sábado, 18 de setembro de 2010

Tratado sobre Maicou


A sociedade é repleta de padrões. O consumo, as vontades e as predileções seguem tendências tradicionalmente impostas e assim formam-se os ideais de perfeição. Até mesmo onde as preferências pessoais mais deveriam se impor, nos relacionamentos afetivos homem-mulher, entende-se que é o senso comum quem dita as ordens. Entretanto, após contundentes diálogos com um amigo, aprendi a desmistificar concepções coletivas, o que discorrerei neste breve ensaio.

Maicou é um grande companheiro, desde os antigos tempos de faculdade. Um cara inteligentíssimo, animado, bem-humorado, só não é um exemplo de beleza grega. Hoje, maduros, nós frequentemente desenvolvemos longas divagações que abordam os mais complexos temas – entre eles, claro, o cotidiano das relações humanas. E foi por meio das experiências pessoais e da história de vida de meu amigo que pude derrubar, uma a uma, antigas teses tomadas como verdade até então.

Quando pré-adolescente e no início da juventude, me lamentava por não ter o dom da habilidade esportiva. Pensava que os rapazes com razoável desempenho em partidas de futebol teriam chances consideravelmente maiores que as minhas no início do trato com o sexo oposto. Esbravejei contra minha falta de intimidade com o gol, culpei meus pais por não terem me matriculado em uma escolinha de futebol quando eu ainda era criança, receei não ser um bom representante da espécie homem brasileiro bom de bola.

Maicou é um excelente jogador, o melhor goleiro que vi atuar. Tem bom domínio, visão de jogo, chuta bem, além de transmitir segurança à equipe quando está embaixo das traves. Titular do time da escola, do curso. Mas Maicou não foi feliz no quesito ser alvo da torcida feminina e não teve um início precoce com o mundo das mulheres como eu poderia imaginar. Não foi procurado por marias-chuteiras sedentas de fama e dinheiro. Segundo ele próprio, porque mais que saber jogar futebol, é preciso também ser bonito.

Nunca me dei bem com a música. Fiz aulas de piano, até esbocei uma apresentação para as mães dos outros alunos da minha professora. Larguei mão enquanto era tempo, não nasci para as partituras. Outro ponto forte que poderia me levar a ser notado pela sociedade foi deixado de lado cedo. Mas Maicou, pelo contrário, é um músico de grande reconhecimento social. Dedilha violão, guitarra, contrabaixo, viola e cavaquinho com maestria e aventura-se com qualquer instrumento que tenha teclas ou possibilite um batuque. Maicou tem banda, toca em bares, anima rodinhas de violão. Seria ele então o típico centro das atenções das mulheres nas noites boêmias? Não exatamente. Porque, segundo ele próprio, mais que músico, para isso é preciso também ser bonito.

Eu escrevo crônicas, arrisco uns contos. Mas não crio poemas, não gosto e não sei lidar com a lírica clássica. E poetas são charmosos, transmitem a intelectualidade necessária para mexer com os instintos íntimos de qualquer fêmea. Outra bola fora para mim. Mas não para Maicou. Maicou é poeta desde a juventude, tem incontáveis textos escritos. E mais: musica poemas, transformando-os em singelas canções de amor. Só que, incoerentemente, as fãs de literatura não batem à sua porta em busca de ouvir, a sussurros, poemas ao pé do ouvido. A explicação, segundo ele próprio, é que mais que a inspiração poética, é a beleza quem fala mais alto.

Minha altura não me incomoda. Sou baixo, mas não anão. Tenho um amigo, do meu tamanho, que diz que a vida dele seria outra se tivesse dez centímetros a mais. Seria mais percebido por onde passasse, faria sucesso em casas de show, alvo de olhares femininos de cobiça. Pode ser. Mas, adivinhem só, Maicou tem mais de dez centímetros a mais do que eu – logo, também a mais que meu amigo – e não é o tipo de homem caçado em boates e bares. Maicou justifica com a afirmação de que, para que os holofotes iluminem um único rosto, mais que atrelado a um corpo grande, é necessário ser delineado por um nível consideravelmente alto de beleza.

E Maicou não é um sujeito rejeitado pelas mulheres. Chega a fazer certo sucesso em determinados núcleos. Mas, sem dúvidas, sua história de vida pode ser usada para derrubar mitos sociais.

As concepções antes previamente aceitas de que mulheres buscam homens altos, músicos, jogadores de futebol ou com o dom da poesia romântica para mim já não são válidas. Com um único exemplo, alcei a conclusão de que ser bonito é sim fundamental. Nem mesmo as ideias de ser rico ou ter carro me fazem desviar do novo raciocínio, construído com base em concreta análise de caso. Inicia-se um novo tempo. Obrigado, Maicou.

2 comentários:

ThiagoFC disse...

Por seus posicionamentos políticos, literários, musicais, filosóficos e futebolísticos, Maicou é quase o "Doutor Sócrates" do jornalismo uefevense. Só faltou ser irmão de alguém parecido com o Raí.

Sobre a beleza, quero deixar a pérola de sabedoria do filósofo, arquiteto e cantor, nascido no Ceará, Falcão, em referência a Vinícius de Morais (por sua vez: poeta, músico e diplomata): "As bonitas que me desculpem, mas a feiura é de lascar".

Blog do Cano disse...

Como já dizia uma patota de jovens com quem convivia antigamente: Este é o Maicou.