terça-feira, 3 de março de 2009

Em busca de um ídolo

Dizem que no Brasil o ano só começa depois do Carnaval. É mais ou menos isso mesmo, pelo menos pelas bandas do litoral capixaba. Desde o Réveillon, em Guriri toda sexta-feira, sábado e domingo teve trio elétrico, com bandas de axé, pagode e forró. Nos dias de fato de Carnaval, o lugar lotou. Meu verão foi animado — mas talvez isso seja assunto para outra hora, outro post.

Agora que as coisas se acalmaram, retorno minhas atenções ao Issoqueeufalei. Vou enfatizar as seções Saudades de um cara, Por Ulisses Vasconcellos (com republicação de textos profissionais) e Cenas do Cotidiano, por sugestão de meu ilustre amigo Ré. Contudo, para a primeira postagem do ano, decidi realizar um antigo projeto e transformei em letras o Em busca de um ídolo, que será apresentado em quatro capítulos.

Capítulo 1 — O comercial


Era uma das metas a que eu e meu amigo Moicano tínhamos nos proposto a cumprir antes de receber o diploma de graduação universitária e deixar Viçosa para sempre: assistir a um show do Mc Buchecha. Num fim de tarde despretensioso de inverno eu assistia TV em casa, recuperando minhas forças para mais dias de intenso estudo. De repente uma propaganda me atraiu a atenção. “Festa da Cidade de Guiricema. Dia tal, não sei quem; dia tal, não sei quem; e dia taaal, Buuuchecha” – anunciou, eufórico, o narrador, como se estivesse à minha frente, piscando um olho para mim e dizendo: “Vai que é tua, garoto!”.

Falei com o Cano, que, prontamente, acatou a ideia de participarmos do evento. O próximo passo foi lembrar que dia da semana era o show e descobrir onde era a tal Guiricema. Fizemos busca online e, no domínio oficial do Mc na internet, deparei-me, no submenu Agenda, com a inscrição “Sexta-feira — Guiricema (A confirmar)”. Esta maldita ressalva entre parênteses nos fez perder o sono e pensar em desistir. Mas ainda não, era cedo demais. Puxamos pela memória e recordamos que nosso companheiro Lilli 1, certa vez havia se envolvido com uma mocinha da cidade em que pretendíamos aportar.

Saímos à caça dela dia e noite — e a encontramos no diversificado e excêntrico Bar Saliva’s, em meio a uma noite de curtição jovial. Ela nos confirmou a grande atração do funk em sua terra natal, contudo revelou não gostar do estilo e declarou que sequer daria as caras na festa. “Mandou mal”, pensamos, enquanto ouvíamos detalhadamente as indicações de que conduções deveríamos nos valer para nos dirigirmos ao palco em que realizaríamos nosso sonho. A moça também nos repassou alguns contatos que poderiam nos ser úteis — ela era filha do prefeito. É certo que nenhum dos telefones jamais atendeu, mas inflamos o espírito de esperanças. Assim, decidimos: iríamos mesmo ao show do Príncipe Negro.

Na hora combinada, na sexta-feira, eu e meu maior parceiro de aventuras nos encontramos, tomamos um ônibus municipal e partimos para a rodovia. Nosso destino inicial: a entrada da cidade, de onde, segundo o plano desenvolvido, pegaríamos rápido uma carona até Visconde do Rio Branco, onde pensaríamos as próximas etapas estratégicas. Passou um carro e não parou. Passou outro. Outro. Até que um parou, mas não foi para a gente, e levou outro pessoal que suplicava transporte. A cena se repetiu infinitas vezes, até que o Sol jazeu e o crepúsculo noturno coloriu o firmamento. Aos poucos toda espécie de mochileiros encontrou um ombro-amigo motorizado e sobramos apenas nós dois no perigoso asfalto intermunicipal. Entreolhamo-nos, indecisos, prestes a esboçarmos as primeiras palavras de fraqueza e cogitar a hipótese do retorno ao lar com o rabo entre as pernas.

Eis que os céus mandaram um sinal: deveríamos permanecer. Um coletivo particular passou lentamente e, em seu dorso, observamos, grafado em letras garrafais: “Claudinho Turismo”. Sim, o quase-irmão de Buchecha, peça fundamental em alçar a dupla ao sucesso no cenário nacional, falecido anos antes, tratara de nos encorajar. A saga persistia. O ônibus também não parou, mas nos fez partir para um imediato plano B: recorrer à rodoviária em busca de uma combinação de carros até a distante Guiricema.

3 comentários:

Régis André disse...

Sensacional!!! Ja estou ansioso pelo resto da saga, embora conheça a história e os personagens que cruzaram o caminho de vocês!!

fran disse...

nossaa muito legal seu bloog!
li tudinhooo.....adorei!
beijão Fran.....

João disse...

Pressinto o começo de uma saga épica!

(seguindo sua recomendação lerei todos os capítulos, noto que será pura emoção!)