terça-feira, 3 de julho de 2012

Dia 5 de julho eu vou acordar corinthiano


Dia 5 de julho de 2012 eu vou acordar corinthiano. Tenho certeza, eu vou acordar corinthiano. Corinthiano como eu acordei em 15 de janeiro de 2000, na manhã seguinte à noite em que o então presidente da Fifa, Joseph Blatter, entregou a taça de campeão mundial nas mãos do eterno capitão Freddy Rincón, que a ergueu para coroar o ápice de uma geração vencedora e firmar o Corinthians no mais alto degrau do futebol internacional.

Dia 5 de julho eu vou acordar corinthiano. Como eu acordei na segunda-feira, 5 de dezembro do último ano, campeão brasileiro depois de uma campanha impecável. Vou acordar corinthiano como eu acordei após os Brasileiros de 2005, 99, 98 e 90. E igualmente corinthiano depois dos campeonatos de 2002 e 93. Corinthiano como eu acordei após as finais das Copas do Brasil de 95, 2002 e 2009 e como as de 2001 e 2008.

Dia 5 de julho eu vou acordar tão corinthiano quanto acordei no dia 3 de dezembro de 2007, algumas horas depois de ver o Gigante tombar contra o Grêmio no Olímpico e ser condenado a ficar apartado das grandes forças do país por uma temporada. Tão corinthiano como quando o modesto colombiano Tolima adiou por mais um ano o sonho da conquista da América. Ou quando o papel de algoz foi encenado pelo Flamengo ou as doídas vezes de River Plate e Palmeiras.

Dia 5 de julho eu vou acordar corinthiano. Como quando vibrei com as embaixadinhas do Edilson, a pintura do Ronaldo na Vila Belmiro, todas as arrancadas do Tévez e os gols de falta do Marcelinho. Posso até não ver visto o jogo, mas afirmo que dia 5 de julho vou acordar tão corinthiano como acordaria em outubro de 77, um dia depois da final do Paulista e do antológico gol do Basílio. Ah, 77! Ou como depois do bicampeonato de 82/83 pela Democracia Corinthiana de Sócrates e Casagrande ou o título do IV Centenário de São Paulo, disputado em 55, com o time de Cláudio e Luizinho. Ou a dolorosa despedida de Rivellino em 74. Corinthiano como acordaria se tivesse sido mais um na invasão do Maracanã em 76.

Dia 5 de julho eu vou acordar corinthiano. Porque o Tite vai estar no comando. Porque sei que, quando precisou, o Paulinho, o Emerson e o Danilo resolveram. Porque o tempo todo sabia que podia confiar no Ralf e no Castán. Porque o Cássio deu conta do recado e tirou o gol do Diego Souza. Porque o Alessandro segurou o Neymar. Porque o Chicão é um líder e o Alex, o Jorge Henrique e o Liédson compõem a alma vencedora do time. Porque o Romarinho tem estrela e ainda vem mais coisa boa desse moleque.

Dia 5 de julho eu vou acordar corinthiano. Porque eu faço parte de uma nação, de 30 milhões de loucos, que conseguiu unir o Brasil contra ela, deixando, mais do que nunca, o país só com duas torcidas. Porque eu torço por um time que dobrou, um a um, todos seus críticos com um futebol compacto e eficiente.

Dia 4 de julho eu vou acordar corinthiano, sem nunca ter precisado ganhar uma Libertadores para isso. Dia 5 de julho, aconteça o que acontecer no dia anterior, eu vou acordar corinthiano como sempre. Talvez só um pouco mais rouco.

domingo, 24 de junho de 2012

Mais sério do que nunca


Era manhã de segunda-feira e Carina havia acabado de chegar ao escritório, sorridente e esbanjando disposição para trabalhar. A advogada acenou para o porteiro, sorriu simpaticamente para a secretária, cumprimentou os colegas, guardou a bolsa preta no armário e ligou o ar-condicionado da sala e o computador.  Como de praxe, ela abriu a caixa de e-mails e inesperadamente encontrou uma mensagem recém-enviada pelo André.

Carina e André namoraram por uns meses e terminaram amigos. Vez por outra ainda se falam e já até saíram juntos outras poucas vezes. Há um tempo chegaram a cogitar retomar o relacionamento, mas temiam que os problemas que ruíram o namoro – a imaturidade dele e a falta de tempo dela – os afastasse em definitivo. O André não era de escrever e só mandava e-mails com piadinhas infantis e textos bobos e de gosto duvidoso. Mas aquele foi diferente, a começar pelo impactante e enigmático título “Mais sério do que nunca”.



Carina,

Pensei muito antes de te escrever. A verdade é que cada vez que a gente se fala, você mexe comigo. Eu nunca te esqueci e acho que esse tempo separados me fez ter certeza de algumas coisas. E é sobre elas que eu quero conversar com você. Pessoalmente. Quando puder, me encontre. A qualquer hora, em qualquer lugar. Preciso te ver.

Eu tenho pensado em tudo que distanciou a gente, Carina. Talvez eu tivesse mesmo alguns comportamentos inadequados. E tô disposto a mudar, a ser um cara melhor. Uma pessoa à altura de uma mulher tão especial como você. Já tomei algumas decisões sobre isso. Quero apresentá-las a você e ouvir suas opiniões. Pode ser cedo, antes do seu trabalho. Pode ser tarde da noite, quando você sair do escritório.

O que eu sei é que eu não quero e não vou te perder. Tive a chance de te ter pra mim e não aproveitei. Mas vou fazer o que estiver ao meu alcance pra ter outra oportunidade de construir uma vida a dois com a mulher mais maravilhosa do mundo. Dessa vez, pra sempre. É ao seu lado que eu sou feliz, que eu me sinto completo. Só te peço que você me ouça. Posso ir à sua casa. Ou a gente marca um almoço no shopping. Um passeiozinho até a cachoeira ou aquela comida japonesa que você adora. A prioridade da minha vida é dividir com você, Carina, esses planos e sentimentos guardados aqui comigo.

Eu espero o seu tempo. Quando puder, me liga, me escreva. Pense em mim que eu apareço por perto! Qualquer dia. A qualquer hora.


Ah, menos na quarta à noite, tá? Porque, sabe como é, tem futebol na TV e eu encontro com a galera pra tomar umas, comer petiscos engordurados e gritar uns palavrões, bom pra desestressar. E o campeonato tá cada vez melhor. Pensando bem, na quinta de manhã também não, devo estar meio de ressaca.


Tô no aguardo. Um beijo.

André

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Conto à tróis 3 - parte 3

O Marcos iniciou, o Matheus desenvolveu. Eu concluo!

Como escrever uma canção de amor?

Capítulo 3 - Refrão



O silêncio da madrugada no aeroporto internacional aumentava a sensação de aventura que acompanhava o espírito do jovem Jairo. Em questão de horas, estaria no Paraguai. No check-in, pediu para levar consigo o violão como bagagem de mão, mas não foi autorizado. Pensou que o tempo de espera até o voo no saguão poderia lhe trazer alguma inspiração que se traduzisse em notas musicais, mas, como disse o nem tão simpático homem da companhia aérea, “regras são regras, amigo”.

Sentado, com o olhar fixo sabe-se lá em quê, Jairo pensava por onde andariam suas boas ideias. Lembrava-se da simplicidade com que escrevera suas primeiras canções, de como fluíram naturalmente e foram bem aceitas pela crítica. Teriam cessado de vez, sido só uma fase boa? Agora ele estava só, a menos de meia hora de entrar em um avião rumo a tentar um encontro consigo mesmo em um palco desconhecido. Esboçou um assovio diferente, que lhe agradou aos ouvidos. Emendou um solo na sequência e, quando já acompanhava o som com batidas das palmas da mão e a marcação do ritmo com o pé direito, foi surpreendido sendo fuzilado pelos olhares de um casal de velhinhos bem agasalhados que tentavam dormir no banco ao lado, no salão de embarque. Pediu desculpas e se levantou – aquele princípio de inspiração musical se perderia no tempo.

O voo foi péssimo. Jairo não pregou os olhos, em parte pela crise existencial que vivia, parte pelos barulhos emitidos por um casal de namorados nas poltronas da fileira detrás da dele, que pareciam agarrar-se num ritmo mais intenso do que a situação recomendava. O bloquinho de papel viajou em suas mãos, mas a caneta, no bolso da calça, não registrou qualquer palavra.

Em Assunción, Jairo deu uma volta pela cidade na companhia apenas dos primeiros raios de sol do dia antes de decidir onde hospedar-se. Entrou em um hotel feio e velho do centro e pediu um quarto. Da janela, viu as lojas da rua sendo abertas e o movimento de vai-e-vem de pessoas aumentar aos poucos. Compravam bugigangas das mais variadas, carregavam sacolas e embrulhos. Muita gente tinha cara de brasileiro. Sem sono, abriu a mala, serviu-se de um copinho de cachaça. Era da boa.

Jairo caminhou por ruas e vielas durante o dia, sem saber exatamente o que procurava. No fim da tarde, entrou em uma loja de instrumentos musicais, que surgiu à frente. Enquanto os olhos dele passeavam por violões e banjos, algo diferente o chamou a atenção: a beleza de uma harpa paraguaia, instrumento típico do país. Pediu informações sobre a harpa, pediu para dedilhar. Poucos toques depois, Jairo esboçou algumas das canções compostas por ele. As pessoas que passavam pela rua gostaram, pararam, quiseram saber que músicas eram aquelas. Deram-no um violão e ele, dentro da loja, apresentou todo o repertório próprio, sob aplausos e apertos de mão. Uma experiência, no mínimo, diferente. Muitos abraços e novos conhecidos. Convites para jantar.

A harpa ficou, ele não tinha dinheiro suficiente para levá-la. Jairo jamais esqueceu aquele som claro e limpo. De volta ao hotel, ele escreveu uma canção de amor e chamou-a “Pura”. Jamais contou a ninguém que a dedicava a um instrumento. Em seu último dia como hóspede, conheceu uma bela moça, camareira. Simpática, dona de grossas coxas e um irresistível sotaque castelhano. Quando ele se foi, deixou, sem pretensões, um poema para ela no quarto.

O voo de volta foi de intensa atividade para Jairo. Outra canção escrita, dedicada ao povo paraguaio. Mais uma, que falava de um antigo e discreto hotel, que já abrigara grandes histórias de amor. Uma terceira contava a alegria de dois recém-casados em lua-de-mel no avião e outra narrava a história de um casal de velhinhos que viajariam para conhecer o neto e rever a filha que fora viver em outro país há anos. Uma sobre amizade, intitulada “Regras são regras, amigo”. A última obra produzida nas nuvens – a que alavancou de vez a carreira de compositor de Jairo – tratava do amor entre um hóspede brasileiro e uma camareira paraguaia, que se conheceram pelos trabalhos do destino e jamais se separaram. Na música, ele levava a bela Sarita ao Brasil, onde eles se casavam, tinham um filho, o Juan, e a moça já esperava outro menino no ventre. O poema que Jairo escrevera horas atrás virou refrão.

A canção foi gravada em várias línguas, fez sucesso. Atualmente está entre as mais tocadas no Paraguai. Outro dia, a camareira a ouviu, na voz de um conhecido cantor local. Gostou da música e lembrou-se daquele hóspede com quem trocou poucas palavras há um tempo e que deixou um bilhete bonitinho. Jairo nunca mais parou de escrever, sobre o amor e todas suas faces. Talvez ele tenha conseguido reinventar o amor.

Conto à tróis 3 - parte 2


Como escrever uma canção de amor?

Capítulo 2 - Apenas uma calça jeans

Uma aventura mundo afora?

Parte 2, por Matheus Espíndola, no sempre parceiro Blog do Cano.

Conto à tróis 3 - parte 1


O Conto à tróis chega à sua terceira edição. Dessa vez, faço o desfecho da obra Como escrever uma canção de amor?.

Jairo, um jovem compositor em busca de inspiração para a música. Para a vida.

Parte 1, por Marcos Oliveira, dessa vez publicado no consagrado Sandália e Meia.

domingo, 29 de abril de 2012

A4


Ela estava a postos há algumas semanas, mas ninguém tinha precisado dela ainda. Ela não desanimava, acreditava que seria útil em breve. Fazia planos para um trabalho bem feito e não decepcionar. A vida no interior da impressora não era fácil, mas aquela folha A4, a última da bandeja, tentava ver as coisas de uma forma positiva.

O problema é que a história sempre se repetia: ela esperava pacientemente a vez de subir, conhecer o toner e ganhar o mundo, grafada de letras ou quem sabe uma bela imagem, mas a gaveta era carregada com mais papel e a folha solitária continuava no fundo.  A impressora era a única da repartição, muito usada, e a gerência havia disseminado a cultura da solidariedade corporativa, que instruía os empregados a não esperar que outro tome pequenas atitudes que poderiam melhorar o trabalho de todos – como encher a impressora de folhas.

No começo, a folha aproveitava para trocar ideias com as novas companheiras de bandeja e fazer amizades. Mas, com o tempo, tornou-se amarga. Via outros papéis acabarem de ser colocados na gaveta e, instantes depois, ganharem o mundo.  Não conseguia mais aceitar a injustiça da situação. Calou-se.

Até que surgiu a oportunidade de ser impressa. A folha ficou radiante, quase não se continha, parecia criança à espera da festa de aniversário. Faltavam apenas quatro papéis. Três. Dois. Ela era a próxima! Minutos de expectativa... e a bandeja foi aberta, carregada com uma resma de 500 A4 e ela continuou no fundo. Os sonhos de receber um jato de tinta com versos de Camões ou a conclusão de um trabalho científico deram lugar ao ódio no coração. Ao sentimento de vingança.

Passaram-se mais semanas até a folha ter outra oportunidade de deixar a gaveta. E da próxima vez deu certo. Mas ela não queria mais. Pôs em prática a vingança arquitetada durante dias e noites. Quando foi puxada, entrou na impressora e empacou, antes de receber a tinta. Travou o equipamento, que ficou parado por toda a tarde. A repartição não pôde imprimir mais nada e a rotina de trabalho foi completamente modificada. Chamaram os técnicos, que só apareceram dois dias depois. Dias de caos. E a impressora nunca mais parou de dar problema. Mesmo dilacerada, aquela folha ria em silêncio. Vingara-se dos inúteis que não tinham dado a ela o valor que merecia.



Dizem que assim surgiram impressões chulas que terminam com “a quatro”.

terça-feira, 24 de abril de 2012

Atrás de um caminhão


No princípio da noite de sexta-feira, Maurício Júnior preparava-se para a balada, que prometia. O abadá estava separado, sobre a cama. A expectativa era das melhores. Mauricinho havia intensificado os treinos na academia nas últimas semanas e passado a tarde daquele dia exercitando bíceps e ombros. 

O rapaz tirou a barba com um Mach 3 Turbo para não ter erro e perfumou-se com uma fragrância importada. Montou um moicano com gel. Vestiu a bermuda e calçou os tênis novos. O celular tocou, eram os amigos informando que já estavam na porta. Pegou as chaves do carro e uma garrafa de Absolut – o camarote teria bebidas liberadas, mas o caminho até lá seria regado a vodca e energéticos. Partiu confiante para a micareta e, assim, perdeu as contas de com quantas garotas ficou.

Roberto Júnior nem esperava ir à tal festa. Ele não dava a mínima para shows de axé, não era a onda dele. Acontece que justo no dia recebeu de volta uma grana que tinha emprestado para um amigo há um tempo e não contava que veria outra vez tão cedo. Decidiu torrá-la e a balada do trio elétrico era aonde todo mundo iria no dia. Comprou um ingresso de pista mesmo, o mais barato.

Betinho nunca entrou em uma academia. Não estava exatamente no peso ideal. Em casa, tomou banho rápido e foi. Não fez a barba e passou um desodorante desses de supermercado. Encheu a cara de cerveja e foi de ônibus, cantando umas músicas que não conhecia direito e batucando nas paredes com uma galera que nunca havia visto. Partiu confiante para a micareta e, assim, perdeu as contas de com quantas garotas ficou.



Maurício e Roberto não se conhecem. Mas talvez naquela noite tenham interagido um com o outro, indiretamente, muito mais do que imaginam.