terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Bodas de diamante


A primeira vez em que ela o viu foi em uma daquelas ladeiras estreitas, no início de noite de sexta-feira de Carnaval. Foi rápido, o caminho deles se cruzou, mas ele nem a notou, estava com alguns amigos, abraçados, rindo por algum caso bobo. Ele chamou a atenção dela, que diminuiu o ritmo do passo, parou a descida e o acompanhou com os olhos até que ele se perdesse em meio à multidão morro acima. Coisa de instantes. E ela, que tinha ido pela primeira a vez a Diamantina para se divertir com as amigas, sentiu uma sensação diferente e, pode-se dizer, bastante inesperada.

Já há algum tempo ela não saía muito de casa, tinha tido problemas no relacionamento anterior e o trabalho e o a faculdade ultimamente a tomavam todo o tempo. Até que decidiu acompanhar as amigas na viagem até a famosa cidade histórica pro Carnaval – faria bem distrair um pouco. Jamais esperou encontrar alguém especial.

Tudo muito divertido, uma infinidade de novos amigos, brincadeiras e Berolas do Gilmar. Eis que, na madrugada do sábado, quando o Barracão já comandava o som da Bartucada na Praça do Mercado e cantava “Eu quero esse amor”, ela o viu novamente. Era ele, não teve dúvidas. Resolveu chegar mais perto, como quem não quer nada, para ver como ele era de verdade e, quem sabe, ser percebida. Mas a ideia não deu certo. Tinha gente demais entre eles e, minutos depois, quando ela chegou aonde ele estava, o rapaz já tinha sumido. Meio frustrada, achou que estava ficando era louca.

Ela relevou, não podia estar gostando de alguém que nem conhecia. Ainda mais dadas as circunstâncias. Resolveu seguir os conselhos das amigas, desencanar e curtir o Carnaval. E foi o que ela fez. Mas só até a tarde de domingo, quando, no auge do Bar do Titi, avistou outra vez o tal moço. Tomou um susto, dessa vez eles estavam muito perto um do outro. Os óculos escuros não enganavam, era o cara que há dois dias frequentava os pensamentos dela. Talvez fosse a hora certa de rolar alguma coisa. Talvez se ele não estivesse tão embriagado. Mal conseguindo caminhar, ele ficou pouco tempo e partiu, ajudado por um amigo. Ela ficou, sem saber o que sentir.

Na segunda-feira, outra vez os caminhos deles se cruzaram, no samba na Baiúca. E dessa vez ele estava sóbrio! Mas acompanhado. Ela sentiu um calafrio quando o viu com uma garota (na verdade, nem soube se eles se beijaram, preferiu trocar sua rota antes). Já estava intrigada, os encontros – ou desencontros – estavam atrapalhando seu Carnaval.

Já era noite de terça e os tambores da Bat-Caverna ecoavam por toda a terra de JK. Ela foi discretamente avisada pelas amigas que um rapaz a observava, a alguns metros. Quando se virou, não acreditou: era ele. Estava com os amigos, brincavam como crianças entre si e cantavam uma música aparentemente sem sentido. Ele a olhou algumas vezes. Ela também. Ele sorriu. E ela correspondeu. Ele caminhou em direção a ela tentando vencer a multidão. Ela se encheu de expectativas. A música cessou, luzes se apagaram e o grande holofote redondo iluminou o alto do casarão.

Ela olhou a luz e, quando tentou mirar o rapaz, não mais o viu. Ele não veio. Talvez ela tenha entendido errado, o sorriso nem deveria ter sido para ela. O Batman apareceu lá no alto, cantou uma canção de amor e desceu ao palco atado aos cabos da tirolesa, embalado pelo tema do seriado tocado a todo vapor pela banda. Durante a descida do Morcego, ele rapidamente olhou para ela e ela teve a impressão de que ele cantou uma música inteira sem tirar os olhos dela. Tinha mesmo ficado louca.

A moça e o rapaz nunca mais se viram. Quem sabe o ônibus para a cidade dele saiu na terça-feira, logo após eles terem se visto e ele teve, a contragosto, que ir. Quem sabe o destino preferiu separá-los a dar a eles só uma noite juntos. Na Quarta-feira de Cinzas ela voltou pra casa, cansada, exaustada, feliz e com a sensação de que o Carnaval tinha sido inesquecível. E com a sensação de que se apaixonara pelo Batman. Não o vocalista da Bat-Caverna, que desceu e fez um show sensacional. Mas o verdadeiro Wayne, que poderia estar lá e ter tido que deixar a terra dos diamantes às pressas rumo a Gotham City para atender algum chamado urgente disparado via holofote pelo mordomo Alfred. Sei lá, assim ficava mais fácil aceitar as coisas.

domingo, 8 de janeiro de 2012

A Corrida da Chuva


São Pedro estava a postos para a largada. Ele se sentia o máximo com o capacete preto, os óculos escuros e a bandeira na mão. Os competidores estavam ansiosos para o início da corrida. Ao primeiro movimento de braço do santo do tempo, as gotas partiram das nuvens rumo ao solo da Terra na maior velocidade possível. São Pedro sorriu um riso agradável, a prova tinha tudo para ser das melhores de todos os tempos.

Um pingo estava especialmente confiante. A Corrida da Chuva era coisa séria e ele havia se preparado e estudado seus concorrentes e as técnicas dos vencedores das outras edições da competição. Em princípio, uma grande quantidade de gotas dividia a linha de frente da enorme tempestade que se iniciaria.

O pingo acreditava que era o dia dele. Dava rápidas olhadas para os concorrentes e imprimia todo seu micropeso na parte da frente do corpo, que alcançaria o chão primeiro. Ele acreditava que concentração é a palavra-chave para vencer uma disputa de velocidade individual.

O solo se aproximava e o pingo forçou o máximo que conseguiu e, pouco a pouco, se distanciou alguns milímetros das outras gotas. Era o seu dia de vitória como atleta profissional. Deu um grito vazio e molhado, prestes a tocar o chão e ser aclamado o campeão da Corrida da Chuva. Um instante depois, o pingo explodiu num barranco antes de todo mundo e foi transformado em minúsculas gotículas. Em seguida, os outros pingos atingiram a superfície da Terra e, juntos, formaram uma enorme massa de água.

Aí não teve mais graça, porque o barranco cedeu e levou dor e tristeza a muita gente. Mas não era essa a intenção dos pingos, coitados. Agora eles torcem para que a chuva seja um sinal de esperança de que a situação será vencida e de que tempos melhores estão por vir.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Dia 25

Já era manhã do dia 25 quando ele chegou de volta à casa, depois de uma longa e cansativa noite de trabalho. O dia já estava claro e, ao longe, o Sol forte iluminava a imensidão branca e fria. O corpo doía, o esforço fora grande. Ele sabia que já não era mais um mocinho e precisava se cuidar, mas o bem que o ofício lhe fazia era tamanho que ele desafiava a própria saúde, ano após ano.

Embora o sono pesasse seus olhos, ainda não era hora de dormir. Acomodou seus companheiros de jornada, os animais, nos aposentos deles e não saiu de lá até certificar-se de que todos estavam bem, que suportaram a pesada madrugada de labuta. Alimentou e deu de beber a um por um – era o mínimo que poderia fazer aos que o levaram com a força do corpo aonde ele pediu durante horas. Abaixado, conferiu os cascos, sarou pequenas feridas nos couros dos bichos abertas por passagens em lugares de difícil acesso. Com certa dificuldade, levantou-se, afagou a cabeça de um deles e sorriu. Depois, caminhou, a passos lentos, rumo à casa.

Enquanto suas botas quebravam a fina camada de gelo no chão entre o estábulo e o lar, ele olhava, orgulhoso, o saco vazio em suas mãos e lembrava-se da noite. A avaliação fora bem positiva, conseguira deixar algo de especial por onde passara. Um menino ganhou um carrinho de controle remoto, uma menina recebeu a boneca que falava. Um rapaz foi surpreendido com um boné que paquerou durante meses na vitrine de uma loja e uma senhora trocou a geladeira depois de algumas décadas. Um pai de família ganhou um emprego melhor, uma jovem estava muito feliz com o novo namorado e dois irmãos conseguiram abrir uma empresa. Um andarilho matou a fome com um prato de sopa quente e um casal brigado se entendeu outra vez.

Em casa, deixou o gorro em uma cadeira de madeira perto da porta, enquanto tirava as botas. Levou o casaco e as calças vermelhas à lavanderia. Como nos outros anos, chegou a cogitar abandonar o posto, mas sabia que, quando se levantasse, estaria melhor e veria que tudo valeu a pena. Pensou ainda em comer algo antes de se render ao cansaço, mas as energias que tinha no corpo só foram suficientes para que ele chegasse ao quarto. Só acordaria à noite. Antes de se entregar ao sono, porém, o velho Noel verificou, sem muita esperança, suas meias penduradas perto da janela. Vazias. Por mais um ano, ninguém se lembrara dele.

Mas dormiu feliz, mesmo assim. O que importava para ele era que os outros pudessem ter um feliz Natal. E o que cabia a ele, ele tinha feito.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Sobre Viçosa, uma crônica e interpretação de textos



Há alguns dias, escrevi uma crônica que marcou minha simples carreira como escritor e mudou pra sempre a história deste blog. E o melhor de tudo: escrevi de forma sincera, despretensiosa, sobre algo que eu conheço e realmente gosto, a cidade de Viçosa e a UFV. Se alguém não sabe e se interessou em saber, sou formado em Comunicação Social pela Universidade Federal de Viçosa e morei lá de 2004 a 2007. Sem o menor pingo de dúvida, os melhores anos da minha vida.

Após a formatura, ganhei o mundo. E, vez ou outra, retorno a Viçosa. Algumas coisas mudam, claro, mas sempre sinto que a essência do lugar continua a mesma. Um fim de semana antes da fatídica crônica, voltei, depois de anos, a uma Cervejada. Foi diferente, já não conhecia mais quase ninguém, mas foi emocionante ver que tantas pessoas estavam vivendo o que um dia eu vivi naquela mesma lama. Dias antes, eu havia recebido a pior notícia do ano: um grande amigo dos tempos da faculdade havia deixado este mundo. O baque com o falecimento de uma pessoa especial contribuiu para que eu refletisse o quão importante foram pra mim os momentos passados nesse pontinho da Zona da Mata mineira.

Assim surgiu o texto. De forma leve, só pelo prazer de escrever, como tantos outros aqui arquivados. Mas, sem querer, acho que contei a história de vida universitária de muita gente. Gente que chega a Viçosa sem ter muita certeza se vai ficar por lá ou se tomou a decisão mais certa e sai agradecendo a quem quer que acredite como força maior pelo que viveu.

Prova disso é que a crônica foi lida por mais de 11.500 pessoas apenas no dia seguinte à postagem. No facebook, já foi compartilhada mais de 6.000 vezes. Tive o cuidado de não incluir nada pessoal e agora concluo que a essência da vida universitária em Viçosa é a mesma para muita gente. Muitos amigos disseram-se orgulhosos de mim, muitos antigos amigos se manifestaram novamente e muitos conhecidos e desconhecidos me parabenizaram pelo texto. Mas eu não fiz nada, só tentei descrever em palavras o que todo mundo está cansado de saber.

Quero agradecer a todos que comentaram. Todos mesmo. Escritores, por mais amadores que sejam (como eu), precisam de retorno para saber se estão no rumo certo. Foi por meio dessas manifestações que tive certeza de que atingi tanta gente de forma tão positiva. Palavras de ex-moradores da cidade e ex-estudantes da universidade, formandos, futuros alunos, mãe e pai de quem passou ou ainda está lá e nativos. Aos viçosenses que se revoltam com a distância entre o município e o meio acadêmico, digo que a questão merece uma discussão maior e mais séria. Mas a UFV não é, de longe, um problema para Viçosa. E a todos que escreveram de forma anônima, sinto apenas pela covardia. É direito de qualquer um gostar ou não de qualquer texto, qualquer lugar e qualquer pessoa. Mas esconder-se para se posicionar de forma contrária à maioria é uma pena e digno de total falta de credibilidade. De toda forma, os comentários aqui estarão sempre abertos. Inclusive aos anônimos.

Por fim, fui tido como alguém que “conhece poucos lugares”, que “precisa viajar mais”. Não vou entrar nesse mérito, mas, definitivamente, não é o caso. E se a interpretação de texto não é o forte da galera por aí, não me furto a fornecer explicações. Vamos lá. Definitivamente Viçosa não é o lugar mais bonito do mundo. Nem a UFV a melhor universidade. Arrisco-me a dizer que não existem boas cidades, faculdades e nem mesmo empresas. O que existem são pessoas. E as que eu tive a alegria de conhecer e conviver em Viçosa valeram por tudo. Foram, são e serão meus melhores amigos por toda a vida. E é por eles que eu gosto tanto daquela terra.

Se você não teve a mesma sorte que eu, escreva, pinte, cante ou fale sobre o seu lugar, as suas pessoas. Exalte a sua Viçosa! Mostre a todos que em algum lugar do mundo você se sente em casa. Quem sabe mais gente bacana resolve aparecer por lá pra abrilhantar ainda mais o seu local...

Valeu Viçosa, meu eterno vício.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Como o Corinthians venceu o melhor Brasileiro da história


Quando o juiz apitou o final do clássico entre Vasco e Flamengo, no Rio de Janeiro, o Pacaembu, em São Paulo, foi tomado por uma explosão de alegria. O Corinthians já era campeão brasileiro, acontecesse o que acontecesse. O principal troféu do futebol brasileiro voltou a ser corinthiano depois de seis anos, no campeonato mais disputado de todos os tempos.

O páreo entre Corinthians e Vasco foi sensacional. O time da Colina deu uma lição de profissionalismo a todos os outros ao, mesmo campeão da Copa do Brasil e garantido na Libertadores da América do próximo ano, lutar até o fim pelos títulos da Sulmericana e do Brasileirão. Ao contrário do que fizeram, por exemplo, o próprio Corinthians e o Santos nos dois últimos anos.

O Vasco tem um novo ídolo: o craque zagueiro Dedé. Diferenciado, defende, arma, faz gols. Já é um mito entre os cruzmaltinos e parte do crédito pelo excelente ano da equipe pode ser depositada na conta dele. E o time da faixa diagonal apostou em uma combinação sempre eficaz: juventude e experiência. Dois dos maiores ídolos da história estão de volta e jogando muita bola. Parabéns Juninho e Felipe, pelo físico, técnica e dedicação. E o elenco fechado para tentar dar o título ao treinador Ricardo Gomes foi demais.

O Corinthians montou um time pra ser campeão. Aliás, um não, dois. E aí é que foi feita a diferença. Em um campeonato longo, com 38 rodadas, o mais importante é ter grupo. A base é forte: Júlio César, Alessandro, Paulo André, Leandro Castán, Fábio Santos, Ralf, Paulinho, Alex, Emerson, Willian e Liédson. Mas, se precisar, vai de Danilo Fernandes, Welder, Chicão, Wallace, Ramon, Ramirez, Edenílson, Danilo, Morais, Jorge Henrique e Adriano. As peças de reposição são, em geral, de qualidade e deram conta do recado. Foi a vitória da coletividade. E a torcida, como sempre, fez o que cabe a ela: apoio irrestrito e incondicional.

Outro ponto importante foi manter o técnico Tite, que nunca esteve de bem com a torcida. Com a eliminação prematura na Libertadores, todos queriam a cabeça do comandante, mas a diretoria acertou em confiar no trabalho dele e deixar que ele montasse seu time. Em pouco tempo, o Corinthians chegou à final do Paulista, ainda com o time em formação, e viu o título ficar com o excelente Santos. O Santos que foi coadjuvante neste Brasileiro e só não passou despercebido porque o Neymar foi genial e, quando não estava convocado, estava em campo dando show Brasil afora.

A campanha do Fluminense foi bonita e o Fred é o cara. O Flamengo até que tentou bater de frente com os líderes, mas o time, como um todo, é limitado e depende dos lampejos de genialidade do Ronaldinho Gaúcho e Thiago Neves. O problema que o Flamengo fez festa para o Ronaldinho do Barcelona, mas trouxe mesmo o Ronaldinho do Milan. Altos e baixos, mas ainda assim fora de série. Só não o suficiente para carregar o grupo. O Inter tem time pra fazer mais do que fez. E, apesar do gosto amargo no final, São Paulo e Botafogo montaram boas equipes, mas pecaram demais dentro e fora de campo. O Figueirense não conseguiu nada, mas saiu por cima.

Do Palmeiras e do Grêmio há tempos não se espera muita coisa. O Atlético Mineiro outra vez teve como título a permanência na Série A. A vergonha do Brasileirão 2011 foi o Cruzeiro, com uma campanha pífia. De melhor time do país no começo do ano a virtual rebaixado nas últimas rodadas, fez muito feio. É hora de uma faxina geral na Toca da Raposa. De cima pra baixo.

“Como o Corinthians venceu o melhor Brasileiro da história” é, na verdade, a manchete de uma revista Placar do final de 1999, ano em que o troféu também terminou no Parque São Jorge. Mas a edição de 2011 foi, incomparavelmente, melhor. Disputa acirradíssima, times fortes e rodadas emocionantes. Oscilações na tabela todo o tempo. Em campo, desfile de craques como Dedé e Neymar, Ralf e Ronaldinho, Fred e Lucas, Leandro Damião, Loco Abreu e Montillo.

Para o Corinthians, foi especial. Montou um time pra ser campeão e foi. Com todos os méritos, brigando pela ponta do começo ao fim. Mas infelizmente o saldo do domingo é negativo para a nação alvinegra. O Corinthians tem uma taça a mais e um ídolo a menos. Um mito tão vencedor foi derrotado de vez pelo álcool. Esse jamais será esquecido. Punho direito cerrado erguido eternamente dentro dos nossos corações.

Descanse em paz, Doutor Sócrates.

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Viçosa viçosa




Você sabe exatamente o que significa “viçoso”? Em uma rápida pesquisa pelos dicionários, é possível coletar definições como “coberto de verdura, de vegetação exuberante”, “que está no pleno vigor da sua beleza vegetal” e “cheio de vigor, de força, de mocidade”. Quer dizer então que, em bom português, uma cidade viçosa é um local bonito, certo? Se estivermos falando do mesmo lugar, é muito mais do que isso.

Viçosa é uma cidade que se desenvolve acompanhando avanços acadêmicos. A Universidade Federal de Viçosa, a UFV, verdade seja dita, quase sempre é a última opção de quem quer cursar uma graduação. Muitos chegam pensando em sair, tentar a sorte em uma faculdade de cidade maior. Mal sabem o quanto vão se apaixonar por esse pequeno fim de mundo.

Em Viçosa aportam pessoas de todos os cantos do universo. E por lá se ouvem todos os sotaques, o que já sugere brincadeiras entre os colegas. Do “r” dos paulistas ao cantado dos baianos, passando pelo “s” dos cariocas e o português diferente dos africanos, conhece-se gente de todas as culturas. E faz-se todo tipo de amizades entre idas e vindas ao PVA e ao PVB, entre horas de estudo (e cochilos) na biblioteca, entre tardes de conversa fiada (e cochilos) no gramado do DCE.

Se você passar um tempo por lá, são esses amigos que estarão ao seu lado nas milhares de festas. São eles que vão te ajudar a entender as matérias que não entram na sua cabeça, colocar seu nome nos trabalhos quando você faltar, vão rir e cuidar de você bêbado e te acompanhar ao Hospital São Sebastião quando você estiver mal. Eles vão te ouvir chorar quando você terminar um namoro. E estar com você em alguma balada no outro dia levantando seu astral. Serão suas mães, pais e irmãos por alguns anos e seus melhores amigos pra vida inteira.

Viçosa talvez seja o último lugar do mundo onde as pessoas andam de chinelos pelas ruas. Onde a bicicleta ainda é o meio de transporte mais utilizado. A vida por lá é muito mais simples. Onde as festas custam barato.

E que tal esperar todo o semestre por uma festa na lama? A Cervejada, marca registrada de Viçosa, é, provavelmente, a coisa mais singular desse lugar único. Uma balada à tarde, em meio ao barro, em que se veste cuidadosamente a pior roupa, que dificilmente vai ser usada de novo. Só quem já foi sabe que a diversão é mais do que certa, mesmo você voltando pra casa bonito como um monstro do pântano, carregando mato em todos os cantinhos do corpo e sabendo que vai achar lama na orelha por uma semana. Fora as escoriações pelas pernas e braços. E como vale a pena!

Lá, todo mundo tem um bar favorito. E no Leão não tem como não se sentir em casa. Há bêbados nas ruas aos montes e dá pra ficar amigo de boa parte deles. Tem uma marcha estudantil que carrega protestos e folia. Que se desdobrou em uma micareta de nível nacional e em uma festa em que a galera fica mais louca que a Liga da Justiça inteira.

A UFV é linda. As quatro pilastras são como um portal para um universo paralelo. A reta arborizada toca de leve a alma de quem caminha até os prédios. O Recanto das Cigarras é o orgulho maior de todo estudante, onde se levam amigos e parentes de fora para mostrar a maravilha que é estar em Viçosa. O RU pode não ter a melhor comida do mundo, mas salva a vida de muita gente por um preço módico. E é um excelente local para se esbarrar com todos da universidade – companhia para almoçar nunca falta. Há um campeonato de futsal entre os cursos que mexe com o coração da galera. E uma lagoa poluída que, em ocasiões especiais, serve para nadar. Em Viçosa agroboys, nerds, bichos-grilos e patricinhas convivem pacificamente. Até na mesma república, se for o caso.

A foto com os formandos em frente ao Bernardão (para quem consegue acordar cedo no dia, claro) é um espetáculo à parte. Ver seu nome e foto em uma página do livro de biografias com sua história na cidade é muito bacana. E, para coroar a estadia nessa terra encantada, fecha-se o ciclo com o maior baile de formatura que se tem notícia nas galáxias. O mais luxuoso, o mais animado, o melhor do mundo. Aquele em que, de tão grande, três anos depois quem foi ainda vai descobrir atrações que não viu. E, cá entre nós, ver a UFV no topo todo ano quando sai o ranking das melhores universidades do Brasil dá um orgulho!

Na despedida de Viçosa, é bem possível que você ache que nunca mais vai ser tão feliz como lá. E você vai estar certo. É que lá tudo é diferente. Serão os melhores anos da sua vida, você vai conhecer as melhores pessoas e a saudade de tudo vai bater todos os dias, em alguns mais fortes do que outros. Então agradeça a Deus por ter sido escolhido por ele para viver, por um tempo que seja, no paraíso. Sempre que puder, volte à cidade “cheia de vigor, de força, de mocidade”. Você vai conhecer mais gente encantadora e rever muitos dos guerreiros das antigas. Aí é só calçar um par de chinelos e abrir uma cerveja. Se tiver uma pocinha de lama por perto, melhor ainda.

sábado, 19 de novembro de 2011

Vestidos


Tudo corria às mil maravilhas no namoro do Gilberto e da Paula. Juntos há um mês, tudo era motivo para sorrisos e para quererem estar juntos. Parecia que dessa vez, enfim, tinham encontrado as pessoas certas. Já haviam sido apresentados aos amigos do outro, aos pais e estavam com uma viagem marcada pra ele conhecer a avó dela, numa cidadezinha pequena. A rotina dos dois mudou desde o início do namoro e girava em torno de cinema, teatro, filmes em casa, barzinhos e idas ao clube. O Gilberto estava orgulhoso porque apresentaria a Paula, de quem ele tanto falava, aos colegas da empresa na festa de fim de ano.

A Paula estava um pouco insegura, queria causar uma boa impressão com o pessoal do trabalho do namorado. Demorou dias para escolher uma roupa que considerasse ideal para a ocasião. Revirou o estoque de todas as lojas do centro e passou uma semana indo ao shopping todos os dias, até que se decidiu por um vestido verde, bonito, elegante, nem curto nem justo demais. No dia, ela caprichou na maquiagem e estava pronta pontualmente às nove à espera do Gilberto. Quando ele chegou, do carro mesmo disse que ela estava especialmente linda.

Na festa, o Gilberto fez questão de passar de mesa em mesa apresentando a namorada. Peito inflado de orgulho, exibia sua morena como um troféu – e ela achava isso a coisa mais bonitinha do mundo. Todos foram simpáticos, diziam que estavam ansiosos em conhecê-la porque ele falava muito dela e convidavam os pombinhos a sentarem-se com eles. Foi assim com o pessoal do financeiro, do RH, dos serviços gerais e da gerência. Mas antes de se decidir por onde ficar, Gilberto tomou a Paula pela mão para levá-la à mesa do Afonso, o patrão. Seu Afonso levantou-se para cumprimentar o funcionário e conhecer sua famosa namorada, e junto com ele, a esposa, Sílvia. Enquanto Gilberto e Afonso abraçavam-se, com direito a tapinha nas costas e tudo, Paula esboçou um aceno de mão e um risinho para Sílvia, até que teve a pior visão de sua vida: a mulher do patrão do namorado trajava exatamente o mesmo vestido verde que ela. O mesmo decote, a mesma alça direita com linhas douradas, o mesmo detalhe na perna esquerda. O mesmo vestido que ela custou tanto para encontrar, que ela achou chique, discreto e que valorizava suas pernas. O mesmo vestido que custou quase metade do salário e foi dividido em seis vezes no cartão.

O sorriso da Paula desmoronou. O da Sílvia também, que ficou séria, com olhos arregalados e boca aberta. Paula virou as costas, pôs-se a chorar e correu para a rua. Quando o Gilberto percebeu, ela já estava lá fora, com a maquiagem borradíssima e os olhos inchados e vermelhos. Lá foi ele, enquanto Afonso abraçava Sílvia e a pedia secretamente para tentar manter a postura perante os empregados. A Paula não parou de chorar, não queria conversa e exigiu que o Gilberto a levasse de volta para casa. Ele tentou argumentar, mas ela, aos soluços, foi irredutível. Em meia hora o Afonso alegou um mal estar e também deixou a festa, com a família.

Em frente ao apartamento dela, Paula pediu desculpas a Gilberto por ter estragado a noite dele, mas ele relevou, ainda tentava confortá-la. Por fim, ela disse que não queria mais vê-lo, o namoro não daria mais certo depois da humilhação. Alegou que nunca mais ela conseguiria encontrar com os colegas dele à vontade. Rosto molhado por lágrimas, Paula deixou o carro e entrou em casa. Chorou toda a noite. E nunca mais falou com Gilberto.

Triste, o Gilberto decidiu voltar à festa para ver como tinha ficado o clima. Quando chegou, a banda contratada já tinha começado a tocar e o pessoal já estava dançando animado e bebendo bastante. Foi aí que o Gilberto viu o Jonas, seu melhor amigo na empresa, que chegou atrasado e nem estava sabendo da confusão com a mulher do patrão. Por ironia do destino, Gilberto e o Jonas vestiam a mesma camisa azul. Igualzinha, sem tirar nem por nada. E, ao perceber, o Jonas gritou: “ô meu parceiro, vamos fazer uma dupla sertaneja?”, seguido de uma risada escandalosa. Sem perder tempo, Jonas, espirituoso, pediu à banda para cantarem uma moda juntos.

E não é que eles levaram jeito para a coisa? A galera gostou e eles cantaram a noite inteira. Depois, começaram a fazer pequenas apresentações, ensaiar com músicos profissionais e decidiram deixar a empresa para investir na carreira. Hoje, Jonas e Gilberto é uma das duplas mais famosas da região e o hit “Vestidos iguais” é o mais tocado em todas as rádios, todo mundo sabe a letra na ponta da língua. E a Paula chora toda vez que ouve, coitada.