sábado, 4 de abril de 2009

Manual do assentado


A vida na cidade grande exige adaptações. A competitividade está presente em todos os momentos da vida social e, decerto, há mais pessoas que lugares a se sentar nos núcleos urbanos de aglomeração humana. A chance de ficar em pé ao lado de um banco ocupado é ampla e, nestas horas, o tal do Murphy pode querer te perseguir.

Eu desenvolvi minhas próprias técnicas para conseguir e assegurar vaga em assentos — algo muito mais elaborado do que simplesmente chegar antes dos outros. Por exemplo: chega-se cedo à missa, antes até do padre (eu adquiri o costume de ficar lá atrás, nos últimos bancos). Os lugares vão, aos poucos, sumindo, até que o pessoal começa a ficar em pé, também em posições estratégicas — perto do ventilador e/ou da porta.

Começa a missa. A Igreja se enche. Canto de Entrada, Canto de Louvor e... aparece uma velhinha! As velhinhas são, neste caso, o pior inimigo de quem chegou cedo e está lá, tranquilo, agradecendo o dom da vida enquanto se segura para não pegar no cochilo. A velhinha chega e para ao lado do banco. E, caso você seja o primeiro cara da fila, o pessoal começa a te olhar feio, porque, pelo código de ética social, quem deve ceder o lugar é o primeiro da fila. Negar assento a uma velhinha em pleno culto de ação de graças é uma passagem para o inferno sem escala no purgatório. Não dá.

Os idosos valem-se da bengala, da pele enrugada e do reumatismo para chegar atrasados a eventos sociais. E, num estado democrático, isto não é justo. Tem também as mulheres ou casais, que chegam tarde com um nenenzinho no colo — aí vale a mesma regra. Dá até vontade de se oferecer para segurar a criança e deixar os grandões em pé, mas, sinceramente, não sei qual é pior. Por isto, na Igreja, não tenha dúvidas: pode-se até sentar lá atrás, mas nunca fique na ponta. Só isto.

No ônibus as coisas são mais difíceis. Pelo menos os idosos têm lugares só para eles. Mas os velhinhos de 64 anos pagam passagem e vão ficar em pé justamente do seu lado. Por isto, aqui vão duas dicas preciosas caso você já esteja sentado e não deseje com todas as forças se levantar para passar o resto da viagem em pé, cheirando o suvaco de um negão suado, de bigodes e camisa regata cavada e celular com som ligado alto tocando música com refrão perseguidor. Primeiro: sente-se o mais longe possível da roleta. Além de ficar mais perto quando for descer, evita os velhinhos, gestantes e ah!, pode incluir os obesos na lista. Segundo: sente-se à janela. O código de ética diz que o sujeito do corredor é quem se levanta.

Agora vem a parte mais difícil: conseguir um lugar no coletivo quando se está em pé. Aqui a percepção faz toda diferença. É importante conhecer o trajeto do ônibus e reparar nos passageiros. Por exemplo: no caminho entre o trabalho e a casa tem uma faculdade. Assim, deve-se caminhar até o lado de alguém que esteja sentado e tenha cara de universitário. Procure mochilas ou livros — qualquer indício que comprove a suspeita vai servir. Cuidado apenas para não ficar próximo a algum idoso que esteja em pé, já que, quando o estudante levantar (na verdade já deveria ter levantado), a preferência será do velhinho.

O ônibus parou próximo à faculdade e o alvo não desceu. Logo, estuda em outro lugar e está apenas voltando para casa. Mudança de planos radical. Mentalize o próximo local de maior fluxo de pessoas. O hospital! Procure passageiros sentados todos de branco ou que aparentem alguma enfermidade (se vire para perceber isto) ou tristeza exacerbada. Lentamente aproxime-se e monte a guarda. O próximo ponto aproxima-se.

Deu certo? Yes! Agora é só repousar, curtir a paisagem, ler um livro ou ligar o mp3 — e colocar o volume do fone mais alto que o celular do cara em pé com música chata de refrão perseguidor.

3 comentários:

Régis André disse...

Yes!
Ótimas dicas. Mas eu adicionaria um aí: observe se a maior parte dos passageiros costuma descer antes de você, caso contrário você se surpreendera com a chegada súbita do seu destino tendo que passar 'correndo' pelo negão de suvaco suado, velhinhos, enfermos e estudantes. A dica é se postar próximo a saída tão logo perceba que vai ser impossível transpor todos os obstáculos em tempo.

obs.: Post com direito às novas regras ortográficas... isso que é eficiência.

João disse...

Excelente, excelente mesmo! E muito útil pra mim que moro em Viçosa e pego aquele Silvestre lotado, praticamente com lugar cativo debaixo da axila de alguém...

Anônimo disse...

PERFEITO...morri de rir principalmente da velhinha e do ônibus...sempre que eu entro procuro alguém com cara de doente e que vai descer no hospital...mas ainda não desenvolvi a técnica de identificação apurada e na maioria das vezes erro. Mas é assim mesmo achei que só eu me incomodava e que fazia essas coisas....ai,ai,ai...mt bom

beijos jael