontros com os cachorros que tive: o Rex, o Ringo, a Paquita e o Nick – os dois últimos meus mesmo, não da minha família.

As adversidades sociais modernas me impedem de ter outro cão. Morar em apartamento e não saber onde vou estar num prazo médio são fatores cruciais aqui. Já há alguns anos, então, contorno a situação criando roedores. Viajo nos ratinhos, me faz bem observá-los.

Eu sempre gostei de dormir. Sempre mesmo, desde que me entendo por gente. Era o último a levantar e o campeão de horas seguidas de sono. Até hoje, aos finais de semana, dependendo da madrugada anterior, só vejo a luz do sol na tarde seguinte quando ela quase não existe mais.

Nunca fui de sonhar muito. Pelo menos, não que eu me lembre. Nem de ter sonhos proféticos ou esquisitos. Mas algo tem me chamado a atenção: de um tempo pra cá tenho sonhado, costumeiramente, com, vejam só, roedores!

Talvez seja porque os bichinhos estão na minha vida não é de hoje. O primeiro foi o Rock, quando eu estava na sexta série. Comprei o hamster – desses comuns, amarelinho – numa loja em frente à escola e o levei pra casa numa caixa de papel, sem me preocupar que ele precisaria de um lugar para morar. O jeito foi descolar um caixote. Só que o Rock aprendeu a escalar a madeira e fugir. E eu o procurava pela casa meio desesperado, até que descobri onde era o esconderijo do bicho: embaixo da geladeira. Então, eu guardava o rato outra vez no caixote, ele fugia daí a pouco e eu o pegava embaixo da geladeira. Sucessivamente. Uma hora saí com a minha família e, quando voltamos, ele não estava nem na caixa e nem na cozinha. Fui encontrá-lo no outro dia embaixo do pneu de um carro em frente à minha casa, todo amassado e rodeado por insetos. E eu morava no segundo andar! Triste cena. Pelos meus cálculos, ele foi meu por dois dias. Deixou algumas lembranças, como quando urinou na minha mão e minha mãe ficou gritando que xixi de rato passava doença.

A segunda da lista foi a Maria, uma gerbil (ou esquilo da Mongólia). Eu nem imaginava que existisse essa espécie, até que, já durante a faculdade, entrei em uma loja de pets e a vi. Resultado: comprei-a, em parceria com meus companheiros de república, e ela virou mascote da casa e xodó da turma. Certa vez, conheci um cara que criava gerbils (imagino que seja esse o plural) e ele me ofereceu uma ratinha filhote para fazer companhia à Maria. Aceitei. Mas antes que a roedorazinha conhecesse sua futura amiga, a Maria se foi. Morreu quando uma escada, dessas móveis, caiu sobre ela, na noite de Natal. Acredito que tenha sido a vez que eu mais chorei na vida. Às lágrimas, velei a pobre em uma caixinha de pasta de dente e a enterrei num canteiro na garagem do prédio. Com uma cruz por cima.


Entrei em contato com o rapaz que me daria a outra esquila e contei do falecimento. Ele me ofereceu então duas roedoras. E, assim, entravam na minha vida a Lisa e a Maggie. Com nomes inspirados nas filhas de Homer Simpson, elas tornaram-se as novas mascotes da república e estiveram comigo até que eu me formasse. Depois, me mudei para longe e elas foram herdadas pela minha família. As duas irmãs se foram – dessa vez, de forma natural, sem desgraças. A Lisa morreu primeiro e a Maggie, já velhinha e debilitada, foi ao céu dos esquilos encontrar-se com a irmã.



Vieram alguns anos sem bichos. Mas não me desfiz da estrutura de criação, principalmente do aquário onde os roedores moravam. Até que recebi um presente: Zé e Superman – dois hamsters chineses assim batizados pelo meu priminho, então com cinco anos e dono dos pais dos ratinhos. A verdade é que eu nunca soube quem era quem porque eles eram absolutamente iguais. Um deles já passou dessa para melhor, mas o outro, que convencionei ser o Zé, está esbanjando saúde, cochilando durante o dia e correndo na rodinha à noite.

Talvez pela variedade de espécies e personalidades dos roedores com quem convivi, meu cérebro insista em me fazer sonhar com os bichos. Só que não são sonhos bons. O roteiro é mais ou menos o mesmo: eu perco o ratinho, como acontecia com o Rock, e, tenso, custo a localizá-lo. Aí percebo que não tenho só um roedor, mas muitos! São gaiolas e aquários, de todas as formas e tamanhos, completamente cheios. Nessa hora me sinto muito mal porque não consigo me lembrar desde quando tenho tantos animais e nem há quanto tempo não os alimento. E ainda me aflige a ideia de que há machos e fêmeas juntos e que, em questão de instantes, eles se reproduzirão incessantemente e a casa será tomada por roedores. Então, me aparece, de supetão, o Cazuza, todo despenteado e bebasso, cantando alto no meu ouvido “a tua piscina tá cheia de ratos, tuas ideias não correspondem aos fatos”. Tá, essa parte é mentira. Só escrevi pra eu ver como poderia ser pior.

Vez por outra ainda acontecem coisas inexplicáveis, como quando, em um dos sonhos, eu criava ratos em um aquário, só que com água. E eles viviam de boa, nadando como se tudo estivesse nos padrões da Mãe Natureza. E no último sonho que tive, em uma das gaiolas próxima às dos roedores, eu criava pedaços de torresmo fritos.

O mais interessante dos sonhos são as gaiolas que descubro que tenho. Costumam ser grandes, com vários andares, rampas e túneis. Coisas de outro mundo. Certa vez, uma tinha três andares, estrutura de vidro envolta por madeira nas laterais e um sistema sensacional de iluminação interna. Tá aí, acho que eu deveria ser contratado por designers de gaiolas e me deixarem dormindo, até eu ter um sonho desses e descrever as residências que vejo para que eles as criem no mundo real. Estou sendo desperdiçado.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Os jornais


O firmamento já estava praticamente tomado pela escuridão da noite quando ele chegava em casa. Os sapatos pareciam bigornas atadas aos pés e o andar era arrastado e lento. Os ombros pesavam e sua postura era a de um homem esgotado. O cansaço psicológico refletia no corpo. Paletó em uma das mãos, gravata e camisa afrouxadas. Há alguns meses, o trabalho o consumia e a pressão pela entrega de resultados transformou-se em uma bomba-relógio prestes a minar o resto de sua saúde. Vivia a tensão de perder o cargo de direção na empresa. A maleta nas mãos carregava documentos e relatórios que poderiam mudar sua vida para sempre. Mas quando avistava sua casa, algumas dezenas de metros à frente, sorria por um instante. Sabia que lá alguém o esperava cheio de expectativas.

Ouviu, de dentro, um grito por ele. Mal havia terminado de girar a chave na fechadura para abrir a porta, foi recebido com a maior empolgação do mundo. Ao ponto de desequilibrar-se e ter que se segurar para não cair. Era assim, todos os dias. O retorno ao lar afastava de sua mente as preocupações e qualquer pensamento ruim e ele sentia-se especial. Enquanto deixava a maleta sobre a mesa da sala e o paletó sobre uma cadeira qualquer, recebia longas e afáveis lambidas nas mãos. O cão oferecia a ele um universo de sossego e distração em troca apenas de alguns simples cafunés.

Desde que a família reduzira-se apenas aos dois, quando a dona da casa fora vencida por uma enfermidade, tornaram-se melhores amigos. O cachorro era dela, mas homem e animal viram-se sozinhos no mesmo espaço e decidiram dar uma chance um ao outro. Entenderam-se, após anos de convívio distante. Apaixonaram-se. Agora não se separavam mais.

O humano não precisava mais de despertador. Todos os dias, pontualmente, às 6h, era acordado com uma lambida nos pés. Um afago no bicho e ia ao banho, enquanto o animal corria ao jardim para buscar o jornal. O dono lia as notícias durante o café, enquanto o cão comia seus biscoitos ao pé da mesa. Depois, era hora da caminhada pelo bairro. Sem a necessidade de coleira. Eles mantinham-se próximos porque queriam. Alguns minutos de descanso na praça, um carinho e era tempo de partir ou se atrasariam. Um deles precisava trabalhar.

No início da noite, após o massacrante expediente, outra volta pelo bairro. Para o animal, oportunidade para exercitar-se, praticar o latido no duelo verbal com outros cachorros e, quem sabe, descolar uma namorada. Para o humano, hora de esquecer toda a complexidade da sociedade e do mundo corporativo. Após a caminhada, jantavam juntos e tiravam um cochilo no sofá vendo qualquer coisa na TV.

Novo dia, mesma rotina: despertador de língua, banho, jornal no café, passeio pelo bairro. Trabalho. Volta pra casa, festa, passeio pelo bairro, jantar, sofá.

Numa madrugada como qualquer outra, um deles passou mal, com uma forte dor no peito. O outro soube que o próximo dia não seria de festa. Sentiu que não viria notícia boa. Descobriram uma doença. Em questão de semanas, ele piorou. Mantiveram-se um ao lado do outro todo o tempo. Um esperava à porta do consultório enquanto o outro fazia exames. Estava por perto na hora dos remédios. Diminuíram o ritmo do passo nas caminhadas. Um ensinou o outro a ser mais humano e o outro lhe ensinou a ser menos animal. Tentaram manter a doce e consagrada rotina por quanto tempo fosse possível.

Embora não admitissem, sabiam que a parceria estava prestes a terminar. E acabou numa manhã fresca de sábado. A saúde cedeu, a bomba-relógio explodiu. Em silêncio, ele tocou o corpo inerte do amigo e aguardou ao seu lado o socorro, que chegou tarde demais. Saiu de maca e cheio de tubos e eles nunca mais se viram. Mas os jornais continuam a ser entregues, infalivelmente, todas as manhãs.







Inspirado nessa charge, que desconheço a autoria (além da assinatura meio ilegível). E em todo o sentido que carrega a palavra lealdade.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Bodas de diamante


A primeira vez em que ela o viu foi em uma daquelas ladeiras estreitas, no início de noite de sexta-feira de Carnaval. Foi rápido, o caminho deles se cruzou, mas ele nem a notou, estava com alguns amigos, abraçados, rindo por algum caso bobo. Ele chamou a atenção dela, que diminuiu o ritmo do passo, parou a descida e o acompanhou com os olhos até que ele se perdesse em meio à multidão morro acima. Coisa de instantes. E ela, que tinha ido pela primeira a vez a Diamantina para se divertir com as amigas, sentiu uma sensação diferente e, pode-se dizer, bastante inesperada.

Já há algum tempo ela não saía muito de casa, tinha tido problemas no relacionamento anterior e o trabalho e o a faculdade ultimamente a tomavam todo o tempo. Até que decidiu acompanhar as amigas na viagem até a famosa cidade histórica pro Carnaval – faria bem distrair um pouco. Jamais esperou encontrar alguém especial.

Tudo muito divertido, uma infinidade de novos amigos, brincadeiras e Berolas do Gilmar. Eis que, na madrugada do sábado, quando o Barracão já comandava o som da Bartucada na Praça do Mercado e cantava “Eu quero esse amor”, ela o viu novamente. Era ele, não teve dúvidas. Resolveu chegar mais perto, como quem não quer nada, para ver como ele era de verdade e, quem sabe, ser percebida. Mas a ideia não deu certo. Tinha gente demais entre eles e, minutos depois, quando ela chegou aonde ele estava, o rapaz já tinha sumido. Meio frustrada, achou que estava ficando era louca.

Ela relevou, não podia estar gostando de alguém que nem conhecia. Ainda mais dadas as circunstâncias. Resolveu seguir os conselhos das amigas, desencanar e curtir o Carnaval. E foi o que ela fez. Mas só até a tarde de domingo, quando, no auge do Bar do Titi, avistou outra vez o tal moço. Tomou um susto, dessa vez eles estavam muito perto um do outro. Os óculos escuros não enganavam, era o cara que há dois dias frequentava os pensamentos dela. Talvez fosse a hora certa de rolar alguma coisa. Talvez se ele não estivesse tão embriagado. Mal conseguindo caminhar, ele ficou pouco tempo e partiu, ajudado por um amigo. Ela ficou, sem saber o que sentir.

Na segunda-feira, outra vez os caminhos deles se cruzaram, no samba na Baiúca. E dessa vez ele estava sóbrio! Mas acompanhado. Ela sentiu um calafrio quando o viu com uma garota (na verdade, nem soube se eles se beijaram, preferiu trocar sua rota antes). Já estava intrigada, os encontros – ou desencontros – estavam atrapalhando seu Carnaval.

Já era noite de terça e os tambores da Bat-Caverna ecoavam por toda a terra de JK. Ela foi discretamente avisada pelas amigas que um rapaz a observava, a alguns metros. Quando se virou, não acreditou: era ele. Estava com os amigos, brincavam como crianças entre si e cantavam uma música aparentemente sem sentido. Ele a olhou algumas vezes. Ela também. Ele sorriu. E ela correspondeu. Ele caminhou em direção a ela tentando vencer a multidão. Ela se encheu de expectativas. A música cessou, luzes se apagaram e o grande holofote redondo iluminou o alto do casarão.

Ela olhou a luz e, quando tentou mirar o rapaz, não mais o viu. Ele não veio. Talvez ela tenha entendido errado, o sorriso nem deveria ter sido para ela. O Batman apareceu lá no alto, cantou uma canção de amor e desceu ao palco atado aos cabos da tirolesa, embalado pelo tema do seriado tocado a todo vapor pela banda. Durante a descida do Morcego, ele rapidamente olhou para ela e ela teve a impressão de que ele cantou uma música inteira sem tirar os olhos dela. Tinha mesmo ficado louca.

A moça e o rapaz nunca mais se viram. Quem sabe o ônibus para a cidade dele saiu na terça-feira, logo após eles terem se visto e ele teve, a contragosto, que ir. Quem sabe o destino preferiu separá-los a dar a eles só uma noite juntos. Na Quarta-feira de Cinzas ela voltou pra casa, cansada, exaustada, feliz e com a sensação de que o Carnaval tinha sido inesquecível. E com a sensação de que se apaixonara pelo Batman. Não o vocalista da Bat-Caverna, que desceu e fez um show sensacional. Mas o verdadeiro Wayne, que poderia estar lá e ter tido que deixar a terra dos diamantes às pressas rumo a Gotham City para atender algum chamado urgente disparado via holofote pelo mordomo Alfred. Sei lá, assim ficava mais fácil aceitar as coisas.