quinta-feira, 23 de abril de 2009

Saudades de um cara 9

Saponáceo da Farmácia


Por Matheus Espíndola

A representação humana consagrada para se retratar os anjos, não sei por qual razão, é aquele menininho loiro, de cachinhos, olhos azuis e auréola sobre a cabeça. Pois ao final da avenida PH Rolfs, no interior de um templo divino em forma de farmácia, vive uma figura angelical quase exatamente igual à supracitada — ele mede dois metros de altura.

Uma vez que Viçosa é uma cidade repleta de jovens recém-saídos das asas das mães e que não sabem se virar sozinhos, nada mais corriqueiro do que contrair uma gripe brava, uma mão mutilada ou uma tuberculosezinha. Em quaisquer desses casos, ele mostrou-se a melhor alternativa a quem se recorrer. Por isso, recebeu o apodo de “Saponáceo da Farmácia”.

Para se ter uma ideia de seu método de trabalho, basta imaginar a seguinte situação: Um jovem idiota chega ao balcão do estabelecimento, por exemplo, por assim dizer, com uma micose no saco. Ele está constrangido por causa dessa patologia, mas sabe que o Saponáceo é o único que poderá lhe defender.

“Sabão, tem algo para micose?”

“Posso ver a infecção?”

“Melhor não. É no saco”.

“Pois siga-me até minha sala”.

A tal sala, a bem da verdade, é uma caverna mágica, cheia de mistérios, pirilampos e fadas-madrinhas. Saponáceo, então, evoca alguma santidade, pede inspiração aos deuses da cura, faz uma oração, antes de ordenar às paredes do recinto:

“Abre-te!”

Uma forte luz ofusca as vistas, os tijolos se afastam e do meio deles sai um pequeno embrulho, envolto por plantas e rochas brilhantes, descansando sobre uma almofada árabe azul e dourada.

O Saponáceo abre a embalagem e retira uma caixinha. De dentro dela, uma pomada milagrosa.

“Passe em seu saco”.

Não é preciso nem dizer que, em poucas horas, a pele tem seu aspecto, cor e textura regeneradas. Além de ficar imune, para sempre, de qualquer enfermidade.

Foi mais ou menos assim que o Saponáceo se consagrou. Ele ainda casou-se com uma belíssima moça, com metade de sua altura. Uma linda criança foi gerada, pouco depois.

Ainda hoje, ao se passar por aquele trecho da avenida, é possível ver a linda família de farmacêuticos, rodeada por duendes, borboletas, morcegos e pequenas lacraias, todos trabalhando para promover saúde plena e conforto aos cidadãos!



Nota do editor: em recente visita a Viçosa, tive o prazer de cruzar, em meu caminho, com a família medicinal. Para minha surpresa, o pequeno Saponacinho já se tornou um molecote e corria pela calçada defronte o estabelecimento farmacológico, sob olhares atentos dos pais. E, para minha maior surpresa, a Saponácea carregava nos braços outro Saponacinho, este recém-nascido, sob olhares atentos do poderoso, confiante e orgulhoso Saponáceo.

4 comentários:

Cano disse...

Então a família cresceu mais um pouco!? Que lindo!

Régis André disse...

Eu tenho que dar um depoimento: eu vinha me adoentando vez atrás de outra nos últimos meses. Da última vez eu adqüiri os medicamentos junto ao miraculoso estabelecimento do saponáceo, sendo atendido por ele próprio. O fato é que devido às bençãos emanadas pelo São Sabão, nunca mais estive enfermo desde então...

Ulisses Vasconcellos disse...

E nem voltará a estar.

João disse...

Rapaz, eu sabia que ele era lendário, mas não conhecia toda a extensão da lenda. Mais um mito Viçosense registrado aqui.