terça-feira, 20 de agosto de 2013

Moçada do Norte


Por obra do destino, eu nasci no Vale do Rio Doce (na verdade, descobri que essa é a mesorregião agora, pesquisando na internet), em Minas Gerais. Depois, foram anos de mudanças e residências no Campo das Vertentes, na região metropolitana do Rio de Janeiro, região metropolitana de Belo Horizonte (esse eu também não sabia, mas suspeitava), Zona da Mata mineira, litoral Norte do Espírito Santo e Norte de Minas. Em cada canto desses, um povo com sotaque diferente.

Ainda estou me acostumando com o sotaque dos montes-clarenses, que é uma mistura de mineiro com baiano e tem suas peculiaridades. E um episódio recente me chamou a atenção sobre esse assunto. Eu passava perto de uma quadra, onde uns garotos praticavam futsal e outros esperavam na arquibancada sua vez de jogar. A pelada estava boa, parei por alguns instantes para acompanhar a movimentação da partida.

Entre ataques e defesas, divididas e gols, um lance duvidoso. Um rapaz dominou a bola próximo à linha de lado e um adversário reclamou a marcação de um lateral a favor do time dele. O jogador com a bola contestou. O outro foi incisivo:

- A bola saiu, moço!

- Não saiu, moço. Tava em cima da linha.

- Moço, saiu sim. Eu vi.

- Não saiu não, moço. Sério mesmo.

- Moço, claro que saiu, eu tava em frente à bola.

A discussão foi se acalorando. Os outros jogadores intervieram. O pessoal de fora também. Formou-se um aglomerado conflituoso. Os ânimos se exaltaram.

- Saiu sim, moooço.

- Moço, a bola não saiu. Em cima da linha não é fora.

- Eu sei, moço. Mas saiu toda. É lateral sim.

- Moço, não foi. A bola é nossa, segue o jogo.

- Não, moooço. Pra que eu iria inventar isso? É nossa aqui, moço.

- É dos caras, moço.

- Moço, é nossa. Não passou a linha.

- É deles, moooço.

Nisso eu desisti de esperar o veredito coletivo quanto à marcação ou não do lateral e segui meu caminho. De longe, ainda ouvia “moço”, “moço”, “moooço”, “moço”... 

Acho que se não chamaram o Arnaldo pra ele decidir sobre o lance, a moçada deve estar lá argumentando até agora. A essa altura, é bem possível que já tenham ter batido o recorde mundial de palavra repetida mais vezes numa mesma discussão.

domingo, 21 de julho de 2013

Selvagem


Demorou a acontecer, mas a espera tinha valido a pena. O casal já estava junto há um tempo e, aos poucos, eles foram naturalmente subindo degraus na escala da intimidade. Faltava chegarem ao último – ela preferiu esperar a hora certa, para que cada detalhe fosse perfeito, e ele entendeu.

Assim, sem pressa, com todo o tempo e espaço do mundo, as coisas aconteceram. À meia luz, à trilha sonora de uma balada romântica leve. Tudo conforme o planejado, bem como eles sonharam. Agora os corpos, ainda quentes e ofegantes, se abraçavam, enquanto ele vagarosamente oferecia um cafuné ao cabelo dela. A sensação era a de que poderiam ficar ali para sempre, o universo estava em segundo plano. Até que aquele reconfortante silêncio foi quebrado.

- Eu preciso te contar uma coisa. Sei lá, prefiro que você saiba por mim.

O sorriso simples dela se fechou e a boca articulou uma interrogação. Os olhinhos, então docemente apertados, se assustaram. Arregalaram-se. Pareciam prever algo não muito bom.

- Ahm?

- É que... eu viajei com meus amigos no fim de semana.

Isso ela sabia. Mas jamais imaginava que pudesse ter acontecido algo que interferiria na relação do casal e que merecesse a seriedade que o tom de voz dele sugeria. A voz dela estremeceu.

- E...?

- A gente bebeu bastante.

- Fala! Tô ficando agoniada! O que que aconteceu?

Ela o chamou pelo nome, algo absolutamente incomum.

- Tinha muita gente, pessoal tava animado. Fizemos um churrasco.

- E...? Pelo amor de Deus, termina.

- Na roça! Um churrasco na roça. E eu tô cheio de marcas de picada de carrapato até hoje, algumas parecem ser bem recentes. Acho melhor você já se preparar para se coçar também.

Ele estava certo. E, naquele dia, ela aprendeu que não existem momentos perfeitos. Mesmo os melhores trazem embutidos pequenos problemas. Alguns bem pequenos mesmo e, não importa o quanto se tente, são quase impossíveis de se localizar.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Acadêmico


Eu gosto de ambientes universitários. Não, não me refiro às atuais baladas de sertanejo, mas de fato aos espaços acadêmicos de trocas de conhecimentos. Também não falo especificamente das salas de aula, até porque sou meio crítico do sistema de educação como ele é, mas isso é papo pra outra hora.  São os ambientes de uma forma geral que me inspiram.

As faculdades são espaços de compartilhamento de saberes, de vivências. São lugares povoados por pessoas de diferentes cantos, várias culturas, muitas experiências e, pelo menos se espera, com vontade de chegar um pouco mais longe na vida. Assim, na fala do professor, na biblioteca, no trabalho em grupo de dez pessoas ou no café com pão-de-queijo, as pessoas oferecem um pouco de si, transmitem a outras parte do que são e talvez terminem de formar suas personalidades.

Isso porque ainda não foi mencionada aqui a melhor parte: conhecer pessoas. Todo mundo conhece grandes amigos e amores entre livros, provas e calouradas.

E é por essas e outras que eu fiquei feliz quando descobri que a universidade pertinho da minha casa tem uma academia aberta à comunidade. Já estava mesmo à procura de uma, para não ficar no sedentarismo total, e essa, além de preço bastante acessível, me permitiria estar outra vez próximo ao universo do saber. Eu andava meio afastado desse mundo desde que concluí a pós-graduação.

Agora lá estou eu, a me exercitar e dividir halteres com jovens universitários, professores e servidores. Sempre dou uma olhada no quadro de avisos para me inteirar do que acontece no dia-a-dia dos acadêmicos. É aquilo: seminários, palestras, torneios esportivos. Tudo nos conformes e eu me sentindo realizado, sou de novo um deles. 

Fora que eu achava que eu me passava perfeitamente por um dos graduandos. A sensação era muito boa, tipo uma juventude estendida.

Até uma manhã em que, saindo da academia, fui interpelado por um sujeito. Ele me abordou na reta, de forma bem natural. Eu de luvinhas nas mãos, regata e rosto suado. Fui questionado:

- Opa! Você é professor de Geografia?

Eu? De Geografia, cara? Não, não sou. Nem de Geografia nem de nada. Talvez um dia possa até ser. Mas não sou. Nem tenho cara de professor, sai fora. O lance é que eu voltei para casa chateado, não estava preparado para isso. Acho que vou procurar outra academia.

terça-feira, 21 de maio de 2013

Porta-retratos


Por um motivo qualquer, aquela gaveta precisou ser reaberta, depois de sabe-se lá quanto tempo. Dentro, documentos antigos, alguns comprovantes de pagamento já apagados, certificados de garantia de equipamentos eletrônicos que ele já não tinha mais e uma chave que ninguém se lembraria de que fechadura poderia ser. Em meio aos restos de passado esquecido, um álbum de fotos.

Por fora, o álbum não tinha qualquer identificação do que arquivava, apenas a logomarca colorida da loja onde as fotos foram impressas. Por dentro, guardava as últimas lembranças físicas ainda existentes dos momentos deles. Quando ainda existia esse plural. Desde que o relacionamento pereceu de vez, as imagens deles juntos foram condenadas ao ostracismo do fundo da gaveta.

Ele não quis se render à saudade que os registros lhe trouxeram. Tentou fechar logo o álbum, mas foi inevitável se permitir a uma rápida olhadela pela sequência de imagens. Impossível não sorrir involuntariamente ao ver o tamanho do riso dela, foto após foto. A cabeça dela encostada à sua, as mãos dadas. Viagens, eventos de todo tipo, amigos em comum. Em poucos segundos de nostalgia, alguns anos de bons momentos à tona.

Preferiu não tirar as fotografias do plástico. Sabia que os versos de algumas delas guardavam recados à mão e o simples contato visual com a letra dela poderia suscitar antigos sentimentos, já aparentemente sedimentados. Fechou, ao som de um suspiro profundo. Sobriamente, desfez-se do álbum. Definitivamente.

Seria simples assim, se a memória não fosse o mais perfeito, e mais cruel, dos porta-retratos.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Você quer, você pode


A trajetória de vida é a soma dos desafios encarados ao longo dela. E não faltam provações – no trabalho, nos relacionamentos, no processo de aceitação dos limites do próprio corpo. Já há algum tempo dizem que o fator-chave para a superação de obstáculos é a tão aclamada motivação.

Algumas pessoas buscam inspiração em grandes casos de sucesso. Outras se apegam à fé e creem ser ela o caminho incontestável na busca de forças para atingir suas metas. Há quem procure aconselhamento profissional. O fato é que é importante acreditar que é possível ir além, vencer mais uma etapa, subir mais um degrau.

Você, que não consegue passar no vestibular, ainda pode, por exemplo, ser doutor em Harvard. Por que não? Talvez seja só persistir, estudar mais. Você, que não consegue sequer um estágio por ter um currículo vazio, ainda pode se sentar na cadeira de diretor-presidente de uma multinacional. Só o tempo dirá. Você, que não sabe dominar uma bola, pode bater o recorde de Bolas de Ouro do Messi, se não desistir de treinar. Você, que nunca entendeu a diferença entre os quatro porquês, um dia pode ser assessor do Professor Pasquale. O método de aprendizado é que pode estar equivocado.  Você, que não pega ninguém desde que a música do Carnaval era “Foge, foge, Mulher Maravilha”, pode em breve engatar um namoro com aquela sua amiga gata que todo mundo sabe que você é apaixonado. As coisas mudam. Você, que luta contra a balança há meses, pode receber um assobio na praia no próximo verão, se não abandonar as atividades físicas e a alimentação saudável. Você, que apanha até da namorada, pode ser o grande astro do UFC 254. Quem sabe você só ainda não encontrou o treinador certo?

A motivação máxima pode vir do treinador, especialista em descobrir talentos. De um professor experiente. De uma consagrada equipe de especialistas em gestão de pessoas e recolocação profissional; eles podem mudar o rumo de carreiras. Ou até daquele amigo gente boa que curte todas suas postagens na rede social quando percebe que ninguém vai fazer isso. Talvez toda empresa devesse ter alguém com esta exclusiva função: motivar. Levantar o astral, fazer crer que é possível. Ou devesse contratar, por uns dias que seja, uma velhinha que malha na mesma academia que eu, que, um dia desses, quando viu uma moça vindo sorridente em sua direção para cumprimentá-la, apertou as sobrancelhas, abriu a boca e soltou, em alto e bom som, sem absolutamente alguma discrição, para quem quisesse ouvir:

- Nossa, menina, e essa barriga aí, vai perder ou não?

Eu duvido que a tal jovem não tenha ao menos dobrado a quantidade de abdominais desde aquela manhã.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Sem moderação


Recentemente adicionei mais uma experiência inédita ao livro da minha vida: presenciar um assalto, de perto. Bem perto, aliás. Após escolher cuidadosamente das prateleiras do supermercado potes de palmito e azeitona para degustar em casa nas quartas-feiras de futebol, eu aguardava pacientemente minha vez de pagar as compras. À minha frente, duas mulheres passavam seus produtos no caixa, eu seria o próximo. Eis que entram dois rapazes aos berros anunciando um assalto e na mão de um deles o que meu pouco conhecimento policial identificou como sendo um revólver 38. Pelos tamanhos e portes dos caras, eram menores.

A situação é meio inquietante, não tem como não ser. O sujeitinho com a arma, um pequeno jovem de boné, gritava que daria “tiros na cara de todo mundo”. Eu sabia que era um blefe, estava explícito, mas não custava nada eu ficar quieto. Ele abriu a gaveta do caixa e encheu a mão, embora depois eu ficasse sabendo que a soma beirava os R$ 30 – eram só notas pequenas. Depois, o assaltante inexperiente rumou para o setor de bebidas, onde se apossou de duas garrafas de Big Apple, enquanto o comparsa, este de capacete na cabeça, tomava conta do caixa e dos clientes. Uma das mulheres que pagava a conta quando eles chegaram respirava ofegantemente – pensei até que chorava – e o ladrão com capacete a tranquilizava, indicando que não haveria maiores danos aos clientes.

Quando as coisas se acalmavam, apareceu um terceiro meliante, também com traços jovens, que deveria estar esperando à porta. Entrou e ordenou à mulher que se desesperava que o entregasse o celular. Eu, a um metro dela, previ que o meu seguiria o mesmo caminho e involuntariamente pus a mão no bolso para entregar o aparelho assim que ele gentilmente me solicitasse. Mas ele olhou para mim e não disse nada; eu tirei a mão do bolso e olhei para o lado, com total cara de desentendido. Não pediu, não seria eu que ofereceria.

Só que ele se virou para a outra mulher e gritou pela aliança dela, que atendeu prontamente. Fiquei com dó, poderia gerar um problema conjugal desnecessário. Aí eu tive certeza de que eu seria o próximo saqueado. Eu, com óculos escuros na cabeça, cordão e pulseira de prata, celular e carteira nos bolsos. O assaltante me fitou e aí que eu me virei mesmo para o fundo do supermercado com olhar vazio, como se ainda não tivesse percebido o que se passava. O meliante esboçou um passo em minha direção, mas talvez tenha me achado tão sonso que resolveu me deixar pra lá. Resultado: todos os pertences intactos comigo.

O mais nervosinho, dono do revólver, ainda pegou dois uísques, eles saíram correndo e entraram em um carro que os aguardava à porta. Sumiram no mundo. Um absurdo. Como eu disse, eram menores. Com garrafas de bebida alcóolica e um carro. É revoltante. A não ser, claro, que um deles seja o motorista da rodada e esperem o último da turma fazer 18 anos para abrirem as garrafas.

domingo, 3 de março de 2013

Dia de Wayne


Era noite de terça-feira e o grupo de amigos jogava conversa fora, tomava cerveja e comia algum prato típico na casa de um deles. O jantar estava bom e a cerveja em vias de congelar. Os mais cansados já começavam a voltar aos seus lares. Até que uma ligação mudou o rumo da noite. E poderia ter mudado, pra sempre, a vida de alguns deles.

Uma das moças, que dividia apartamento com uma amiga, já tinha deixado a reunião. A outra ficou, se permitiu mais um ou outro copo. E foi quando o telefone de uma chamou no da outra que o sinal de alerta máximo foi ligado. Ao chegar ao doce lar, sozinha, ela se deparou com a nada agradável surpresa de ver a porta da frente aberta. Escancaradamente aberta.

Em pânico, ligou para a amiga. Não sabia se corria à polícia, se pedia abrigo a um vizinho, se entregava a vida à própria sorte e encarava de peito aberto o desconhecido no interior do apartamento. Do outro lado da linha, a orientação era de que esperasse. Uma comitiva de amigos iria ao seu encontro, enfrentar junto a adversidade iminente.

A tropa era formada pela outra dona da casa e dois amigos, a bordo de um carro emprestado. No caminho, tensão e silêncio. Evitavam se olhar, pareciam prever algo. A moça que tinha sido a primeira a se deparar com o suposto arrombamento do apartamento os esperava no prédio em frente, trêmula. Disse ter visto, há pouco, desafetos rondando a residência. Talvez tivessem sido alucinações.

Em rápida reunião de estratégia, os dois rapazes decidiram por dispensar a ajuda policial. As moças permaneceram no andar térreo, abraçadas como se fosse a única coisa que pudessem fazer, e eles subiram as escadas a passos firmes para iniciar o trabalho de investigação. De fato, a porta estava aberta.

Conversando apenas com gestos e olhares para manterem-se imperceptíveis ao possível inimigo, os dois iniciaram o processo de perícia para avaliar a possibilidade de a entrada ter sido arrombada. A discrição da atuação daria inveja aos investigadores da série CSI. Concluíram: não havia danos, a madeira estava no mais perfeito estado. A lingueta da fechadura da chave tetra, no entanto, estava visível: a chave fora girada – observação digna de fazer inveja a Sherlock Holmes e Doutor Watson.

Assim, seguros, mas sem qualquer equipamento de proteção corporal tal como atua o morcegão Bruce Wayne, os agentes amadores acenderam as luzes e adentraram o apartamento. Enquanto um vistoriava os quartos, sem deixar de conferir qualquer local onde fosse possível um ser humano se esconder, o outro passava um pente fino na cozinha e área de serviço. Anunciaram, orgulhosos, às moradoras: o local estava livre de qualquer perigo. Desde então, as moças os tratam pelo sincero e justo vocativo heróis.

Talvez a história não tenha tido exatamente esse nível de emoção e testosterona. Nem foi difícil concluir que alguém teve a manha de trancar a chave tetra sem esperar a porta ser completamente fechada e foi embora sem perceber a bobagem. Mas a lição que ficou é a de que vidas correm perigo a todo o tempo. E os olhos dos mais corajosos precisam estar atentos para manter a sociedade segura.